Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Memórias de um teatro cinema: o Teatro Rosa Damasceno pertence ao povo?


            Em 1851, a associação cultural escalabitana Club de Santarém promoveu a construção de um teatro na nossa cidade. De modo a levar a cabo esse desígnio, o Club encetou uma subscrição pública na cidade, emitindo, para o efeito, acções do Teatro de Santarém. Inaugurado em 1885, o Teatro de Santarém seria rebatizado como Teatro Rosa Damasceno em 1896, em honra da famosa atriz.
            Na verdade, o Club de Santarém como associação cultural foi então um meio para chegar a um fim, visto que os seus estatutos obrigavam à manutenção de um teatro em Santarém. Mudaram-se os tempos e as vontades. Tal Club desapareceu de cena na vida cívica e cultural da cidade e, ao contrário dos meus tempos de juventude, nem todos os munícipes conhecem ou reconhecem a sua existência. Creio, no entanto, que o Club se mantém, alegadamente com as dores de uma memória traída.
            Com efeito, o espaço onde foi edificado o Teatro Rosa Damasceno pertence ao povo de Santarém. Muito antes das ruínas que hoje conhecemos, ali se ergueu a Igreja de São Martinho. Depois de ser Teatro de Santarém/Teatro Rosa Damasceno, com planta italiana ao gosto romântico, renasceu, nos anos 30 do século transato, como cineteatro moderno. Reabilitado pelo arquiteto de renome Amílcar Pinto, a nova sala chegou a ser classificada como “obra perfeita” para a função de cinema, por uma revista da especialidade de reputação internacional.
Após esta intervenção habilitada de Amílcar Pinto, ao gosto estético do desse tempo, de cara lavada e de corpo reconstruído, o Teatro Rosa Damasceno trouxe uma nova sociabilidade a Santarém. Públicos diversos, fossem autóctones, provenientes das vilas envolventes e ou de Lisboa, acorriam ao novo cinema, sobretudo, para ver teatro, teatro de revista. Por ali, passaram grandes nomes da cena teatral portuguesa dos anos 40 em diante. Ao mesmo tempo, ali se estrearam filmes bem característicos do cinema sob o olhar de Salazar, como, por exemplo, Um Homem do Ribatejo, de Henrique Campos. Hoje, ainda muitos de nós nos lembramos deste “teatro Rosa” que foi um ponto de encontro, onde confluíam as gerações escalabitanas. Aquelas paredes em ruínas, aquelas escadas velhinhas, o balcão do bar ou a máquina de projetar contam a história da cidade e estórias das nossas vidas guardadas, quase em segredo, na “caixa de lembranças” a que uns chamam memória e outros sentem como saudade. Fala-vos da primeira ida ao cinema com os primos, com os pais ou com amigos. Evoca, como se fosse ontem, o primeiro namoro no escuro do cinema ou a matinée, em família, ao domingo.
No Teatro Rosa Damasceno, passou a nossa história de liberdade, materializada nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e de Humberto Delgado, cujo epíteto de herói para sempre recordaremos como general sem medo. Ali, se conspirou abertamente contra a ditadura, erguendo bem alto os pergaminhos de Santarém, velha urbe republicana.  
Este nosso Teatro Rosa Damasceno fez, recentemente, capa da notícia de reabertura do sítio na internet do Inquérito à Arquitetura Portuguesa do Século XX (IAP XX, disponível em …). De facto, este monumento correu o “risco” de ter sido classificado como o primeiro monumento nacional português construído no século XX, não fossem as vistas curtas dos decisores do ex-IPPAR. Neste tempo, tão fugaz do “século da indiferença” em que vivemos, tendemos a considerar sempre ser mais fácil destruir do que recriar, porque o esforço das soluções sustentáveis exige sempre respeito pelo passado na construção do futuro.
A ignorância assume, por vezes, formas crapulosas. Existem dois teatros e meios ativos em Santarém. Contudo, nesta mesma cidade, e então com muito menos habitantes, já existiram, pelo menos, quatro teatros, em pleno funcionamento, com uma capacidade de audiência muito maior e, evidentemente, com uma produção cultural que ia rivalizando, ou melhor, que conseguia concorrer com a de Lisboa.
O espaço sacral de memórias culturais da cidade, onde hoje se erguem as ruínas de um cineteatro, pertence ao povo. É pública a ignorância dos juízes do Supremo Tribunal, decidindo, com regra e esquadro, sobre a lei, como nos tempos mais austeros. Temos por evidente o desconhecimento de causa do executivo camarário que julga que o valor do monumento se resume a uma hipotética salvaguarda da fachada. Sabemos, ainda, que outros “Rosas” existem, que também já foram povo. São aqueles que com “falinhas mansas” me sussurram ao ouvido: “Fizemos cair uma casa centenária, mas vamos reconstrui-la tal e qual. O doutor não notará a diferença!”. Não podemos guardar o passado todo. O “mito do progresso” obriga as cidades a crescer. De qualquer modo, espero que nunca ninguém julgue que poderá destruir o Convento de São Francisco e, no seu lugar, erguer um outro supostamente igual. É que a sapiência dos néscios tem destas coisas…
O Teatro Rosa Damasceno pertence o povo de Santarém, mas terá de ser a comunidade a reclamá-lo. Pouco depois do incêndio que deflagrou no imóvel, Pedro Oliveira conseguiu reunir mais de dois milhares de assinaturas para esta causa. Proponho que prossigamos o seu esforço e que cheguemos às 20 000 assinaturas e, ao menos tempo, que nos quotizemos, como no passado, para adquirir o Teatro, em nome de Santarém. Nesta refrega, caros concidadãos, não podemos desistir. São a memória de Santarém e o seu futuro que nos desfiam.
Ad augusta per angusta!

© José Raimundo Noras
Santarém, 18/12/2011 (7h12)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu vi o fim da democracia?! Uma crónica para século XXI?

“Vêm em bandos Com pés veludo 
Chupar o sangue Fresco da manada 
Se alguém se engana com seu ar sisudo 
E lhes franqueia As portas à chegada 
Eles comem tudo Eles comem tudo” 
José Afonso, letra da música Vampiros

Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
(…) Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
[Todos sabem que os dados estão viciados, 
Todos jogam com os dedos cruzados (...),
Todos sabem que o combate foi arranjado,
Os pobres ficam pobres e os ricos mais ricos]
 Leonard Coehn, letra da música Everybody knows


  Enquanto aprendiz de historiador, atento ao que se passa no presente à minha volta, conto escrever uma crónica da minha época, se os entretempos da vida o permitirem — seguindo, aliás, os exemplos de alguns mestres da arte de historiar. No entanto, se Eric Hobsbawm chamou à sua autobiografia Tempos interessantes, creio ter para a minha história do século XXI um título bem mais polémico e assustador.
Lembrando o velho monge cronista, descrevendo o que via, enquanto os bárbaros destruíam o Império, poderei até começar assim o meu relato:
 « Eu vi o fim da democracia. Vi a indiferença a tomar conta das gentes. Vi os governos, um após o outro, a obedecer, sem pestanejar, aos ditames internacionais cegos de economistas incoerentes ou de tecnocratas sem moral. Vi os costumes dissolverem-se, vi a ética tornar-se palavra morta. Vi os poderes reais destruírem o estado e vi os novos barões criarem a anarquia económica para proveito de alguns. Eu vi os jornalistas deixarem sossegada a busca da verdade ou ignorarem o dever da denúncia e, sem pudor ou qualquer tipo de escrúpulo moral, associarem-se ao poder e à perversão do poder económico. 
 Há poucas semanas, um governo democrático cedeu a pressões inaceitáveis e não convocou nenhum referendo. Dias depois, sem eleição alguma, foi substituído por um “grupo de técnicos” e o povo aplaudiu. Tal qual nos tempos de outrora eles vieram com o discurso de sempre: “são precisos sacrifícios”! É preciso sacrificar o salário do pobre, é preciso cortar na educação do inculto, é preciso tirar ao acesso à saúde ao doente e será quase obrigatório acabar com o voto do povo. No primeiro dia,  quando chegaram suspenderam logo a soberania, nós aplaudimos. No segundo dia, instalaram-se e tiram-nos o direito à educação, nós dissemos que “sim senhor”. Abanámos a cabeça para baixo, "assim é que estava tudo bem". No terceiro dia, confiscaram os hospitais e nós até achámos a ideia interessante, a qual deu azo a muito comentário político desinteressado. No quarto dia, tomaram posse das ruas, compraram barato a polícia e grande parte do exército e todos nós obedecemos. Tal qual antigamente: "obedecemos porque devíamos obedecer". No quinto dia, promulgaram o fim de trabalho com direitos, disseram-nos que as 18 horas de trabalho diárias a sete dias por semana eram para nosso bem e nós assobiámos para o lado. No sexto dia, usurparam de vez o poder. Logo pela aurora, livraram-se dos políticos (eram um custo intermédio) e à tarde fecharam os tribunais. Nós nem sequer suspirámos, tudo era fundamental para pagar a dívida. No sétimo dia, antes de almoço vieram buscar as nossas casas, bens que agora enquanto propriedade dos mercados, seriam cotados na bolsa, para poderem valer 70 vezes o seu preço real. Ainda nessa noite, como não nos restava mais nenhum direito, vieram pela calada, para privatizarem toda e qualquer réstia de liberdade.  Eu vi o mercado tornar-se o único o poder, legitimado pela “dívida eterna” e pelo “silêncio das nações”. Vi a corrupção sobrepor-se à verdade, vi os clamores do fim da sociedade livre. Eu vi o fim da democracia.» 

Se tudo correr como o previsto e a finança continuar a governar sobre a vontade de quem trabalha para a sustentar, se os “políticos profissionais” continuarem a apaziguar o mercado na esperança de serem devorados em último, muito provavelmente já tenho um bom início para a minha crónica dos tempos que aí vêm. Continuai assim, não ligais a estes avisos, bebidos em pobres paráfrases de Martin Niemoller e de Eduardo Alves da Costa. Se tudo correr como o previsto, nós, aqueles que vivemos os tempos da “grande crise” no “século da indiferença”, poderemos contar aos nossos netos: “Eu vivi o fim da democracia e não fiz nada”.

© José Raimundo Noras

domingo, 23 de outubro de 2011

A Fonte da Austeridade ou contra a “economia de algibeira”


"A economia é uma virtude distributiva e consiste não em poupar mas em escolher."
Edmund Burke

 Todos sabemos que o novo orçamento de estado (OE) é um atentado à justiça social. Não pode existir grande discussão acerca disso, nem a demagogia simplista acerca das verdadeiras causas da crise. Aliás, esta crise é, em primeiro lugar, uma crise de valores que afeta toda a nossa civilização dita ocidental, mas, por agora, furtamo-nos a tal discussão.
 Em Portugal parece que pouco entendemos de economia ou pouco nos querem fazer entender. Todos nos dizem que somos, confessadamente, devedores, que temos de pagar a dívida (cada vez uma entidade etérea que paira sobre os Estados e sobre as nossas cabeças) contraída para gáudio de uma vida folgada “acima das reais capacidades dos cidadãos e do país”. Todos nos dizem que temos pagar mais impostos, receber menos, trabalhar mais, para que os Estados, num esforço memorável, reduzam o défice orçamental e consigam pagar a dívida ou, pelo menos, os juros irrealistas que esta vai atingindo. Ninguém quer dizer como será possível resolver esta equação, sobretudo num cenário no qual, na melhor das hipóteses, enfrentaremos uma recessão económica histórica. Ninguém nos diz isso, porque todos sabemos que não vai ser possível. Porque no fundo, todos os comentadores de cartilha são ignorantes perante uma crise que desafia modelos e, em suma, que provou a falácia do mercado livre.
 O mercado desregulado deu nisto o “estado a que nós chegámos” (usurpando a frase de Salgueiro Maia). Ninguém nos fala no reverso da medalha: do boom do investimento imobiliário de luxo; do crescimento das taxas de ocupação de hotéis de cinco estrelas; nos lucros avassaladores dos credores das dívidas soberanas — muitos deles, imoralmente, clientes das agências de rating, esse mecanismo surreal de autorregulação financeira. No fundo, os que fizeram esta crise, os que pressionaram o consumo, os que endeusaram os mercados e que nos foram vendendo, com juros, a utopia do “fim da história” encarnada no demoliberalismo, continuam a enriquecer à custa de uma classe política amorfa e da falta de informação dos cidadãos. Agora fazem nos crer que com menos capital em circulação será possível sair de uma crise sem precedentes, baseados sabe-se lá em que modelos teóricos. Para além das medidas económicas draconianas, exigem-nos a venda a pataco de quase todas as empresas públicas de sectores fundamentais (como os transportes, a energia ou a água). Mais cedo ou mais tarde, os credores também quererão comprar barato: os hospitais, as escolas e, porque não, a polícia ou o exército — já que muito pouco vai sobrando dos Estados outrora soberanos.
 O nobel da economia Paul Krugman, como se sabe crítico destas políticas de vistas curtas, comparou a austeridade dos dias hoje às sangrias dos doentes na Idade Média. Nesse tempo, muitas vezes, a sangria resultava na morte do paciente. Inexoravelmente, a austeridade resultará em falência. Para além da falência dos Estados, a contração económica tão brutal como a que se avizinha com políticas de austeridade à mistura terá como consequência a “falência social” generalizada. Na Idade Média desconhecia-se o funcionamento do corpo humano. Hoje não queremos compreender o funcionamento do mercado sem lei. Ontem como hoje, a fonte da austeridade é a ignorância.     
 Tenho para mim, que qualquer mãe de família geriria melhor as finanças públicas do que professores universitários arreigados a preconceitos ideológicos profundos. Na verdade, todos sabemos mais de economia do que nos querem fazer crer. Vejamos a gestão quotidiana dos estudantes bolseiros, dos trabalhadores precários (sem rendimento fixo ou quaisquer direitos laborais) ou, evidentemente, dos milhares de cidadãos que auferem o salário mínimo. As próprias classes médias fazem um esforço bastante considerável para manter algum nível de qualidade de vida.  Sabemos bem mais de economia do que os “economistas de algibeira” que por aí comentam e opinam. Porém, bastará saber o mínimo de gestão para perceber, que com mais trabalho e com menos dinheiro, não se conseguem pagar dívidas, vai-se conseguindo sobreviver.
 A fonte da austeridade é a ignorância! É preciso repetir à saciedade esta verdade, sobretudo num país ocupado por um governo ingénuo ou, manifestamente, comprometido com os capitalistas, no sentido pejorativo do termo. É preciso votar contra este OE e combater estas políticas ultraliberais. Na verdade, o próprio FMI, hoje liderado pela direita, parece questionar a bondade das suas receitas e especula-se sobre um perdão à dívida grega. Pois é! Basta fazer bem as contas para saber que com este caminho a dívida se torna um monstro e será cada mais impossível de pagar.
 Sejamos honestos, ninguém saberá concretamente o que fazer, ninguém terá soluções universais. Contudo, como escreveu José Régio, “não sei por onde vou / não sei para onde vou / mas sei que não vou por aí!” Não podemos ir pela austeridade somada à austeridade. Na esteira de Edmund Burke, para além da poupança, o segredo da boa economia estará na escolha correta no caminho da melhor distribuição de recursos e de dividendos. Porque outros caminhos são imprescindíveis, temos de reinventar soluções sob pena de hipotecarmos o futuro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Carta aos jovens conformados ou Contra a Indiferença



Bem tentais não vos ocupar de política, mas a política ocupa-se de vós.

Charles Montalembert



Acordai /acordai / homens que dormis / a embalar a dor /dos silêncios vis/ vinde no clamor / das almas viris / arrancar a flor / que dorme na raíz. (…) e acordai depois das lutas finais / os nossos heróis que dormem nos covais/ Acordai! (

“Acordai”, Fernando Lopes Graça



Diz-se do conformismo que: "resulta da interação social das minorais com os grupos dominantes, numa tendência clara de acomodação destas a usos e costumes preestabelecidos". Nesta reflexão, afasto-me de qualquer debate teórico do fenómeno, procuro, sobretudo, contrapor outros valores ao que parece ser a tendência dominante na hodierna sociedade portuguesa: a "acomodação" e a "indiferença". Escrevo aos jovens conformados. Bem podia escrever a todos os cidadãos. No entanto, se esta anomia social é preocupante, ou até confrangedora para a democracia em qualquer caso, no que respeita à juventude a situação torna-se assustadora e bem próxima do desastre.
O jovem conformado, qual cidadão médio, aceita o que lhe dão. Se lhe garantem que a sociedade é injusta por natureza, se lhe afiançam que sempre existiram e sempre existirão situações de pobreza, de ignomínia social, de ignorância crapulosa, de manipulação vil dos cidadãos, o jovem concorda complacente. E, pior do que isso, nem se dá a trabalho de pensar sobre o assunto. A elite governante, armada de ferramentas ideológicas brutais e de uma corja de comentadores/bajuladores, apesar do evidente colapso do sistema, garante que "o sistema" está para durar. Todos nos garantem que afinal são esses tais “direitos adquiridos” que vão desaparecer, que é o “Estado social” (ou a própria razão de ser do Estado) que está em crise. Na semana a seguir a previsões saem sempre ao lado, mas um bom economista sabe salvar a face. A tudo isto dizemos que sim e, em coro nessa opinião comentada, vamos repetimos mentiras perigosas, porque já sabemos que na atual situação económica “o sistema social” só tem uma solução: falência.
Ora, jovens na flor da idade, meus caros cidadãos a origem profunda desta crise está na ausência cabal de valores éticos que norteiem a organização da nossa sociedade. Por outro lado, cada vez mais, não nos revemos nos mecanismos inconsequentes de redistribuição de riqueza ou de promoção de justiça social. Sobre estes problemas a juventude não questiona, não age, não atua. Bem sei, que me vão responder com uma mão cheia de indignados, lutando por outro mundo possível, num esforço salutar. Mas, eu estou à procura dos outros! Eu falo aos jovens que afogam em festas constantes as suas frustrações. Falo aos rapazes e às raparigas que relegam como inútil o debate política ou a participação na gestão da coisa pública, para irem aniquilando neurónios nas futilidades que o quarto poder lhes serve em bandejas coloridas, para que ninguém pense muito sobre o mundo lá fora. Falo aos indiferentes.
Onde estão os jovens que constroem utopias? Onde está o pensamento alternativo a este decadente modelo burguês de civilização ocidental? Onde está a juventude que busca desflorar florestas virgens numa ânsia de renovação de tudo? Onde estão todos aqueles que deviam de exigir o impossível, ainda hoje? Onde estão aqueles que deveriam, com as suas próprias mãos, querer erguer uma sociedade mais justas, mais equilibrada, mais participativa, em suma, querer fazer uma sociedade melhor? Convenceram-nos, com grande orgulho aliás, de que vamos viver pior que a geração anterior e mais uma vez acenámos que sim. Acenámos que está tudo bem, “tudo numa boa”, desde que não nos obriguem a desligar qualquer paródia estúpida na TV. Esquecem-se sempre de referir os outros, aqueles que se abotoam com a riqueza produzida, aqueles que, cada vez mais, lucram, acumulam e reproduzem capital com “a crise” e graças à crise. Na verdade, “a crise” é já quase uma entidade sacral, desprovida de consciência que se vai alimentando desta indiferença, que sobrevive da tua indiferença e da nossa preguiça coletiva de pensar e de agir sobre o que é mais nosso: o futuro.
Contra a indiferença já foi proposta a indignação. Agora, os mesmos propõem o empenho na construção de outra sociedade. Considero que, para além de indignação e de empenho, teremos de ter respostas mais radicais. Devemos questionar o sistema pela base. Devemos propor novos modelos, pensar em novas soluções. Temos de voltar a repensar, voltar a construir programas de gestão participada nas empresas e no Estado. É forçoso voltar a pugnar por mais intervenção e por mais responsabilidade dos cidadãos na coisa pública, por um incremento de mecanismos de participação direta dos eleitores, pela possibilidade adoção de medidas financeiras inovadoras (com orçamentos de base zero, com a taxação de lucros e de dividendos, com a extinção global de paraísos fiscais). Cabe nos defender e implementar, caso a caso, problema a problema, estímulos a projetos de intervenção social, entre outras pequenas coisas que podem fazer toda diferença no mundo real. Serão tantos os caminhos possíveis, tantas as soluções, que precisamos da juventude, que precisamos de todos neste debate, neste processo de reconstrução social.
Contra a indiferença, mais do que a revolução com base na razão e na ciência, como defendeu a “geração de 70” há pouco mais de um século, é preciso acordar. “Acordar os nossos heróis que dormem nos covais”, como cantou Lopes Graça, será sempre despertar a juventude e com a força dessa idade sacudir o entorpecimento de toda sociedade. Acordar a juventude é acordar a nós próprios.
Queremos um mundo novo. Queremos uma sociedade que não se sustente sempre há custa da escravidão de uma imensa maioria. Para revolucionar, para renovar, para construir o futuro, para fazer essa “terra sem amos” erguida por nossas mãos, temos de contar com todos. Hoje, cada vez mais, vais continuar a deixar que a política tome conta de ti? Ou será que, finalmente, vais tomar conta da política? Para fazer hoje o amanhã, contamos contigo?   

© José Raimundo Noras
Santarém, EPVT,19/10/2011

sábado, 3 de setembro de 2011

"José & Pilar" aos óscares


Republiquei aqui, ainda agora, a minha crónica acerca do documentário "José & Pilar" originalmente escrita para o "Espalha Factos". Porque a nossa Revolta também é cultural.

A "Revolta" apoia a petição pública, recentemente criada, para que o documentário em questão seja a escolha portuguesa a indicar à Academia para os Óscares.

Aqui vão os links:

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N11961

http://joseepilaraososcares.blogs.sapo.pt/

https://www.facebook.com/OscarJosePilar?sk=wall

por JRN  

“José & Pilar” da utopia e do realismo na era da técnica


  
Eu tenho ideias para romances, ela tem ideias para a vida e não sei o que é mais importante….

José Saramago


- Pilar!... Encontramo-nos noutro sítio. O desejo do escritor inicia e termina o filme. Essa frase, proferida com uma tranquilidade perturbadora, é metáfora da condição humana e de todos os nossos esforços para a ultrapassar que, necessariamente, redundam no amor.
No documentário José & Pilar, Miguel Gonçalves Mendes regressa a uma temática literária, depois da premiada película Autografia (2004) onde registou o quotidiano dos últimos anos do escritor Mário de Cesariny. O documentário parece o género de eleição de Miguel Mendes, o qual se estreou na sétima arte com a curta-metragem D. Nieves (2002), uma visão documental sobre a Galiza.
O cineasta afirma, no entanto, que depois aventura com Saramago e com Pilar não voltará ao documentário. Primeiramente, porque a produção do filme (que conta com a participação de Fernando Mereilles) o forçou a rever a hipoteca da casa, originando uma monumental dívida. Em segundo lugar, porque juntamente com a dívida se acumularam 240 horas de filme cuja montagem é sempre um processo doloroso segundo o autor. Esperamos que o documentarista não desapareça na obra de Miguel Gonçalves Mendes, até porque, como provou em Floripes (2007), muitas vezes o documentário se cruza com a ficção.
No caso de José & Pilar, o realismo foi a pedra de toque da condução narrativa. A literatura está presente, mas assume um papel de cenário à acção principal: o amor e a vida de um casal, neste caso de Pilar del Río e José Saramago. O escritor e a jornalista sua companheira viajam pelo mundo, abraçam-se, beijam-se, bebem, festejam, fazem o luto de parentes, tal como o mais comum dos mortais. A intenção do autor foi procurar toda essa intimidade no quotidiano do casal. No amor de Pilar e de José cabemos todos, a frase dita no casamento de ambos, parece ser a mensagem constante da obra, a qual no seu realismo, belo mas por vezes cruel, ainda deixa espaço para a utopia.
Pilar de Rio afirmou: não é um filme político. A política está no filme, porque a política está na vida. A técnica fílmica de Miguel Gonçalves Mendes procurou sobretudo registar com fidelidade essa vida de um casal que corre mundo, entre “a corte e a aldeia” mas que, ao mesmo tempo questiona, sem nunca claudicar, a razão de ser desse mundo tão injusto. A política, tal como a morte ou tal como Deus, está no filme para além da realidade, só que bem presa a essa realidade, porque sem ela não existiria. Aliás, Deus só precisa dos Homens para uma coisa: existir, como afirma Saramago no filme.
O escritor sobe à montanha por impulso, pensando que se morresse ali tudo acabava, não escreveria mais livros. De facto, um livro foi a outra “estória” deste filme. O documentário apresenta uma dupla narrativa (como nas antigas epopeias). No plano principal, fica história de José e de Pilar nas suas angústias e vivências diárias. Do cenário da literatura, emerge a ideia de um romance cuja génese e cujo processo criativo o realizador vai acompanhando aos poucos. As duas linhas narrativas cruzam-se no episódio da doença de Saramago (talvez porque nem o amor, nem o livro resistiriam à morte do autor, ou talvez não). Pilar não deixa José morrer e o elefante chega ao fim da sua a viagem.
Para além de quaisquer mensagens metafísicas, ou melhor, filosóficas, para além do idealismo comprometido com a causa de mudar o mundo, o filme traz-nos a dura realidade. A realidade da vida que teima em resistir a morte, porque “a morte é não estar cá”. Ao mesmo tempo que nos faz pensar, o documentário faz-nos rir. Lembrando Aberto Caeiro, “conta histórias só dos homens e tudo é incrível”. Sem entrar em grandes detalhes, a sequência inicial de Saramago a jogar paciências no computador, enquanto o espectador pensará que escreve, é um dos múltiplos momentos de fino humor na longa-metragem, até porque o humor também é vida.
Em suma, estamos perante uma obra grande da cinematografia portuguesa. Vale a pena ver e saborear este José & Pilar. Não me delonguei em aspectos técnicos, apesar da realização de Miguel Gonçalves Mendes ser irrepreensível. A solução utilização para marcar a passagem do tempo, com José (ou com José e Pilar) a fazer rodar um pequeno objecto com velas — o qual mais tarde vimos a saber simbolizar a Viagem do Elefante — é genial na sua simplicidade.
Na apresentação do filme em Santarém, promovida pelo Cineclube local, Pilar del Río confidenciou à plateia que um pintor seu amigo, depois de ver o documentário, lhe escreveu: é um quadro de Velásquez! Será um quadro de Velásquez, não só pela beleza, que também lá encontramos, mas acima de tudo pela realidade nua que transporta e nos transporta, nesta era da técnica.

Santarém, 26 de Novembro de 2010  

Publicado originalmente em Espalha Factos http://www.espalha-factos.com/2010/11/%E2%80%9Cjose-pilar%E2%80%9D-da-utopia-e-do-realismo-na-era-da-tecnica



terça-feira, 31 de maio de 2011

A Fonte da Intolerância - por um direito das Mulheres

A intolerância irracional de muitos escusa ou justifica a hipocrisia ou [defende] dissimulação de alguns.

Mariano José Pereira da Fonseca
(Marquês de Maricá)


As raízes da intolerância, na verdade, radicam nos nossos preconceitos ancestrais, contudo muitas vezes se manifestam nos juízos de valor precipitados do quotidiano. A direita radical trouxe, novamente, ao debate político a hipótese de punição das mulheres pela livre interrupção da gravidez (dentro de determinados limites fisiológicos). Esse pensamento só pode resultar do mais retrógrado conservadorismo, o qual, no fundo, rejeita a liberdade individual como principio. Sejamos honestos: qual é a mensagem social, ou moral, daqueles que pretendem prender mulheres por abortarem? Tenhamos em conta a dificuldade nautral de tal decisão, a qual, aliás, muitas vezes, esconde difíceis situações sociais. O discurso dos conservadores torna-se assim, para além de intolerante, profundamente cruel.  
Ser ou não ser mãe é um direito inalienável de todas as mulheres, nem o Estado, nem qualquer outra suposta entidade suprema, podem, ou devem sequer, interferir nessa decisão. Não vou represtinar todos argumentos já esgrimidos, nos debates recentes da nossa sociedade, sobre a questão. Interessa-me, sobretudo afirmar a defesa do que se trata de um direito que assiste a todas mulheres e, neste caso, a todas mulheres portuguesas, agora posto em causa pela intolerância de uns quantos.
Por fim, devemos compreender que esta “dissimulação de alguns” quando abordam direitos liberdades e garantias esconde velhas demagogias. De facto, se o liberalismo radical, nas suas diversas formas, pretende um “Estado mínimo” fora da economia, deixando a sua regulação ao “mercado livre”. No contexto social, os mesmos arautos do pensamento conservador defendem um “Estado interventivo”, um Estado cerceador das liberdades individuais e dos direitos adquiridos. Estes discursos radicais vivem de uma intolerância profunda e, ao mesmo tempo, espelham as contradições daqueles se vão defendendo ou justificando com a mais pura de todas hipocrisias: aquela que nasce da intolerância.     

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Fonte da Ignorância - em defesa da Educação de Adultos

Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença
 entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos,
 somos todos iguais no infinito da nossa ignorância. 

Karl Popper

Voltamos a este espaço, depois de promessas sempre adiadas e de boas intenções de crónicas que nunca o chegaram a ser. 
No momento político actual, usurpamos a frase de Popper, não com intuitos de discussão filosófica, mas sobretudo para a argumentação em defesa de um fenómeno essencial para o desenvolvimento da sociedade portuguesa na última década: a Iniciativa Novas Oportunidades. Vale a pena lembrar, como sustenta o cientista, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância. Quase tão antiga como a filosofia ocidental será essa "douta ignorância", a qual, de forma simplista, passa pelo assumir do que não conhecemos para, a partir aí, questionarmos o mundo. Todavia, alguns entre os mortais, sobretudo na acção política, pensam ser "donos de verdades irrefutáveis" desconhecendo os limites intelectuais da condição humana. Com "telhados de vidro", na forma atabalhoada da verbalização do seu discurso ou até com debilidades na expressão escrita, os putativos líderes das "massas descontentes" insultam a população sem conhecimento de causa, ou seja com "vil ignorância". Para além disso, nesta sociedade que reproduz, infelizmente, desigualdades, também em matéria de ignorância alguns são mais iguais do que os outros. 
Abandonemos a ironia, o assunto é bastante sério. Não nos cabe aqui fazer uma síntese histórica dos últimos 100 de políticas para a Educação de Adultos em Portugal. De qualquer modo, quer pelo número de pessoas envolvidas, quer pela real atribuição de ferramentas emancipatórias aos cidadãos, as  Novas Oportunidades tornaram-se um facto incontornável da nossa sociedade neste início de século XXI. Será evidente que a real dimensão dos resultados sociais, culturais ou económicos, deste programa só poderá ser avaliada a médio ou a longo prazo. Aliás, só de um ponto de vista histórico ou sociológico poderemos auferir o verdadeiro impacte no todo social do processo actual, o qual hoje envolve cerca de 1.500 000 cidadãos. E não nos referirmos apenas ao retorno individual e social da melhoria das qualificações dos portugueses, mas também a avanços colaterais na sociedade, como por exemplo o incremento dos hábitos de leitura ou um maior ao apoio aos filhos em idade escolar. 
Regressemos às críticas infundadas a esta iniciativa. Será necessário recordar que Hannah Arendt, noutro contexto, sustentou ser impossível educar adultos. Na verdade, no quadro do pensamento conservador Arendt, em certa medida,  revelou os preconceitos ideológicos da direita em relação à instrução da população activa. O que está escondido por detrás do actual ataque infeliz às Novas Oportunidades é sobretudo a concepção imobilista do todo social, para a qual os bloqueios ao acesso à educação são úteis, porque não permitem a mobilidade social, nem a superação de condições desigualitárias, a priori. Quando todos sabemos que durante muitas décadas à maioria da população, sobretudo às mulheres, foi vedado o acesso ao ensino, por motivos políticos, ideológicos ou económicos, atacar um programa qualificador (dotado, entenda-se, de vários tipos de solução para a conclusão dos percursos formativos ou de reconhecimento de competências), para além de revelar desconhecimento da realidade, é uma monstruosidade intelectual. 
A fonte da ignorância está em todos nós e nas nossas limitações enquanto seres dotados de razão. Contudo, pior que o ignorante que têm consciência da sua condição mas procura o saber, será aquele que dando ares de sapiência, nem conhece o significado das palavras que utiliza. A nós, enquanto cidadãos, urge defender um modelo alternativo de qualificação que veio, pela primeira vez, depois das experiências de Educação Popular do após 1974, atacar realmente o problema da Educação de Adultos, em Portugal.
A outra ignorância, aquela ignomínia crapulosa de que falava Garret, essa serve o interesse das direitas na defesa das elites, talvez por isso tantos se preocupem em vedar o acesso ao ensino. Uma população qualificada, procurará, cada vez mais, pensar sobre o mundo e esse é um perigo que muitos não estão dispostos a correr.