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Eça de Queirós

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Republicana resposta à ignorância real: em defesa do 5 de Outubro

     Veio o putativo herdeiro da casa real portuguesa a Santarém congratular-se com o fim do 5 de Outubro, enquanto feriado nacional. Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer o senhor Duarte — aliás, já diz o povo “existem outras Marias na terra” — que, entre as muitas efemérides celebradas a 5 de Outubro, se recorda a do ano de 1143, quando foi firmado em Zamora um célebre tratado que veio trazer “a paz a estes reinos”, assim como a liberdade e a independência a quem lutava por tais ideais.
     Relativamente à “democrática monarquia” a sua decadência económica era tão grande, ao ponto de, em 1891, o estado português ter falir, em virtude da falência dos seus fiadores, no contexto de outra devastadora crise internacional. Na verdade, “quem não sabe é como quem não vê” e, todos nós, somos homens dotados de razão e de limitado conhecimento histórico. Não compreendo bem como alguém se arroga de putativo herdeiro de uma casa real defunta, quando de facto é descendente do "absoluto rei" D. Miguel, linha dinástica para a eternidade afastada de qualquer sucessão.
     A V. Ex.ª fica-lhe mal defender a “democracia dos últimos anos da monarquia”, quando nesse periódo esta se materializou em "suave ditadura", instaurando a censura, para além das prisões políticas constantes. Não vou continuar a perorar neste terreno pantanoso da sua demagogia, comparando épocas históricas distintas com o anacronismo dos hipócritas. Para além de republicano sou um homem livre, assim como um humilde aprendiz da arte de historiar e da probidade desse ofício. E por isso, sei bem não reconher a I República um corolário de virtudes.  Essa I República, essa malograda I República, vítima do conservadorismo atávico dos seus opositores e do oportunismo de alguns dos seus intervenientes deu razão a Fernando Pessoa, observador quase imparcial: (…) o país podia estar preparado para a anarquia; para esta República é que não estava. (em Da República, Ática, 1978).
     Não sou monárquico, como é do conhecimento público, ainda que até aos meus dezoito anos nutrisse alguma simpatia por tais doutrinas. A bem da verdade, informo que cheguei a participar, inclusive, em jantar de conjurados e que vou mantendo velhas amizades com monárquicos de carácter. Porém, hoje em dia, firmada a minha consciência política: o meu republicanismo é inabalável. Trata-se de republicanismo assente numa ética cristã e numa visão universalista do carácter, o qual não se diverte tripudiando, com demagogia fácil, os ideais dos outros, nem nunca pretendeu desvirtuar da memória de um povo. No respeito uns pelos outros, na proteção das minorias está a verdadeira democracia.
     Senhor Duarte, não concordo consigo. No tolero a sua boçalidade disfarçada de sapiência. No entanto, sou um primeiro a defender um referendo sobre a forma da organização política do Estado. Num regime democrático devemos escolher que país queremos e como o queremos governado. Aliás, na República Federativa do Brasil já o fizeram, e o povo escolheu a República. Temos muito a apreender com uma democracia irmã, com os mesmo problemas que a nossa, mas que vai trilhando outras soluções. No Brasil já referendaram a República como forma de organização do estado e já demitiram um presidente incompetente porque mentiu ao povo. Em vez de discussões estéreis e de “revanches históricas aparvalhadas" deveríamos discutir o futuro da nação. 
     Aos monárquicos com coragem deixo um desafio: promovam um referendo sob a de organização do Estado. Ainda que contrária a atual constituição, esta parece uma ideia justa. Contudo, se continuam a pretender “brincar à casa real” bem protegidos pelo protocolo do “pseudo-estado republicano” e pelo deleite nacional no “folclore cor-de-rosa”, abstenham-se de insultar a memória do povo. Abstenham-se de insultar a memória deste honrado povo português que a largas expensas de sangue, de suor e de lágrimas foi protegendo os vossos antepassados e a sacral ideia de liberdade.      

07/02/2012, Santarém
© José Raimundo Noras

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