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Eça de Queirós

terça-feira, 17 de abril de 2012

Universidade e Ribatejo (II)


Março é o mês da Universidade em Portugal. Abril é, sem dúvida, o mês da Liberdade. Contudo, a liberdade é conceito (ou sentimento?) mais difícil de definir do que o de universidade. A liberdade vive-se, constrói-se e sente-se. Na noite do tempo, Universidade e Liberdade foram andando de mãos dadas nos trilhos do conhecimento — e quando assim não aconteceu, lentamente, foram eclodindo revoluções que fizeram a Terra tremer.
Neste tempo santo da Páscoa, nossas religiões definem ainda melhor liberdade. Em primeiro lugar, a Páscoa é liberdade: como fuga da tirania do faraó ímpio. Mais tarde, com a Boa Nova a liberdade é a vitória sobre essa certeza indelével da vida: a morte, com a Ressureição. De facto, o triunfo de Jesus de Nazaré sobre a morte pode ser visto como o triunfo dos homens sobre o tempo, evidentemente, com a sempre pronta ajuda de Deus. Deus que deu às mulheres e aos homens a ideia de Universidade.
 À parte de considerandos poéticos e teológicos. Volto à carga com outra ideia: sem universidade o Ribatejo não sobreviverá. Estou certo que muito me apodarão de “profeta da desgraça” e outros questionarão o conceito identitário de Ribatejo. Essa é uma discussão que não cabe aqui. Quem não sabe o que é Ribatejo, vá às Festas do Colete Vermelho, ou visite Alverca do Ribatejo. Pregunte às gentes de Mação por preferem ser ribatejanas a outra coisa qualquer entre a Beira e o Alentejo. Para descobrir o que é Ribatejo, dê um passeio por Coruche à tarde olhando o Sorraia. E porque não? Por caminho outrora mais tortuoso, atravessar o Paúl de Magos e descobrir Salvaterra? Ou quem sabe visitar a Glória do Ribatejo. Quem não sabe o que é Ribatejo, desafio a que, ainda este ano visite a Feira do Ribatejo todos os dias. Desafio, ainda, tais gentes pouco ribatejanas, a que não se fiquem por estas bandas continuem rumo ao Norte e ao Sul desta região, a qual já os romanos chamaram “entre Tejo e Anas”. Ou, ao invés, segui em direcção ao “mar oceano” perscrutando matrizes da cultura Aviera que tanto veio enriquecer o vale do Tejo — território a que prefiro chamar: o Ribatejo. Os “nomes das coisas”, sejam de pessoas ou de regiões, também se cristalizam na nossa identidade e por isso lhe pertencem. Antes de desconstruir ideias, como defendeu o filósofo Derrida, creio que saber aproveitar as boas ideias do passado como valor construído de futuro, será um caminho melhor.
Decorre da minha prosa que alguns cidadãos, “decisores políticos” ou “peritos” no assunto questionam a matriz identitária do nosso Ribatejo. Verdadeiramente, só uma universidade e o debate livre que a universidade proporciona pode “resolver questão”. Por outro lado, tenho ponto assente que uma Universidade do Ribatejo deverá em primeiro lugar salvaguardar saberes tradicionais característicos. Refiro-me, por exemplo, às artes e aos mesteres, tais como a tanoaria entre outras profissões associados à produção vinícola. Para citar outro exemplo, também a “arte do embolador” e outras profissões ligadas à tauromaquia. Com estes exemplos não procuro promover a “simples” “protecção da tradição”, enquanto património imaterial, mas antes à valorização económica de “saberes fazeres” constituindo contributo para o futuro da comunidade. O mesmo se deve verificar com todas as actividades ligadas às manifestações do folclore. Neste aspecto volto a questionar o absurdo. Porque se torna mais fácil, sobre de todos os pontos de vista, a um jovem ribatejano, para estudar folclore (num curso de antropologia, imaginemos) ter de sair da sua região, durante anos? Vejam que o mesmo é válido para Medicina, História, Economia ou Direito.
Em boa verdade, durante muito tempo a nossa proximidade a Lisboa cerceou o desenvolvimento do Ribatejo. Contentando-nos com sermos a “província às portas do Chiado” continuámos a alimentar a “capital do império” com recursos humanos, materiais e intelectuais (para já não falar patrimoniais). Ficámos sem diocese até à aurora de Abril e sem universidade até hoje. A universidade tem de voltar ao Ribatejo é um sonho antigo. Este texto escrito em Abril persegue o sonho. Em Maio apontarei três caminhos para lá chegarmos.

© José Raimundo Noras 

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