Senhor Presidente,
Chamo-me José Miguel Raimundo Noras, tenho 31 anos, presentemente sou professor, "aprendiz de historiador" e "operário da poesia", nas horas vagas. Bem sei, que estas "coisas" da cultura e da literatura lhe dizem pouco, que V. Ex.ª é mais um homem dos números. Pessoalmente, a bem da verdade, tive muitas "lições de economia", sempre fora da escola ou das letras soturnas das bibliotecas. A primeira lição que tive, ainda que não o soubesse à época, foi afiançada pela minha avó, Emília Inácia Correia, mulher honrada que deixou de trabalhar para comparticipar no labor da minha educação. Outras lições económicas fui apreendendo nessa "escola da vida". Por exemplo, a lição de como guardar os vinte escudos semanais ao invés de os "estoirar" em gelados, ou de como amealhar aquelas notas azuis com a efígie de Fernando Pessoa numa caixinha de metal. Posso não ter formação académica em questões económicas e em "questões especulativas", nem quero ter. Todavia, tal como o grande génio português do século XX sou frontalmente: "contra a ditadura dos financeiros sem pátria".
Deixemos de lado estas questões poéticas, políticas, literárias ou até filosóficas o que pretendo é solicitar-lhe auxílio: eu quero escolher o meu país!
Em boa verdade, amo Portugal, gostaria bastante de aqui viver se se tratasse de um país livre, sem censura social ou política, sem disparidades abusivas nos níveis de qualidade de vida. Gostava viver em Portugal e cá singrar se não se tratasse de um país doente, com "mal de inveja" cáustico e graves "vícios de forma" que elevam a mediocridade de V. Ex.ª a altas magistraturas.
Sou um privilegiado, tenho essa noção. Tive grandes oportunidades, garantidas em parte pelo Estado, mas sobretudo granjeadas pelo esforço hercúleo de minha família por entre gerações e gerações. Fui aproveitando tais "chances" de sucessos a diversos níveis e mormente as agarrei "com unhas e dentes", no que respeita à educação, aos mais variados tipos de educação que tive a honra de receber. Como homem livre, dotado de razão e de palavra de honra, continuo a ter um ideal, aliás como alguém já cantou, tenho um ideal: "um ideal social".
Sou um privilegiado, tenho essa noção. Tive grandes oportunidades, garantidas em parte pelo Estado, mas sobretudo granjeadas pelo esforço hercúleo de minha família por entre gerações e gerações. Fui aproveitando tais "chances" de sucessos a diversos níveis e mormente as agarrei "com unhas e dentes", no que respeita à educação, aos mais variados tipos de educação que tive a honra de receber. Como homem livre, dotado de razão e de palavra de honra, continuo a ter um ideal, aliás como alguém já cantou, tenho um ideal: "um ideal social".
Regressemos à cruel realidade dos números. Sabe, Senhor Presidente, em 2009, acumulei três profissões, publiquei dois livros e fui escrevendo a minha dissertação de mestrado. Na medida das minhas possibilidades e com o tal inexcedível apoio da minha família lá fui também estimulando a economia pátria consumindo aqui e ali variados tipos de bens. Em 2010, acumulei três profissões, outros tantos livros publiquei e, para grande felicidade minha, o meu trabalho até foi sendo reconhecido com alguns prémios científicos e literários. Em 2011, continuei a minha labuta anual. No final, desse ano, com árduo esforço, dispêndio e muita disciplina, finalmente concluí uma dissertação de mestrado, propriamente dita, na qual obtive classificação máxima. Ao mesmo tempo, mantenho actividades políticas e afazeres associativos de ordem vária, na exacta medida das minhas forças. No entanto, algumas "potências estrangeiras" invadiram Portugal e, todos os dias, com conivência e passividade de V. Ex.ª, líder da nação, os estrangeiros chamam aos portugueses: "preguiçosos", "passivos", "maus pagadores" ou "pouco produtivos". Chamam-nos estes nomes com todas as letras ainda que disfarçadas de estatística imoral. Esses estrangeiros medonhos, esses "credores da usura", ofendem a nação sem pejo nem moral e o Sr. Presidente colabora tais "bandidos troikanos"? Porquê? Todos dias, como lobo disfarçado de afável animal, V. Ex.ª comete a mais vil traição à pátria que jurou defender. A sua traição é pior que a traição dos vendidos, é a traição dos que calam, é a traição do silêncio e das palavras vãs.
Regressemos à cruel realidade dos números. Em toda a minha meia década de trabalho, incluindo o período de estágio, ainda não consegui auferir num ano o que V. Ex. recebe de aposentadoria por trimestre, mas estou certo de que lá chegarei. De facto, considero inócuo o coro de críticas em relação à remuneração de V. Ex.ª. Aliás, críticas muitas vezes desonestas intelectualmente (ou moralmente provenientes de quem tem "telhados de vidro"). Não creio que sejam elevadas as remunerações dos cargos políticos. O problema está na "outra ponta da navalha": são os salários baixos! O problema de justiça social que se nos coloca é que salário mínimo nacional se cifra em 485€ e com isso apenas é muito difícil sobreviver. Por outro lado, dizem por aí e bem sabemos que 20 % da população trabalha em "economia informal", ou seja nem desconta, nem paga imposto algum e, muitas vezes, nem o salário mínimo aufere. O problema Senhor Presidente é que todo o trabalho é digno e todo trabalho é árduo, por isso todo trabalho deve ser remunerado com justiça. Todo o trabalho deve ser recompensado com equidade e todo o trabalhador tratado com dignidade (e eu diria acarinhado para produzir com amor.)
Senhor Presidente, espalhados pelo mundo fora existem outros senhores que ganham por hora o que V. Ex.ª recebe ao ano. E nesta "aldeia global" existem ainda outros senhores: os tais "senhores credores". A quem nós no Ribatejo, terra de gente honrada que trata "os bois pelos nomes", preferíamos, em relação ao caso concreto do FMI ou das agências de "rating", chamar de vigaristas. Na verdade, em muitos casos, tratam-se de senhores pouco honrados, de vígaros, de "engenheiros financeiros" que "brincaram" e que "jogaram" com o nosso futuro, com o nosso trabalho, com as nossas poupanças. São senhores emproados, bem-vestidos, os quais se em vez de computador e de calculadora usassem de "lábia" ou de "faca-de-ponta", se em vez de fato vestissem trapo, esse senhores, facilmente, incorreriam no crime "burla" ou de "assalto à mão armada". Estes velhacos são os tais "financeiros sem pátria". São homens sem moral e sem qualquer pingo de honra. Esperemos que Deus, ou qualquer outra consciência universal, os julgue por seus crimes contra a humanidade. Entristece-nos, porém, que o Sr. Presidente pactue no "saque da pátria" com juros de usura.
Bem sabe, certamente melhor que eu, que toda a dívida tem uma contrapartida. Existirá uma razão, (ou até um ativo), em prol da qual foi contraída essa dívida. Por qualquer razão obscura não querem esses senhores credores tomar conta dos activos? Que razão será? Será porque, como bem sabemos, a "dívida global" é uma falácia? Aliás, tal "buraco financeiro" no sistema foi em grande parte gerado por "burlas" ou "esquemas duvidosos" da grande banca mundial que em 2008 "estoirou". Um pouco de memória: esta crise é muito diferente da crise de 1929 e bastante semelhante à grande crise de 1891, quando o "Portugal português" então "uma granja e um banco" (nos dizeres de Oliveira Martins) viu o Estado se declarar insolvente.
A austeridade é um erro. "A austeridade é política de classe", como nos explica Marc Blyth. A austeridade é uma calamidade pública e não trará qualquer solução estrutural aos reais problemas económicos (entenda-se que a economia não é a finança) de Portugal. Todos os grandes economistas o sabem e, lá diz o povo, "o pior que cego é aquele que não quer ver". Contudo, esses "senhores credores" invadiram o nosso país e, como já disse, a minha pátria está a saque! Pior que isso, o governo que me representa pretende antes de mais obedecer a uma instância burocrática e ditatorial, que dá pelo nome BCE, do que cumprir com o que devia ser o seu primeiro compromisso de honra: a salvaguarda dos direitos, das liberdades e garantias e dos legítimos interesses económicos do povo português. Para além dos diversos atentados à nossa liberdade económica, enquanto cidadãos, a palavra de ordem deste governo incoerente, incompetente e ignorante é: "vender por pouco dinheiro".
Senhor Presidente, sou um jovem professor e escritor tenho consciência das minhas capacidades e do meu valor, sempre com a humildade de quem aprende com o tempo que corre e com a gentes que ouve. Porém, o governo que desgoverna já deixou claro que não faço falta ao esforço de "consolidação nacional".
Muito provavelmente, segundo prevejo, até ano de 2016 tenho compromissos que me prendem em Portugal. Sou um homem de palavra. Depois terei de partir. Ajuda-me a escolher o meu país?
Muito provavelmente, segundo prevejo, até ano de 2016 tenho compromissos que me prendem em Portugal. Sou um homem de palavra. Depois terei de partir. Ajuda-me a escolher o meu país?
Janeiro de 2012
(Originalmente em blogue
"Escolher o meu país" entretanto extinto)
(Originalmente em blogue
"Escolher o meu país" entretanto extinto)
José Raimundo Noras
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