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Eça de Queirós

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Memórias de um teatro cinema: o Teatro Rosa Damasceno pertence ao povo?


            Em 1851, a associação cultural escalabitana Club de Santarém promoveu a construção de um teatro na nossa cidade. De modo a levar a cabo esse desígnio, o Club encetou uma subscrição pública na cidade, emitindo, para o efeito, acções do Teatro de Santarém. Inaugurado em 1885, o Teatro de Santarém seria rebatizado como Teatro Rosa Damasceno em 1896, em honra da famosa atriz.
            Na verdade, o Club de Santarém como associação cultural foi então um meio para chegar a um fim, visto que os seus estatutos obrigavam à manutenção de um teatro em Santarém. Mudaram-se os tempos e as vontades. Tal Club desapareceu de cena na vida cívica e cultural da cidade e, ao contrário dos meus tempos de juventude, nem todos os munícipes conhecem ou reconhecem a sua existência. Creio, no entanto, que o Club se mantém, alegadamente com as dores de uma memória traída.
            Com efeito, o espaço onde foi edificado o Teatro Rosa Damasceno pertence ao povo de Santarém. Muito antes das ruínas que hoje conhecemos, ali se ergueu a Igreja de São Martinho. Depois de ser Teatro de Santarém/Teatro Rosa Damasceno, com planta italiana ao gosto romântico, renasceu, nos anos 30 do século transato, como cineteatro moderno. Reabilitado pelo arquiteto de renome Amílcar Pinto, a nova sala chegou a ser classificada como “obra perfeita” para a função de cinema, por uma revista da especialidade de reputação internacional.
Após esta intervenção habilitada de Amílcar Pinto, ao gosto estético do desse tempo, de cara lavada e de corpo reconstruído, o Teatro Rosa Damasceno trouxe uma nova sociabilidade a Santarém. Públicos diversos, fossem autóctones, provenientes das vilas envolventes e ou de Lisboa, acorriam ao novo cinema, sobretudo, para ver teatro, teatro de revista. Por ali, passaram grandes nomes da cena teatral portuguesa dos anos 40 em diante. Ao mesmo tempo, ali se estrearam filmes bem característicos do cinema sob o olhar de Salazar, como, por exemplo, Um Homem do Ribatejo, de Henrique Campos. Hoje, ainda muitos de nós nos lembramos deste “teatro Rosa” que foi um ponto de encontro, onde confluíam as gerações escalabitanas. Aquelas paredes em ruínas, aquelas escadas velhinhas, o balcão do bar ou a máquina de projetar contam a história da cidade e estórias das nossas vidas guardadas, quase em segredo, na “caixa de lembranças” a que uns chamam memória e outros sentem como saudade. Fala-vos da primeira ida ao cinema com os primos, com os pais ou com amigos. Evoca, como se fosse ontem, o primeiro namoro no escuro do cinema ou a matinée, em família, ao domingo.
No Teatro Rosa Damasceno, passou a nossa história de liberdade, materializada nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e de Humberto Delgado, cujo epíteto de herói para sempre recordaremos como general sem medo. Ali, se conspirou abertamente contra a ditadura, erguendo bem alto os pergaminhos de Santarém, velha urbe republicana.  
Este nosso Teatro Rosa Damasceno fez, recentemente, capa da notícia de reabertura do sítio na internet do Inquérito à Arquitetura Portuguesa do Século XX (IAP XX, disponível em …). De facto, este monumento correu o “risco” de ter sido classificado como o primeiro monumento nacional português construído no século XX, não fossem as vistas curtas dos decisores do ex-IPPAR. Neste tempo, tão fugaz do “século da indiferença” em que vivemos, tendemos a considerar sempre ser mais fácil destruir do que recriar, porque o esforço das soluções sustentáveis exige sempre respeito pelo passado na construção do futuro.
A ignorância assume, por vezes, formas crapulosas. Existem dois teatros e meios ativos em Santarém. Contudo, nesta mesma cidade, e então com muito menos habitantes, já existiram, pelo menos, quatro teatros, em pleno funcionamento, com uma capacidade de audiência muito maior e, evidentemente, com uma produção cultural que ia rivalizando, ou melhor, que conseguia concorrer com a de Lisboa.
O espaço sacral de memórias culturais da cidade, onde hoje se erguem as ruínas de um cineteatro, pertence ao povo. É pública a ignorância dos juízes do Supremo Tribunal, decidindo, com regra e esquadro, sobre a lei, como nos tempos mais austeros. Temos por evidente o desconhecimento de causa do executivo camarário que julga que o valor do monumento se resume a uma hipotética salvaguarda da fachada. Sabemos, ainda, que outros “Rosas” existem, que também já foram povo. São aqueles que com “falinhas mansas” me sussurram ao ouvido: “Fizemos cair uma casa centenária, mas vamos reconstrui-la tal e qual. O doutor não notará a diferença!”. Não podemos guardar o passado todo. O “mito do progresso” obriga as cidades a crescer. De qualquer modo, espero que nunca ninguém julgue que poderá destruir o Convento de São Francisco e, no seu lugar, erguer um outro supostamente igual. É que a sapiência dos néscios tem destas coisas…
O Teatro Rosa Damasceno pertence o povo de Santarém, mas terá de ser a comunidade a reclamá-lo. Pouco depois do incêndio que deflagrou no imóvel, Pedro Oliveira conseguiu reunir mais de dois milhares de assinaturas para esta causa. Proponho que prossigamos o seu esforço e que cheguemos às 20 000 assinaturas e, ao menos tempo, que nos quotizemos, como no passado, para adquirir o Teatro, em nome de Santarém. Nesta refrega, caros concidadãos, não podemos desistir. São a memória de Santarém e o seu futuro que nos desfiam.
Ad augusta per angusta!

© José Raimundo Noras
Santarém, 18/12/2011 (7h12)

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