Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

terça-feira, 12 de junho de 2012

Universidade e Ribatejo (III)


Maio é o mês da mãe. Mês de morte e de renascimento onde começa a vida, nas palavras do poeta. Maio, desde aurora da humanidade, têm estado associado ao culto a divindades maternais, que incorporam em si mesmas o espírito renovador da natureza das coisas, tantas vezes personificado como “Natureza Mãe”. Este grave mês, associado pela tragédia de Chicago à luta secular das classes laboriosas, também é sinónimo da festa para os estudantes — marcando para uns o começo e para outros o fim de uma etapa percorrida. Possam, neste “Maio quente” em que vivemos, estes palavras singelas, alinhavadas em jeito de crónica, inspirar vontades na concretização de uma ideia, a qual, sentado nos ombros de gigantes, já há algum tempo venho defendendo: a fundação da Universidade do Ribatejo.
Neste texto não pretendo justificar a defesa da minha dama. Creio que a necessidade de uma Universidade no Ribatejo é premente, não apenas pelas várias razões inumeradas nos dois textos anteriores, mas, também e, fundamentalmente, pela necessidade de desenvolvimento económico, social e cultural das populações da nossa região. Aqui proponho o elencar de três caminhos, necessariamente, três alternativas para a concretização deste desígnio multissecular.
Numa primeira análise, nos dias que correm, o caminho mais evidente para a criação de nova Universidade será o da iniciativa privada. Não discuto aqui a legitimidade deste caminho, nem a sua viabilidade económica. Mas temo que se for por este caminho qualquer Universidade do Ribatejo, terá desde logo duas dificuldades de maior: a necessidade de afirmação regional e a concorrência com instituições preexistentes. Estes escolhos poderão, até, ser “cabos Não” ultrapassáveis, mas não creio que a simples solução da criação de uma nova instituição de ensino superior na região, possa ser o caminho mais avisado.    
Em boa verdade, neste particular, devemos aqui render homenagem ao Doutor António Madeira, professor e dirigente do ISLA de Santarém, fundador do grupo UNISLA, que muito labutou para a fixação e desenvolvimento de uma instituição de ensino superior de referência no distrito de Santarém. De facto, o ensino superior universitário já vai estando presente na região graças a esse esforço e aos dividendos que dele se colheram.
O outro caminho, também evidente, será o da constituição pública (entenda-se governamental) de nova Universidade no distrito. Não, será, certamente, possível, este cenário a breve trecho. Os gestores do Estado numa ânsia colectiva de diminuição de custos, buscam em primeiro lugar encerrar e despedir e só a posterior ponderar decisões. Nesta avalanche de extinções e de fusões, já muitos alvitram a fusão dos dois Institutos Politécnicos da região em Universidade ou noutra coisa qualquer. De novo, não discuto a viabilidade económica dessa ideia, mas tenho reservas quanto à legitimidade da mesma. Quando, na história recente do nosso ensino superior (em Trás-os-Montes ou na Beira Interior), algum Instituto Politécnico se transformou em Universidade fê-lo por vontade emanada das próprias vivências e dos desígnios evolutivos da comunidade onde se insere. Por ora, não sou arauto deste caminho, creio existirem rotas mais interessantes a desbravar para um Universidade no Ribatejo.  
Proponho um “caminho do meio”. Em minha modesta opinião, sustento que a fundação da Universidade no Ribatejo deve nascer da comunidade e para a comunidade, integrando todos os parceiros possíveis (públicos, privados, cooperativos, associativos ou individuais) numa lógica agregadora. A ideia de Universidade derivará, nessa comunhão social de vontades, num projecto regional de Escola, educando, reflectindo e, até, apontando soluções nos caminhos de futuro. Entendo, que, utilizando a figura jurídica da Fundação, poderá a futura Universidade do Ribatejo nascer do comum acordo e do interesse mútuo de todas as instituições de ensino que já actuam na região. Esta lógica de agregação das sinergias das gentes do Ribatejo na construção de um novo projecto universitário na região constituirá, sem dúvida, uma mais-valia não apenas para a região, mas ainda para todos os intervenientes.   
Enquanto o actual sistema organização económica sobreviver os tempos de crise são, como nos ensina a boa economia, cíclicos. Nem estes sobressaltos económicos, nem agonia social em vivemos poderão ser ultrapassados com soluções arcaicas. Nos momentos sombrios em que nos assalta o gérmen da insegurança do (e no) futuro, devemos antes encarar esse tempo do porvir, apenas se fosse outro dia desponta. Nesse futuro incerto e ensombrado, vislumbra-se um novo mês de Maio de renovação social, saibamos ter as mãos abertas e prontas para o construir, todos juntos.

© José Raimundo Noras
Maio 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Universidade e Ribatejo (II)


Março é o mês da Universidade em Portugal. Abril é, sem dúvida, o mês da Liberdade. Contudo, a liberdade é conceito (ou sentimento?) mais difícil de definir do que o de universidade. A liberdade vive-se, constrói-se e sente-se. Na noite do tempo, Universidade e Liberdade foram andando de mãos dadas nos trilhos do conhecimento — e quando assim não aconteceu, lentamente, foram eclodindo revoluções que fizeram a Terra tremer.
Neste tempo santo da Páscoa, nossas religiões definem ainda melhor liberdade. Em primeiro lugar, a Páscoa é liberdade: como fuga da tirania do faraó ímpio. Mais tarde, com a Boa Nova a liberdade é a vitória sobre essa certeza indelével da vida: a morte, com a Ressureição. De facto, o triunfo de Jesus de Nazaré sobre a morte pode ser visto como o triunfo dos homens sobre o tempo, evidentemente, com a sempre pronta ajuda de Deus. Deus que deu às mulheres e aos homens a ideia de Universidade.
 À parte de considerandos poéticos e teológicos. Volto à carga com outra ideia: sem universidade o Ribatejo não sobreviverá. Estou certo que muito me apodarão de “profeta da desgraça” e outros questionarão o conceito identitário de Ribatejo. Essa é uma discussão que não cabe aqui. Quem não sabe o que é Ribatejo, vá às Festas do Colete Vermelho, ou visite Alverca do Ribatejo. Pregunte às gentes de Mação por preferem ser ribatejanas a outra coisa qualquer entre a Beira e o Alentejo. Para descobrir o que é Ribatejo, dê um passeio por Coruche à tarde olhando o Sorraia. E porque não? Por caminho outrora mais tortuoso, atravessar o Paúl de Magos e descobrir Salvaterra? Ou quem sabe visitar a Glória do Ribatejo. Quem não sabe o que é Ribatejo, desafio a que, ainda este ano visite a Feira do Ribatejo todos os dias. Desafio, ainda, tais gentes pouco ribatejanas, a que não se fiquem por estas bandas continuem rumo ao Norte e ao Sul desta região, a qual já os romanos chamaram “entre Tejo e Anas”. Ou, ao invés, segui em direcção ao “mar oceano” perscrutando matrizes da cultura Aviera que tanto veio enriquecer o vale do Tejo — território a que prefiro chamar: o Ribatejo. Os “nomes das coisas”, sejam de pessoas ou de regiões, também se cristalizam na nossa identidade e por isso lhe pertencem. Antes de desconstruir ideias, como defendeu o filósofo Derrida, creio que saber aproveitar as boas ideias do passado como valor construído de futuro, será um caminho melhor.
Decorre da minha prosa que alguns cidadãos, “decisores políticos” ou “peritos” no assunto questionam a matriz identitária do nosso Ribatejo. Verdadeiramente, só uma universidade e o debate livre que a universidade proporciona pode “resolver questão”. Por outro lado, tenho ponto assente que uma Universidade do Ribatejo deverá em primeiro lugar salvaguardar saberes tradicionais característicos. Refiro-me, por exemplo, às artes e aos mesteres, tais como a tanoaria entre outras profissões associados à produção vinícola. Para citar outro exemplo, também a “arte do embolador” e outras profissões ligadas à tauromaquia. Com estes exemplos não procuro promover a “simples” “protecção da tradição”, enquanto património imaterial, mas antes à valorização económica de “saberes fazeres” constituindo contributo para o futuro da comunidade. O mesmo se deve verificar com todas as actividades ligadas às manifestações do folclore. Neste aspecto volto a questionar o absurdo. Porque se torna mais fácil, sobre de todos os pontos de vista, a um jovem ribatejano, para estudar folclore (num curso de antropologia, imaginemos) ter de sair da sua região, durante anos? Vejam que o mesmo é válido para Medicina, História, Economia ou Direito.
Em boa verdade, durante muito tempo a nossa proximidade a Lisboa cerceou o desenvolvimento do Ribatejo. Contentando-nos com sermos a “província às portas do Chiado” continuámos a alimentar a “capital do império” com recursos humanos, materiais e intelectuais (para já não falar patrimoniais). Ficámos sem diocese até à aurora de Abril e sem universidade até hoje. A universidade tem de voltar ao Ribatejo é um sonho antigo. Este texto escrito em Abril persegue o sonho. Em Maio apontarei três caminhos para lá chegarmos.

© José Raimundo Noras 

Universidade e Ribatejo (I)


Março é o mês da Universidade. De certo modo, podemos considerar poética a instituição do então Estudo Geral em Lisboa, pelo rei trovador D. Dinis, no primeiro de Março do ancestral ano de 1290. Neste mês em que a natureza se renova, o excelso governante, atendendo às súplicas dos seus súbditos, autorizava a fundação da Universidade em Portugal, dando origem ao instrumento de renovação intelectual dos homens. Evocamos a memória apenas para contextualizar a nossa reflexão: esta é uma crónica para o futuro.

Na nossa região do Ribatejo, existem, nos dias de hoje, dois Institutos Politécnicos, uma das mais antigas instituições privadas de ensino superior o ISLA, sendo que atuam várias dependências de outras instituições de ensino nas duas NUT III que compõe o distrito. A oportunidade de reforma da rede do ensino superior português, ainda que no atual momento económico, pode fazer nascer a Universidade do Ribatejo, até porque cada vez são mais as vozes que o defendem em vários quadrantes políticos e sociais.

Em boa verdade, trata-se de uma ideia antiga — alguns estudiosos sustentam que tem raízes na própria ideia de universidade em Portugal, escudados na assinatura da “petição dos prelados” datada 1288 por três clérigos da cidade de Santarém. Muitas vezes ouvi discutir nas aulas de História da Universidade, que talvez apenas a ausência de diocese e os velhos conflitos entre a Sé de Lisboa e a Colegiada de Santa Maria de Alcáçova obstaram à fixação na capital ribatejana da primeira universidade portuguesa. Abandonemos infrutíferas especulações académicas dando a honra a quem a deve. O grande mentor da ideia de “Universidade do Ribatejo” foi o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, cujos pergaminhos intelectuais são sobejamente reconhecidos e cuja acção, nos anos 80 em prol da criação da Universidade do Ribatejo, foi dedicada e prolixa apenas esbarrando na incompreensão do poder político pouco sensível a questões culturais e educacionais, dos governos liderados então pelo professor Cavaco Silva.

Hoje, de um ponto de vista idiossincrático, o Ribatejo não sobreviverá sem a sua Universidade. Sem universidade o Ribatejo continuará a exportar talento, bens e matérias-primas contentando-se com um papel catalisador da grande região de Lisboa, sem explorar conveniente os seus recursos humanos e naturais. Todos sabemos que uma universidade fortalece a região onde se insere e, sinceramente, continuo a achar ridículo que seja mais fácil a um jovem do Ribatejo de estudar enologia em Trás-os-Montes ou em Londres, do que na nossa região.

A ideia de Universidade do Ribatejo não pode excluir as realidades pré-existentes, nem se opõe, de forma alguma, ao ensino politécnico. De facto, a divisão conceptual entre ensino politécnico e universitário, tão característica dos países do Sul da Europa, deverá, cada vez mais, servir para superar as clivagens entre arte, ciência, filosofia e tecnologia, quase sempre um lugar-comum nesta nossa “era da técnica”, na feliz expressão de Walter Benjamim.

No Ribatejo, devemos de apreender com o exemplo da ancestral Universidade de Lisboa cuja fusão com a Universidade Técnica da mesma cidade pretende criar valor para o futuro, para Portugal e para o mundo. Uma universidade só pode ter o universo por limite. Não por fica aqui esta defesa singela da Universidade do Ribatejo prometo voltar ao assunto, com propostas mais concretas. Esta crónica, por economia de meios terá três partes.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Festas de São José: resposta ao Sr. Presidente Moita Flores

Senhor Presidente,

Estimado Professor Francisco Moita Flores,

 Peço-lhe algum critério de justiça nas suas palavras. Sempre fui às Festas de São José, sempre defendi publicamente, dentro e fora do partido onde milito, a necessidade da Festa na Cidade. Tal como o senhor o fez, passando (e bem) das palavras às concretizações. Nunca me ouviu criticar a Festa ou, de algum modo, menosprezá-la. Só por uma vez - aliás, deixando bem claro que tal não constituía a minha posição política, nem pessoal -  numa intervenção minha, em sede de Assembleia Municipal, expressei e reproduzi queixas que vários munícipes fizeram chegar ao Senhor Presidente, aos Deputados Municipais e à comunicação social em geral, reiteradamente sobre uma festividade, à qual aliás fui no primeiro dia, no Jardim da Liberdade.  Referi tais queixas porque é meu dever fazer chegar preocupações de quem represento a tal Assembleia e, também, com intuito de melhorar eventuais realizações futuras, que evitassem esses tão comuns "queixumes de vizinhos" acerca da penúltima ou da última festa no Jardim da Liberdade, vulgo Av. General Sá da Bandeira. E, volto a repetir, apenas o fiz porque os vizinhos se queixavam de não terem sido avisados da realização de tal festa, situação pouco educada, nas raias da indecência. Creio que tudo foi esclarecido nesse episódio recente da saga: "A Festa e a Cidade".
 Outras festas que critiquei, critico e criticarei, foram as da sua "guerra pessoal, política e, atávicamente, nostálgica" com o CNEMA. Prejudicando e concorrendo com a Feira Nacional de Agricultura/Feira do Ribatejo (FNA/FR), jogou com as emoções e com a nostalgia da população, quando bem sabemos que no espaço do CNEMA está o futuro e o progresso da identidade e da nossa tradição ribatejana. Em boa hora, o Sr. Presidente fez as pazes com o CNEMA e ainda espero ver por lá cavalos a correr, até porque também gosto de jogo e aposto consigo um almoço em como tão cedo não veremos esse projeto nascer. (Não se esqueça que ainda me deve um café no Central!)

 Vivi cerca um terço da minha existência como pessoa, em Coimbra, cidade que bem conhece. Cidade onde a população e todos os cidadãos de corpo inteiro reconhecem a necessidade de ofertas lúdicas para a comunidade estudantil, para os turistas, para os concidadãos, no sentido do estímulo da economia local, no sentido da própria vivência do que é ser cidade. Creio que neste momento Santarém, se as "forças vivas" souberem aproveitar a proximidade de Lisboa como oportunidade, fazendo uso das excelentes acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, terá condições para concorrer com a "Noite da Capital". Sobretudo, numa lógica de economia de escala, conjuntamente, com Almeirim e com o Cartaxo, no sentido da alternativa ao rebuliço de Lisboa e arredores. Já por várias vezes, na imprensa, em vários locais públicos, em reuniões partidárias, em conversas de café, elogiei as iniciativas lúdicas e, até, as culturais da autarquia cujos destinos lidera. Em boa verdade, em muitas dessas ocasiões, inclusivamente, tive oportunidade de colaborar e de assistir a tais eventos.
 Peço-lhe: não confunda a árvore com a floresta. O PS/Santarém é uma realidade dinâmica feita de pessoas para pessoas e não uma realidade sisuda de dirigentes arcaicos que não gostam de festa, como nos querem pintar. Apenas defendo e sempre sustentarei, que a Festa, qualquer que seja não deve, se possível (e é possível que o não faça, como o seu texto demonstra, aliás) onerar  o município. Parabéns pela independência financeira das Festas de São José! Este trabalho muito honra o nosso amigo comum, Dr. Vítor Gaspar de saudosa memória, tragicamente desaparecido, com quem várias vezes conversei sobre esta questão da Festa e da Cidade. Digo-lhe ainda que tive a oportunidade de cumprimentar pessoalmente o Sr. Presidente, quando promovi um jantar convívio da JS/Santarém, justamente nas Festas de São José em 2010, enquanto coordenava tal estrutura de jovens socialistas do concelho. Por isso, lhe apelo à sensatez que o caracteriza, não confunda algumas árvores com a floresta. Nem ligue à maledicência do boato dos que querem dividir para reinar. Não sou adepto da "politiquice", nem do "bota-abaixismo", nem do "ser contra tudo crónico", como penso que me reconhece. Apenas não fui a uma edição das Festas de São José, desde há muito tempo, justamente a de 2012, tinha compromissos prévios com o ENEH, em Évora.
  A Festa é da cidade e pertence ao povo e a sua realização no "novo" Campo da Feira (porque, como bem saberá, o original Campo da Feira ficava exactamente onde hoje se localiza o Jardim da Liberdade) foi sem dúvida bem-vinda e reforçou laços entre cidadãos e cidade. Pena terem-se perdido os tradicionais concertos no coreto do Jardim da República, que tanto apreciava em criança, quem sabe que possam regressar. Digo-lhe isto sem pejo de ironia, sem nostalgia alguma, de forma honesta. Creio sinceramente que o modelo erudito das Festas da Cidade dos anos 80/90 poderá, perfeitamente, complementar outro tipo de manifestações, como aliás a edilidade já tem tentado fazer. Não confunda a cidade que encontrou, com o que a cidade foi, muitas vezes é mais fácil destruir do criar, se bem me entende.
 Já agora, sugiro-lhe, e porque não uma "rave" no Convento de São Francisco? Tal como chegou a acontecer em 1993 (ou 1994) durante um fim-de-semana? Também nessa altura choveram críticas contra a festa, vindas do partido que representa, das "beatas do costume", dos "fanáticos do património" e de todos a quem a inovação causa estranheza. Seja mais justo nas suas palavras.

 Votos de salutar recuperação. Bem-haja Sr. Presidente, cordialmente,

José Raimundo Noras

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

“Os Espiões e a Segurança”: resposta a aberta ao Sr. Jorge Santos


          Caríssimo Sr. Jorge Santos, os termos de comparação que utiliza não são intelectualmente honestos. Em primeiro lugar, já existiam serviços de espionagem nas democracias e isso não impediu os atentados que refere. Ofender a minha memória histórica ou a minha simpatia pelas vítimas desses acontecimentos não é correto da sua parte. Devemos combater a violência com não-violência, como nos ensinaram os “mestres” Gandhi e Martin Luther King. A democracia vive da tolerância e da transparência e a existência de um serviço de informações como o que temos atualmente — friso que me refiro à “polícia política e económica” que ouve conversas de jornalistas sem qualquer decisão judicial e com agendas próprias — é moralmente reprovável. Para além disso, bem sabemos da infame “guerra suja” contra a ETA, no país vizinho, a organização basca apenas derrotada com a força do povo e a vontade coletiva vontade de paz, evidentemente para lá do empenho das forças de segurança. Também é público que Osama Bin Landen foi uma “criação” militar e intelectual da CIA, bem armado e ideologicamente preparado para combater os “russos vermelhos” no Afeganistão. Sabemos, muito pouco das atuais guerras internas do FSB (ex KGB), mas vimos morrer envenenado um cidadão russo em Londres, certamente com interesses nessa secreta.
            Nos dias de hoje, neste século XXI da informação liberta, querer cercear o conhecimento é censura (muitas vezes com interesses pouco claros, veja-se a campanha difamatória contra o fundador da Wikileaks). É óbvio que os Estados, os governantes têm de estar bem informados, mas para isso não devem poder contar um sistema moralmente caduco de “secretas”, cujos operacionais (com muitas honrosas exceções assim espero) se servem dos seus poderes e do seu estatuto para enganar o cidadão e servir as tais agendas pessoais. 
          Lembra-se do início da guerra civil na Guiné-Bissau? O Estado Português nada sabia do que se passava, ao que parece mal informado. Na imprensa escreveu-se que o responsável dos serviços de informação, na praia de Portimão, tinha escrito um relatório sobre a calma e o tranquilo ambiente político desse país nas vésperas do golpe de estado. Talvez até assim não fosse, visto que “por acaso” uma fragata nacional fazia exercícios militares nessa época bem perto das águas da Guiné-Bissau e o apoio material da RTP aos revoltosos até gerou incidentes diplomáticos.
           Posto isto, um serviço de “inteligência” ou de “informações” deve ser um centro de investigação política e diplomática, o qual até pode fazer sentido no estado de direito (como chegou a ser a CIA no tempo de Jimmy Carter). Um oligopólio dentro do estado, com ordem para espiar, cujos “operacionais” são recrutados “de forma secreta” e cujos dirigentes depois do “serviço público” prestado vão “vender” segredos pelo preço mais alto, na mais vil traição à pátria: não serve a nada, nem serviria à ditadura quanto mais à democracia. Um serviço destes não pode, honestamente, ser comparado a qualquer polícia ou força de segurança, repleta de profissionais honestos. Aliás, se eu fosse polícia ou magistrado estaria sempre de “olho aberto e de pé ligeiro” contra qualquer espião mal-intencionado.
(Esclarecimento final a Interpol não é uma “polícia secreta” é uma força de segurança internacional que atua com autorização dos países que subscrevem as convenções e tratados para esse efeito.)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Republicana resposta à ignorância real: em defesa do 5 de Outubro

     Veio o putativo herdeiro da casa real portuguesa a Santarém congratular-se com o fim do 5 de Outubro, enquanto feriado nacional. Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer o senhor Duarte — aliás, já diz o povo “existem outras Marias na terra” — que, entre as muitas efemérides celebradas a 5 de Outubro, se recorda a do ano de 1143, quando foi firmado em Zamora um célebre tratado que veio trazer “a paz a estes reinos”, assim como a liberdade e a independência a quem lutava por tais ideais.
     Relativamente à “democrática monarquia” a sua decadência económica era tão grande, ao ponto de, em 1891, o estado português ter falir, em virtude da falência dos seus fiadores, no contexto de outra devastadora crise internacional. Na verdade, “quem não sabe é como quem não vê” e, todos nós, somos homens dotados de razão e de limitado conhecimento histórico. Não compreendo bem como alguém se arroga de putativo herdeiro de uma casa real defunta, quando de facto é descendente do "absoluto rei" D. Miguel, linha dinástica para a eternidade afastada de qualquer sucessão.
     A V. Ex.ª fica-lhe mal defender a “democracia dos últimos anos da monarquia”, quando nesse periódo esta se materializou em "suave ditadura", instaurando a censura, para além das prisões políticas constantes. Não vou continuar a perorar neste terreno pantanoso da sua demagogia, comparando épocas históricas distintas com o anacronismo dos hipócritas. Para além de republicano sou um homem livre, assim como um humilde aprendiz da arte de historiar e da probidade desse ofício. E por isso, sei bem não reconher a I República um corolário de virtudes.  Essa I República, essa malograda I República, vítima do conservadorismo atávico dos seus opositores e do oportunismo de alguns dos seus intervenientes deu razão a Fernando Pessoa, observador quase imparcial: (…) o país podia estar preparado para a anarquia; para esta República é que não estava. (em Da República, Ática, 1978).
     Não sou monárquico, como é do conhecimento público, ainda que até aos meus dezoito anos nutrisse alguma simpatia por tais doutrinas. A bem da verdade, informo que cheguei a participar, inclusive, em jantar de conjurados e que vou mantendo velhas amizades com monárquicos de carácter. Porém, hoje em dia, firmada a minha consciência política: o meu republicanismo é inabalável. Trata-se de republicanismo assente numa ética cristã e numa visão universalista do carácter, o qual não se diverte tripudiando, com demagogia fácil, os ideais dos outros, nem nunca pretendeu desvirtuar da memória de um povo. No respeito uns pelos outros, na proteção das minorias está a verdadeira democracia.
     Senhor Duarte, não concordo consigo. No tolero a sua boçalidade disfarçada de sapiência. No entanto, sou um primeiro a defender um referendo sobre a forma da organização política do Estado. Num regime democrático devemos escolher que país queremos e como o queremos governado. Aliás, na República Federativa do Brasil já o fizeram, e o povo escolheu a República. Temos muito a apreender com uma democracia irmã, com os mesmo problemas que a nossa, mas que vai trilhando outras soluções. No Brasil já referendaram a República como forma de organização do estado e já demitiram um presidente incompetente porque mentiu ao povo. Em vez de discussões estéreis e de “revanches históricas aparvalhadas" deveríamos discutir o futuro da nação. 
     Aos monárquicos com coragem deixo um desafio: promovam um referendo sob a de organização do Estado. Ainda que contrária a atual constituição, esta parece uma ideia justa. Contudo, se continuam a pretender “brincar à casa real” bem protegidos pelo protocolo do “pseudo-estado republicano” e pelo deleite nacional no “folclore cor-de-rosa”, abstenham-se de insultar a memória do povo. Abstenham-se de insultar a memória deste honrado povo português que a largas expensas de sangue, de suor e de lágrimas foi protegendo os vossos antepassados e a sacral ideia de liberdade.      

07/02/2012, Santarém
© José Raimundo Noras

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

De como escolher o meu país? (carta aberta ao Sr. Presidente da República)

Senhor Presidente,

Chamo-me José Miguel Raimundo Noras, tenho 31 anos, presentemente sou professor, "aprendiz de historiador" e "operário da poesia", nas horas vagas. Bem sei, que estas "coisas" da cultura e da literatura lhe dizem pouco, que V. Ex.ª é mais um homem dos números. Pessoalmente, a bem da verdade, tive muitas "lições de economia", sempre fora da escola ou das letras soturnas das bibliotecas. A primeira lição que tive, ainda que não o soubesse à época, foi afiançada pela minha avó, Emília Inácia Correia, mulher honrada que deixou de trabalhar para comparticipar no labor da minha educação. Outras lições económicas fui apreendendo nessa "escola da vida". Por exemplo, a lição de como guardar os vinte escudos semanais ao invés de os "estoirar" em gelados, ou de como amealhar aquelas notas azuis com a efígie de Fernando Pessoa numa caixinha de metal. Posso não ter formação académica em questões económicas e em "questões especulativas", nem quero ter. Todavia, tal como o grande génio português do século XX sou frontalmente: "contra a ditadura dos financeiros sem pátria".    
Deixemos de lado estas questões poéticas, políticas, literárias ou até filosóficas o que pretendo é solicitar-lhe auxílio: eu quero escolher o meu país! 
Em boa verdade, amo Portugal, gostaria bastante de aqui viver se se tratasse de um país livre, sem censura social ou política, sem disparidades abusivas nos níveis de qualidade de vida. Gostava viver em Portugal e cá singrar se não se tratasse de um país doente, com "mal de inveja" cáustico e graves "vícios de forma" que elevam a mediocridade de V. Ex.ª a altas magistraturas.
Sou um privilegiado, tenho essa noção. Tive grandes oportunidades, garantidas em parte pelo Estado, mas sobretudo granjeadas pelo esforço hercúleo de minha família por entre gerações e gerações. Fui aproveitando tais "chances" de sucessos a diversos níveis e mormente as agarrei "com unhas e dentes", no que respeita à educação, aos mais variados tipos de educação que tive a honra de receber. Como homem livre, dotado de razão e de palavra de honra, continuo a ter um ideal,  aliás como alguém já cantou, tenho um ideal: "um ideal social". 
Regressemos à cruel realidade dos números. Sabe, Senhor Presidente, em 2009, acumulei três profissões, publiquei dois livros e fui escrevendo a minha dissertação de mestrado. Na medida das minhas possibilidades e com o tal inexcedível apoio da minha família lá fui também estimulando a economia pátria consumindo aqui e ali variados tipos de bens. Em 2010, acumulei três profissões, outros tantos livros publiquei e, para grande felicidade minha, o meu trabalho até foi sendo reconhecido com alguns prémios científicos e literários. Em 2011, continuei a minha labuta anual. No final, desse ano, com árduo esforço, dispêndio e muita disciplina, finalmente concluí uma dissertação de mestrado, propriamente dita, na qual obtive classificação máxima. Ao mesmo tempo, mantenho actividades políticas e afazeres associativos de ordem vária, na exacta medida das minhas forças. No entanto, algumas "potências estrangeiras" invadiram Portugal e, todos os dias, com conivência e passividade de V. Ex.ª, líder da nação, os estrangeiros chamam aos portugueses: "preguiçosos", "passivos", "maus pagadores" ou "pouco produtivos". Chamam-nos estes nomes com todas as letras ainda que disfarçadas de estatística imoral.  Esses estrangeiros medonhos, esses "credores da usura", ofendem a nação sem pejo nem moral e o Sr. Presidente colabora tais "bandidos troikanos"? Porquê? Todos dias, como lobo disfarçado de afável animal, V. Ex.ª comete a mais vil traição à pátria que jurou defender. A sua traição é pior que a traição dos vendidos, é a traição dos que calam, é a traição do silêncio e das palavras vãs. 
Regressemos à cruel realidade dos números. Em toda a minha meia década de trabalho, incluindo o período de estágio, ainda não consegui auferir num ano o que V. Ex. recebe de aposentadoria por trimestre, mas estou certo de que lá chegarei. De facto, considero inócuo o coro de críticas em relação à remuneração de V. Ex.ª. Aliás, críticas muitas vezes desonestas intelectualmente (ou moralmente provenientes de quem tem "telhados de vidro"). Não creio que sejam elevadas as remunerações dos cargos políticos. O problema está na "outra ponta da navalha": são os salários baixos!  O problema de justiça social que se nos coloca é que salário mínimo nacional se cifra em 485€ e com isso apenas é muito difícil sobreviver. Por outro lado, dizem por aí e bem sabemos que 20 % da população trabalha em "economia informal", ou seja nem desconta, nem paga imposto algum e, muitas vezes, nem o salário mínimo aufere.  O problema Senhor Presidente é que todo o trabalho é digno e todo trabalho é árduo, por isso todo trabalho deve ser remunerado com justiça. Todo o trabalho deve ser recompensado com equidade e todo o trabalhador tratado com dignidade (e eu diria acarinhado para produzir com amor.)  
Senhor Presidente, espalhados pelo mundo fora existem outros senhores que ganham por hora o que V. Ex.ª recebe ao ano. E nesta "aldeia global" existem ainda outros senhores: os tais "senhores credores". A quem nós no Ribatejo, terra de gente honrada que trata "os bois pelos nomes", preferíamos, em relação ao caso concreto do FMI ou das agências de "rating", chamar de vigaristas. Na verdade, em muitos casos, tratam-se de senhores pouco honrados, de vígaros, de "engenheiros financeiros" que "brincaram" e que "jogaram" com o nosso futuro, com o nosso trabalho, com as nossas poupanças. São senhores emproados, bem-vestidos, os quais se em vez de computador e de calculadora usassem de "lábia" ou de "faca-de-ponta", se em vez de fato vestissem trapo, esse senhores, facilmente, incorreriam no crime "burla" ou de "assalto à mão armada". Estes velhacos são os tais "financeiros sem pátria". São homens sem moral e sem qualquer pingo de honra. Esperemos  que Deus, ou qualquer outra consciência universal, os julgue por seus crimes contra a humanidade. Entristece-nos, porém, que o Sr. Presidente pactue no "saque da pátria" com juros de usura. 
     Bem sabe, certamente melhor que eu, que toda a dívida tem uma contrapartida. Existirá uma razão, (ou até um ativo), em prol da qual foi contraída essa dívida. Por qualquer razão obscura não querem esses senhores credores tomar conta dos activos? Que razão será? Será porque, como bem sabemos, a "dívida global" é uma falácia? Aliás, tal "buraco financeiro" no sistema foi em grande parte gerado por "burlas" ou "esquemas duvidosos" da grande banca mundial que em 2008 "estoirou". Um pouco de memória: esta crise é muito diferente da crise de 1929 e bastante semelhante à grande crise de 1891, quando o "Portugal português" então "uma granja e um banco" (nos dizeres de Oliveira Martins) viu o Estado se declarar insolvente. 
   A austeridade é um erro. "A austeridade é política de classe", como nos explica Marc Blyth. A austeridade é uma calamidade pública e não trará qualquer solução estrutural aos reais problemas económicos (entenda-se que a economia não é a finança) de Portugal. Todos os grandes economistas o sabem e, lá diz o povo, "o pior que cego é aquele que não quer ver". Contudo, esses "senhores credores" invadiram o nosso país e, como já disse, a minha pátria está a saque! Pior que isso, o governo que me representa pretende antes de mais obedecer a uma instância burocrática e ditatorial, que dá pelo nome BCE, do que cumprir com o que devia ser o seu primeiro compromisso de honra: a salvaguarda dos direitos, das liberdades e garantias e dos legítimos interesses económicos do povo português. Para além dos diversos atentados à nossa liberdade económica, enquanto cidadãos, a palavra de ordem deste governo incoerente, incompetente e ignorante é: "vender por pouco dinheiro".  
  Senhor Presidente, sou um jovem professor e escritor tenho consciência das minhas capacidades e do meu valor, sempre com a humildade de quem aprende com o tempo que corre e com a gentes que ouve. Porém, o governo que desgoverna já deixou claro que não faço falta ao esforço de "consolidação nacional".
   Muito provavelmente, segundo prevejo, até ano de 2016 tenho compromissos que me prendem em Portugal. Sou um homem de palavra. Depois terei de partir. Ajuda-me a escolher o meu país?                
Janeiro de 2012 
(Originalmente em blogue
 "Escolher o meu país" entretanto extinto)
José Raimundo Noras

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Movimento Partido Pirata Português - Denuncia o Novo Estado Novo Invasivo da NET

Boa tarde

Surgiu em Portugal um novo Movimento: pró Partido Pirata, inspirado no famoso Partido Pirata Sueco.

Veja a denúncia da ditadura mental que nos oprime.... Parece que vivemos em 1985!

http://www.partidopiratapt.eu/arquivos/1670

Contra a "Tirania Mental", Age, Reage, Denuncia. oUsa!

Por uma sociedade transparente.

Até amanhã camaradas.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ética, Moral e Maçonaria ou e que tal refundar a Carbonária?

Vivemos num mundo global, onde, infelizmente, o individualismo parece triunfar, cada vez mais e a cada dia que passa. São bem conhecidas as origens históricas da Maçonaria, o seu papel político, social ou libertário ao longo dos tempos. Esta não uma reflexão sobre a sua história. Na verdade, a Maçonaria, tal como qualquer outro discurso religioso, responde a uma necessidade de aperfeiçoamento espiritual do ser humano. 
De facto, devo esclarecer que quando fundei este blogue me inspirei no nome da loja maçónica "A Revolta", à qual pertenceu Joaquim de Carvalho, o "professor de Coimbra", cuja solidez intelectual, ética e moral foi inabalável.  Não sou maçon, não sei se o quero ser, devido à minha costela anarquista. Por outro lado, tal como Agostinho da Silva, preferiria o exílio, a ter de assinar qualquer documento que me impeça ideologicamente, no futuro, aderir seja à Maçonaria, seja ao Komitern, seja a uma hipotética V Internacional, como o Estado Novo obrigou a muita gente a fazer.
Todo este "escândalo das secretas" revela os poderes que se movem na sombra e, hoje, minam a nossa democracia. Se nos atiraram areia para os olhos com as "maldades" da Maçonaria, porque não fazem as verdadeiras questões? Necessita um estado democrático de um (ou vários) "serviços de espionagem"? Serviço esses, cujos operacionais podem tentar "controlar os gajos que escrevem",  ou espiolhar as conversas de qualquer cidadão com vasto poder discricionário? Bem sabemos, que os "nossos SIS foram" treinados pela CIA e pela SAPO (serviços de informação suecos) no idos do pós-PREC. Contudo, a discussão sobre a sua necessidade sobrevive. Na sociedade da informação fará algum sentido o Estado querer controla-lá? Fará sentido o Estado gastar dinheiro a manter segredos? Segredos tais que no fundo não são segredos nenhum e protegem teias de compadrio? No fundo é uma questão de ética e de moral. Aliás, já se diz "quem não deve, não teme"!
Ser maçon, não é "pecado" nenhum bem o sabemos. Já ser "espião" parece-me uma profissão pouco louvável nos dias que correm.
Chegamos então ao cerne desta crónica. Houve, em tempos, uma sociedade secreta, de cariz revolucionário, dedicada à liberdade e ao bem do povo. Por isso pergunto à nossa gente e que tal refundarmos a Carbonária?

JRN
jmrnoras@gmail.com