"A
economia é uma virtude distributiva e consiste não em poupar mas em escolher."
Edmund Burke
Todos
sabemos que o novo orçamento de estado (OE) é um atentado à justiça social. Não
pode existir grande discussão acerca disso, nem a demagogia simplista acerca das
verdadeiras causas da crise. Aliás, esta crise é, em primeiro lugar, uma crise
de valores que afeta toda a nossa civilização dita ocidental, mas, por agora,
furtamo-nos a tal discussão.
Em
Portugal parece que pouco entendemos de economia ou pouco nos querem fazer
entender. Todos nos dizem que somos, confessadamente, devedores, que temos de
pagar a dívida (cada vez uma entidade etérea que paira sobre os Estados e sobre
as nossas cabeças) contraída para gáudio de uma vida folgada “acima das reais
capacidades dos cidadãos e do país”. Todos nos dizem que temos pagar mais
impostos, receber menos, trabalhar mais, para que os Estados, num esforço
memorável, reduzam o défice orçamental e consigam pagar a dívida ou, pelo
menos, os juros irrealistas que esta vai atingindo. Ninguém quer dizer como
será possível resolver esta equação, sobretudo num cenário no qual, na melhor
das hipóteses, enfrentaremos uma recessão económica histórica. Ninguém nos diz isso,
porque todos sabemos que não vai ser possível. Porque no fundo, todos os
comentadores de cartilha são ignorantes perante uma crise que desafia modelos e,
em suma, que provou a falácia do mercado livre.
O
mercado desregulado deu nisto o “estado a que nós chegámos” (usurpando a frase
de Salgueiro Maia). Ninguém nos fala no reverso da medalha: do boom do investimento imobiliário de
luxo; do crescimento das taxas de ocupação de hotéis de cinco estrelas; nos
lucros avassaladores dos credores das dívidas soberanas — muitos deles,
imoralmente, clientes das agências de rating, esse mecanismo surreal de autorregulação
financeira. No fundo, os que fizeram esta crise, os que pressionaram o consumo,
os que endeusaram os mercados e que nos foram vendendo, com juros, a utopia do “fim
da história” encarnada no demoliberalismo, continuam a enriquecer à custa de
uma classe política amorfa e da falta de informação dos cidadãos. Agora fazem
nos crer que com menos capital em circulação será possível sair de uma crise
sem precedentes, baseados sabe-se lá em que modelos teóricos. Para além das
medidas económicas draconianas, exigem-nos a venda a pataco de quase todas as
empresas públicas de sectores fundamentais (como os transportes, a energia ou a
água). Mais cedo ou mais tarde, os credores também quererão comprar barato: os
hospitais, as escolas e, porque não, a polícia ou o exército — já que muito
pouco vai sobrando dos Estados outrora soberanos.
O
nobel da economia Paul Krugman, como se sabe crítico destas políticas de vistas
curtas, comparou a austeridade dos dias hoje às sangrias dos doentes na Idade
Média. Nesse tempo, muitas vezes, a sangria resultava na morte do paciente. Inexoravelmente,
a austeridade resultará em falência. Para além da falência dos Estados, a
contração económica tão brutal como a que se avizinha com políticas de
austeridade à mistura terá como consequência a “falência social” generalizada. Na
Idade Média desconhecia-se o funcionamento do corpo humano. Hoje não queremos
compreender o funcionamento do mercado sem lei. Ontem como hoje, a fonte da
austeridade é a ignorância.
Tenho
para mim, que qualquer mãe de família geriria melhor as finanças públicas do
que professores universitários arreigados a preconceitos ideológicos profundos.
Na verdade, todos sabemos mais de economia do que nos querem fazer crer.
Vejamos a gestão quotidiana dos estudantes bolseiros, dos trabalhadores
precários (sem rendimento fixo ou quaisquer direitos laborais) ou,
evidentemente, dos milhares de cidadãos que auferem o salário mínimo. As
próprias classes médias fazem um esforço bastante considerável para manter
algum nível de qualidade de vida. Sabemos
bem mais de economia do que os “economistas de algibeira” que por aí comentam e
opinam. Porém, bastará saber o mínimo de gestão para perceber, que com mais
trabalho e com menos dinheiro, não se conseguem pagar dívidas, vai-se
conseguindo sobreviver.
A
fonte da austeridade é a ignorância! É preciso repetir à saciedade esta
verdade, sobretudo num país ocupado por um governo ingénuo ou, manifestamente, comprometido
com os capitalistas, no sentido pejorativo do termo. É preciso votar contra este
OE e combater estas políticas ultraliberais. Na verdade, o próprio FMI, hoje
liderado pela direita, parece questionar a bondade das suas receitas e
especula-se sobre um perdão à dívida grega. Pois é! Basta fazer bem as contas
para saber que com este caminho a dívida se torna um monstro e será cada mais impossível
de pagar.
Sejamos
honestos, ninguém saberá concretamente o que fazer, ninguém terá soluções universais.
Contudo, como escreveu José Régio, “não sei por onde vou / não sei para onde vou
/ mas sei que não vou por aí!” Não podemos ir pela austeridade somada à
austeridade. Na esteira de Edmund Burke, para além da poupança, o segredo da
boa economia estará na escolha correta no caminho da melhor distribuição de
recursos e de dividendos. Porque outros caminhos são imprescindíveis, temos de
reinventar soluções sob pena de hipotecarmos o futuro.
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