Março é o mês da Universidade. De certo modo, podemos
considerar poética a instituição do então Estudo Geral em Lisboa, pelo rei
trovador D. Dinis, no primeiro de Março do ancestral ano de 1290. Neste mês em
que a natureza se renova, o excelso governante, atendendo às súplicas dos seus
súbditos, autorizava a fundação da Universidade em Portugal, dando origem ao
instrumento de renovação intelectual dos homens. Evocamos a memória apenas para
contextualizar a nossa reflexão: esta é uma crónica para o futuro.
Na
nossa região do Ribatejo, existem, nos dias de hoje, dois Institutos
Politécnicos, uma das mais antigas instituições privadas de ensino superior o
ISLA, sendo que atuam várias dependências de outras instituições de ensino nas
duas NUT III que compõe o distrito. A oportunidade de reforma da rede do ensino
superior português, ainda que no atual momento económico, pode fazer nascer a
Universidade do Ribatejo, até porque cada vez são mais as vozes que o defendem
em vários quadrantes políticos e sociais.
Em
boa verdade, trata-se de uma ideia antiga — alguns estudiosos sustentam que tem
raízes na própria ideia de universidade em Portugal, escudados na assinatura da
“petição dos prelados” datada 1288 por três clérigos da cidade de Santarém.
Muitas vezes ouvi discutir nas aulas de História da Universidade, que talvez apenas
a ausência de diocese e os velhos conflitos entre a Sé de Lisboa e a Colegiada
de Santa Maria de Alcáçova obstaram à fixação na capital ribatejana da primeira
universidade portuguesa. Abandonemos infrutíferas especulações académicas dando
a honra a quem a deve. O grande mentor da ideia de “Universidade do Ribatejo”
foi o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, cujos pergaminhos intelectuais
são sobejamente reconhecidos e cuja acção, nos anos 80 em prol da criação da
Universidade do Ribatejo, foi dedicada e prolixa apenas esbarrando na
incompreensão do poder político pouco sensível a questões culturais e
educacionais, dos governos liderados então pelo professor Cavaco Silva.
Hoje,
de um ponto de vista idiossincrático, o Ribatejo não sobreviverá sem a sua
Universidade. Sem universidade o Ribatejo continuará a exportar talento, bens e
matérias-primas contentando-se com um papel catalisador da grande região de
Lisboa, sem explorar conveniente os seus recursos humanos e naturais. Todos
sabemos que uma universidade fortalece a região onde se insere e, sinceramente,
continuo a achar ridículo que seja mais fácil a um jovem do Ribatejo de estudar
enologia em Trás-os-Montes ou em Londres, do que na nossa região.
A
ideia de Universidade do Ribatejo não pode excluir as realidades
pré-existentes, nem se opõe, de forma alguma, ao ensino politécnico. De facto,
a divisão conceptual entre ensino politécnico e universitário, tão
característica dos países do Sul da Europa, deverá, cada vez mais, servir para
superar as clivagens entre arte, ciência, filosofia e tecnologia, quase sempre
um lugar-comum nesta nossa “era da técnica”, na feliz expressão de Walter
Benjamim.
No
Ribatejo, devemos de apreender com o exemplo da ancestral Universidade de
Lisboa cuja fusão com a Universidade Técnica da mesma cidade pretende criar
valor para o futuro, para Portugal e para o mundo. Uma universidade só pode ter
o universo por limite. Não por fica aqui esta defesa singela da Universidade do
Ribatejo prometo voltar ao assunto, com propostas mais concretas. Esta crónica,
por economia de meios terá três partes.
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