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Eça de Queirós

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Carta aos jovens conformados ou Contra a Indiferença



Bem tentais não vos ocupar de política, mas a política ocupa-se de vós.

Charles Montalembert



Acordai /acordai / homens que dormis / a embalar a dor /dos silêncios vis/ vinde no clamor / das almas viris / arrancar a flor / que dorme na raíz. (…) e acordai depois das lutas finais / os nossos heróis que dormem nos covais/ Acordai! (

“Acordai”, Fernando Lopes Graça



Diz-se do conformismo que: "resulta da interação social das minorais com os grupos dominantes, numa tendência clara de acomodação destas a usos e costumes preestabelecidos". Nesta reflexão, afasto-me de qualquer debate teórico do fenómeno, procuro, sobretudo, contrapor outros valores ao que parece ser a tendência dominante na hodierna sociedade portuguesa: a "acomodação" e a "indiferença". Escrevo aos jovens conformados. Bem podia escrever a todos os cidadãos. No entanto, se esta anomia social é preocupante, ou até confrangedora para a democracia em qualquer caso, no que respeita à juventude a situação torna-se assustadora e bem próxima do desastre.
O jovem conformado, qual cidadão médio, aceita o que lhe dão. Se lhe garantem que a sociedade é injusta por natureza, se lhe afiançam que sempre existiram e sempre existirão situações de pobreza, de ignomínia social, de ignorância crapulosa, de manipulação vil dos cidadãos, o jovem concorda complacente. E, pior do que isso, nem se dá a trabalho de pensar sobre o assunto. A elite governante, armada de ferramentas ideológicas brutais e de uma corja de comentadores/bajuladores, apesar do evidente colapso do sistema, garante que "o sistema" está para durar. Todos nos garantem que afinal são esses tais “direitos adquiridos” que vão desaparecer, que é o “Estado social” (ou a própria razão de ser do Estado) que está em crise. Na semana a seguir a previsões saem sempre ao lado, mas um bom economista sabe salvar a face. A tudo isto dizemos que sim e, em coro nessa opinião comentada, vamos repetimos mentiras perigosas, porque já sabemos que na atual situação económica “o sistema social” só tem uma solução: falência.
Ora, jovens na flor da idade, meus caros cidadãos a origem profunda desta crise está na ausência cabal de valores éticos que norteiem a organização da nossa sociedade. Por outro lado, cada vez mais, não nos revemos nos mecanismos inconsequentes de redistribuição de riqueza ou de promoção de justiça social. Sobre estes problemas a juventude não questiona, não age, não atua. Bem sei, que me vão responder com uma mão cheia de indignados, lutando por outro mundo possível, num esforço salutar. Mas, eu estou à procura dos outros! Eu falo aos jovens que afogam em festas constantes as suas frustrações. Falo aos rapazes e às raparigas que relegam como inútil o debate política ou a participação na gestão da coisa pública, para irem aniquilando neurónios nas futilidades que o quarto poder lhes serve em bandejas coloridas, para que ninguém pense muito sobre o mundo lá fora. Falo aos indiferentes.
Onde estão os jovens que constroem utopias? Onde está o pensamento alternativo a este decadente modelo burguês de civilização ocidental? Onde está a juventude que busca desflorar florestas virgens numa ânsia de renovação de tudo? Onde estão todos aqueles que deviam de exigir o impossível, ainda hoje? Onde estão aqueles que deveriam, com as suas próprias mãos, querer erguer uma sociedade mais justas, mais equilibrada, mais participativa, em suma, querer fazer uma sociedade melhor? Convenceram-nos, com grande orgulho aliás, de que vamos viver pior que a geração anterior e mais uma vez acenámos que sim. Acenámos que está tudo bem, “tudo numa boa”, desde que não nos obriguem a desligar qualquer paródia estúpida na TV. Esquecem-se sempre de referir os outros, aqueles que se abotoam com a riqueza produzida, aqueles que, cada vez mais, lucram, acumulam e reproduzem capital com “a crise” e graças à crise. Na verdade, “a crise” é já quase uma entidade sacral, desprovida de consciência que se vai alimentando desta indiferença, que sobrevive da tua indiferença e da nossa preguiça coletiva de pensar e de agir sobre o que é mais nosso: o futuro.
Contra a indiferença já foi proposta a indignação. Agora, os mesmos propõem o empenho na construção de outra sociedade. Considero que, para além de indignação e de empenho, teremos de ter respostas mais radicais. Devemos questionar o sistema pela base. Devemos propor novos modelos, pensar em novas soluções. Temos de voltar a repensar, voltar a construir programas de gestão participada nas empresas e no Estado. É forçoso voltar a pugnar por mais intervenção e por mais responsabilidade dos cidadãos na coisa pública, por um incremento de mecanismos de participação direta dos eleitores, pela possibilidade adoção de medidas financeiras inovadoras (com orçamentos de base zero, com a taxação de lucros e de dividendos, com a extinção global de paraísos fiscais). Cabe nos defender e implementar, caso a caso, problema a problema, estímulos a projetos de intervenção social, entre outras pequenas coisas que podem fazer toda diferença no mundo real. Serão tantos os caminhos possíveis, tantas as soluções, que precisamos da juventude, que precisamos de todos neste debate, neste processo de reconstrução social.
Contra a indiferença, mais do que a revolução com base na razão e na ciência, como defendeu a “geração de 70” há pouco mais de um século, é preciso acordar. “Acordar os nossos heróis que dormem nos covais”, como cantou Lopes Graça, será sempre despertar a juventude e com a força dessa idade sacudir o entorpecimento de toda sociedade. Acordar a juventude é acordar a nós próprios.
Queremos um mundo novo. Queremos uma sociedade que não se sustente sempre há custa da escravidão de uma imensa maioria. Para revolucionar, para renovar, para construir o futuro, para fazer essa “terra sem amos” erguida por nossas mãos, temos de contar com todos. Hoje, cada vez mais, vais continuar a deixar que a política tome conta de ti? Ou será que, finalmente, vais tomar conta da política? Para fazer hoje o amanhã, contamos contigo?   

© José Raimundo Noras
Santarém, EPVT,19/10/2011

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