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Eça de Queirós

domingo, 23 de outubro de 2011

A Fonte da Austeridade ou contra a “economia de algibeira”


"A economia é uma virtude distributiva e consiste não em poupar mas em escolher."
Edmund Burke

 Todos sabemos que o novo orçamento de estado (OE) é um atentado à justiça social. Não pode existir grande discussão acerca disso, nem a demagogia simplista acerca das verdadeiras causas da crise. Aliás, esta crise é, em primeiro lugar, uma crise de valores que afeta toda a nossa civilização dita ocidental, mas, por agora, furtamo-nos a tal discussão.
 Em Portugal parece que pouco entendemos de economia ou pouco nos querem fazer entender. Todos nos dizem que somos, confessadamente, devedores, que temos de pagar a dívida (cada vez uma entidade etérea que paira sobre os Estados e sobre as nossas cabeças) contraída para gáudio de uma vida folgada “acima das reais capacidades dos cidadãos e do país”. Todos nos dizem que temos pagar mais impostos, receber menos, trabalhar mais, para que os Estados, num esforço memorável, reduzam o défice orçamental e consigam pagar a dívida ou, pelo menos, os juros irrealistas que esta vai atingindo. Ninguém quer dizer como será possível resolver esta equação, sobretudo num cenário no qual, na melhor das hipóteses, enfrentaremos uma recessão económica histórica. Ninguém nos diz isso, porque todos sabemos que não vai ser possível. Porque no fundo, todos os comentadores de cartilha são ignorantes perante uma crise que desafia modelos e, em suma, que provou a falácia do mercado livre.
 O mercado desregulado deu nisto o “estado a que nós chegámos” (usurpando a frase de Salgueiro Maia). Ninguém nos fala no reverso da medalha: do boom do investimento imobiliário de luxo; do crescimento das taxas de ocupação de hotéis de cinco estrelas; nos lucros avassaladores dos credores das dívidas soberanas — muitos deles, imoralmente, clientes das agências de rating, esse mecanismo surreal de autorregulação financeira. No fundo, os que fizeram esta crise, os que pressionaram o consumo, os que endeusaram os mercados e que nos foram vendendo, com juros, a utopia do “fim da história” encarnada no demoliberalismo, continuam a enriquecer à custa de uma classe política amorfa e da falta de informação dos cidadãos. Agora fazem nos crer que com menos capital em circulação será possível sair de uma crise sem precedentes, baseados sabe-se lá em que modelos teóricos. Para além das medidas económicas draconianas, exigem-nos a venda a pataco de quase todas as empresas públicas de sectores fundamentais (como os transportes, a energia ou a água). Mais cedo ou mais tarde, os credores também quererão comprar barato: os hospitais, as escolas e, porque não, a polícia ou o exército — já que muito pouco vai sobrando dos Estados outrora soberanos.
 O nobel da economia Paul Krugman, como se sabe crítico destas políticas de vistas curtas, comparou a austeridade dos dias hoje às sangrias dos doentes na Idade Média. Nesse tempo, muitas vezes, a sangria resultava na morte do paciente. Inexoravelmente, a austeridade resultará em falência. Para além da falência dos Estados, a contração económica tão brutal como a que se avizinha com políticas de austeridade à mistura terá como consequência a “falência social” generalizada. Na Idade Média desconhecia-se o funcionamento do corpo humano. Hoje não queremos compreender o funcionamento do mercado sem lei. Ontem como hoje, a fonte da austeridade é a ignorância.     
 Tenho para mim, que qualquer mãe de família geriria melhor as finanças públicas do que professores universitários arreigados a preconceitos ideológicos profundos. Na verdade, todos sabemos mais de economia do que nos querem fazer crer. Vejamos a gestão quotidiana dos estudantes bolseiros, dos trabalhadores precários (sem rendimento fixo ou quaisquer direitos laborais) ou, evidentemente, dos milhares de cidadãos que auferem o salário mínimo. As próprias classes médias fazem um esforço bastante considerável para manter algum nível de qualidade de vida.  Sabemos bem mais de economia do que os “economistas de algibeira” que por aí comentam e opinam. Porém, bastará saber o mínimo de gestão para perceber, que com mais trabalho e com menos dinheiro, não se conseguem pagar dívidas, vai-se conseguindo sobreviver.
 A fonte da austeridade é a ignorância! É preciso repetir à saciedade esta verdade, sobretudo num país ocupado por um governo ingénuo ou, manifestamente, comprometido com os capitalistas, no sentido pejorativo do termo. É preciso votar contra este OE e combater estas políticas ultraliberais. Na verdade, o próprio FMI, hoje liderado pela direita, parece questionar a bondade das suas receitas e especula-se sobre um perdão à dívida grega. Pois é! Basta fazer bem as contas para saber que com este caminho a dívida se torna um monstro e será cada mais impossível de pagar.
 Sejamos honestos, ninguém saberá concretamente o que fazer, ninguém terá soluções universais. Contudo, como escreveu José Régio, “não sei por onde vou / não sei para onde vou / mas sei que não vou por aí!” Não podemos ir pela austeridade somada à austeridade. Na esteira de Edmund Burke, para além da poupança, o segredo da boa economia estará na escolha correta no caminho da melhor distribuição de recursos e de dividendos. Porque outros caminhos são imprescindíveis, temos de reinventar soluções sob pena de hipotecarmos o futuro.

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