Março é o mês
da Universidade em Portugal. Abril é, sem dúvida, o mês da Liberdade. Contudo,
a liberdade é conceito (ou sentimento?) mais difícil de definir do que o de
universidade. A liberdade vive-se, constrói-se e sente-se. Na noite do tempo,
Universidade e Liberdade foram andando de mãos dadas nos trilhos do
conhecimento — e quando assim não aconteceu, lentamente, foram eclodindo
revoluções que fizeram a Terra tremer.
Neste tempo santo
da Páscoa, nossas religiões definem ainda melhor liberdade. Em primeiro lugar,
a Páscoa é liberdade: como fuga da tirania do faraó ímpio. Mais tarde, com a
Boa Nova a liberdade é a vitória sobre essa certeza indelével da vida: a morte,
com a Ressureição. De facto, o triunfo de Jesus de Nazaré sobre a morte pode
ser visto como o triunfo dos homens sobre o tempo, evidentemente, com a sempre
pronta ajuda de Deus. Deus que deu às mulheres e aos homens a ideia de
Universidade.
À parte de considerandos poéticos e teológicos.
Volto à carga com outra ideia: sem universidade o Ribatejo não sobreviverá.
Estou certo que muito me apodarão de “profeta da desgraça” e outros
questionarão o conceito identitário de Ribatejo. Essa é uma discussão que não
cabe aqui. Quem não sabe o que é Ribatejo, vá às Festas do Colete Vermelho, ou
visite Alverca do Ribatejo. Pregunte às gentes de Mação por preferem ser
ribatejanas a outra coisa qualquer entre a Beira e o Alentejo. Para descobrir o
que é Ribatejo, dê um passeio por Coruche à tarde olhando o Sorraia. E porque
não? Por caminho outrora mais tortuoso, atravessar o Paúl de Magos e descobrir
Salvaterra? Ou quem sabe visitar a Glória do Ribatejo. Quem não sabe o que é
Ribatejo, desafio a que, ainda este ano visite a Feira do Ribatejo todos os
dias. Desafio, ainda, tais gentes pouco ribatejanas, a que não se fiquem por
estas bandas continuem rumo ao Norte e ao Sul desta região, a qual já os
romanos chamaram “entre Tejo e Anas”. Ou, ao invés, segui em direcção ao “mar
oceano” perscrutando matrizes da cultura Aviera que tanto veio enriquecer o
vale do Tejo — território a que prefiro chamar: o Ribatejo. Os “nomes das
coisas”, sejam de pessoas ou de regiões, também se cristalizam na nossa
identidade e por isso lhe pertencem. Antes de desconstruir ideias, como
defendeu o filósofo Derrida, creio que saber aproveitar as boas ideias do
passado como valor construído de futuro, será um caminho melhor.
Decorre da
minha prosa que alguns cidadãos, “decisores políticos” ou “peritos” no assunto
questionam a matriz identitária do nosso Ribatejo. Verdadeiramente, só uma
universidade e o debate livre que a universidade proporciona pode “resolver
questão”. Por outro lado, tenho ponto assente que uma Universidade do Ribatejo
deverá em primeiro lugar salvaguardar saberes tradicionais característicos.
Refiro-me, por exemplo, às artes e aos mesteres, tais como a tanoaria entre
outras profissões associados à produção vinícola. Para citar outro exemplo,
também a “arte do embolador” e outras profissões ligadas à tauromaquia. Com estes
exemplos não procuro promover a “simples” “protecção da tradição”, enquanto
património imaterial, mas antes à valorização económica de “saberes fazeres”
constituindo contributo para o futuro da comunidade. O mesmo se deve verificar
com todas as actividades ligadas às manifestações do folclore. Neste aspecto
volto a questionar o absurdo. Porque se torna mais fácil, sobre de todos os
pontos de vista, a um jovem ribatejano, para estudar folclore (num curso de
antropologia, imaginemos) ter de sair da sua região, durante anos? Vejam que o
mesmo é válido para Medicina, História, Economia ou Direito.
Em boa
verdade, durante muito tempo a nossa proximidade a Lisboa cerceou o
desenvolvimento do Ribatejo. Contentando-nos com sermos a “província às portas
do Chiado” continuámos a alimentar a “capital do império” com recursos humanos,
materiais e intelectuais (para já não falar patrimoniais). Ficámos sem diocese
até à aurora de Abril e sem universidade até hoje. A universidade tem de voltar
ao Ribatejo é um sonho antigo. Este texto escrito em Abril persegue o sonho. Em
Maio apontarei três caminhos para lá chegarmos.
© José Raimundo Noras
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