Em 1851, a associação cultural
escalabitana Club de Santarém promoveu a construção de um teatro na nossa
cidade. De modo a levar a cabo esse desígnio, o Club encetou uma subscrição pública
na cidade, emitindo, para o efeito, acções do Teatro de Santarém. Inaugurado em
1885, o Teatro de Santarém seria rebatizado como Teatro Rosa Damasceno em 1896,
em honra da famosa atriz.
Na verdade, o Club de Santarém como
associação cultural foi então um meio para chegar a um fim, visto que os seus
estatutos obrigavam à manutenção de um teatro em Santarém. Mudaram-se os tempos
e as vontades. Tal Club desapareceu de cena na vida cívica e cultural da cidade
e, ao contrário dos meus tempos de juventude, nem todos os munícipes conhecem ou
reconhecem a sua existência. Creio, no entanto, que o Club se mantém, alegadamente
com as dores de uma memória traída.
Com efeito, o espaço onde foi
edificado o Teatro Rosa Damasceno pertence ao povo de Santarém. Muito antes das
ruínas que hoje conhecemos, ali se ergueu a Igreja de São Martinho. Depois de
ser Teatro de Santarém/Teatro Rosa Damasceno, com planta italiana ao gosto
romântico, renasceu, nos anos 30 do século transato, como cineteatro moderno.
Reabilitado pelo arquiteto de renome Amílcar Pinto, a nova sala chegou a ser
classificada como “obra perfeita” para a função de cinema, por uma revista da
especialidade de reputação internacional.
Após
esta intervenção habilitada de Amílcar Pinto, ao gosto estético do desse tempo,
de cara lavada e de corpo reconstruído, o Teatro Rosa Damasceno trouxe uma nova
sociabilidade a Santarém. Públicos diversos, fossem autóctones, provenientes
das vilas envolventes e ou de Lisboa, acorriam ao novo cinema, sobretudo, para
ver teatro, teatro de revista. Por ali, passaram grandes nomes da cena teatral
portuguesa dos anos 40 em diante. Ao mesmo tempo, ali se estrearam filmes bem
característicos do cinema sob o olhar de
Salazar, como, por exemplo, Um Homem
do Ribatejo, de Henrique Campos. Hoje, ainda muitos de nós nos lembramos deste “teatro Rosa” que foi um ponto de encontro,
onde confluíam as gerações escalabitanas. Aquelas paredes em ruínas, aquelas
escadas velhinhas, o balcão do bar ou a máquina de projetar contam a história
da cidade e estórias das nossas vidas guardadas, quase em segredo, na “caixa de
lembranças” a que uns chamam memória e outros sentem como saudade. Fala-vos da
primeira ida ao cinema com os primos, com os pais ou com amigos. Evoca, como se
fosse ontem, o primeiro namoro no escuro do cinema ou a matinée, em família, ao domingo.
No
Teatro Rosa Damasceno, passou a nossa história de liberdade, materializada nas
campanhas eleitorais de Norton de Matos e de Humberto Delgado, cujo epíteto de
herói para sempre recordaremos como general
sem medo. Ali, se conspirou abertamente contra a ditadura, erguendo bem
alto os pergaminhos de Santarém, velha urbe republicana.
Este
nosso Teatro Rosa Damasceno fez, recentemente, capa da notícia de reabertura do
sítio na internet do Inquérito à Arquitetura Portuguesa do Século XX (IAP XX,
disponível em …). De facto, este monumento correu o “risco” de ter sido
classificado como o primeiro monumento nacional português construído no século
XX, não fossem as vistas curtas dos decisores do ex-IPPAR. Neste tempo, tão
fugaz do “século da indiferença” em que vivemos, tendemos a considerar sempre
ser mais fácil destruir do que recriar, porque o esforço das soluções
sustentáveis exige sempre respeito pelo passado na construção do futuro.
A
ignorância assume, por vezes, formas crapulosas. Existem dois teatros e meios
ativos em Santarém. Contudo, nesta mesma cidade, e então com muito menos
habitantes, já existiram, pelo menos, quatro teatros, em pleno funcionamento,
com uma capacidade de audiência muito maior e, evidentemente, com uma produção
cultural que ia rivalizando, ou melhor, que conseguia concorrer com a de
Lisboa.
O
espaço sacral de memórias culturais da cidade, onde hoje se erguem as ruínas de
um cineteatro, pertence ao povo. É pública a ignorância dos juízes do Supremo
Tribunal, decidindo, com regra e esquadro, sobre a lei, como nos tempos mais
austeros. Temos por evidente o desconhecimento de causa do executivo camarário
que julga que o valor do monumento se resume a uma hipotética salvaguarda da
fachada. Sabemos, ainda, que outros “Rosas” existem, que também já foram povo.
São aqueles que com “falinhas mansas” me sussurram ao ouvido: “Fizemos cair uma
casa centenária, mas vamos reconstrui-la tal e qual. O doutor não notará a
diferença!”. Não podemos guardar o passado todo. O “mito do progresso” obriga
as cidades a crescer. De qualquer modo, espero que nunca ninguém julgue que
poderá destruir o Convento de São Francisco e, no seu lugar, erguer um outro
supostamente igual. É que a sapiência dos néscios tem destas coisas…
O
Teatro Rosa Damasceno pertence o povo de Santarém, mas terá de ser a comunidade
a reclamá-lo. Pouco depois do incêndio que deflagrou no imóvel, Pedro Oliveira
conseguiu reunir mais de dois milhares de assinaturas para esta causa. Proponho
que prossigamos o seu esforço e que cheguemos às 20 000 assinaturas e, ao menos
tempo, que nos quotizemos, como no passado, para adquirir o Teatro, em nome de
Santarém. Nesta refrega, caros concidadãos, não podemos desistir. São a memória
de Santarém e o seu futuro que nos desfiam.
Ad augusta per angusta!
© José Raimundo
Noras
Santarém,
18/12/2011 (7h12)