Bem tentais não vos ocupar de política, mas a política ocupa-se de
vós.
Charles Montalembert
Acordai /acordai / homens que dormis / a embalar a dor /dos silêncios vis/ vinde no clamor / das almas viris / arrancar a flor / que dorme na raíz. (…) e acordai depois das lutas finais / os nossos heróis que dormem nos covais/ Acordai! (
“Acordai”, Fernando Lopes Graça
Diz-se
do conformismo que: "resulta da interação social das minorais com os grupos
dominantes, numa tendência clara de acomodação destas a usos e costumes preestabelecidos".
Nesta reflexão, afasto-me de qualquer debate teórico do fenómeno, procuro, sobretudo,
contrapor outros valores ao que parece ser a tendência dominante na hodierna
sociedade portuguesa: a "acomodação" e a "indiferença". Escrevo aos jovens
conformados. Bem podia escrever a todos os cidadãos. No entanto, se esta anomia
social é preocupante, ou até confrangedora para a democracia em qualquer caso,
no que respeita à juventude a situação torna-se assustadora e bem próxima do
desastre.
O
jovem conformado, qual cidadão médio, aceita o que lhe dão. Se lhe garantem que
a sociedade é injusta por natureza, se lhe afiançam que sempre existiram e
sempre existirão situações de pobreza, de ignomínia social, de ignorância crapulosa,
de manipulação vil dos cidadãos, o jovem concorda complacente. E, pior do que
isso, nem se dá a trabalho de pensar sobre o assunto. A elite governante,
armada de ferramentas ideológicas brutais e de uma corja de
comentadores/bajuladores, apesar do evidente colapso do sistema, garante que "o
sistema" está para durar. Todos nos garantem que afinal são esses tais “direitos
adquiridos” que vão desaparecer, que é o “Estado social” (ou a própria razão de
ser do Estado) que está em crise. Na semana a seguir a previsões saem sempre ao
lado, mas um bom economista sabe salvar a face. A tudo isto dizemos que sim e,
em coro nessa opinião comentada, vamos repetimos mentiras perigosas, porque já
sabemos que na atual situação económica “o sistema social” só tem uma solução:
falência.
Ora,
jovens na flor da idade, meus caros cidadãos a origem profunda desta crise está
na ausência cabal de valores éticos que norteiem a organização da nossa
sociedade. Por outro lado, cada vez mais, não nos revemos nos mecanismos
inconsequentes de redistribuição de riqueza ou de promoção de justiça social.
Sobre estes problemas a juventude não questiona, não age, não atua. Bem sei, que
me vão responder com uma mão cheia de indignados, lutando por outro mundo
possível, num esforço salutar. Mas, eu estou à procura dos outros! Eu falo aos
jovens que afogam em festas constantes as suas frustrações. Falo aos rapazes e
às raparigas que relegam como inútil o debate política ou a participação na
gestão da coisa pública, para irem aniquilando neurónios nas futilidades que o
quarto poder lhes serve em bandejas coloridas, para que ninguém pense muito
sobre o mundo lá fora. Falo aos indiferentes.
Onde
estão os jovens que constroem utopias? Onde está o pensamento alternativo a
este decadente modelo burguês de civilização ocidental? Onde está a juventude que
busca desflorar florestas virgens
numa ânsia de renovação de tudo? Onde estão todos aqueles que deviam de exigir
o impossível, ainda hoje? Onde estão aqueles que deveriam, com as suas próprias
mãos, querer erguer uma sociedade mais justas, mais equilibrada, mais
participativa, em suma, querer fazer uma sociedade melhor? Convenceram-nos, com
grande orgulho aliás, de que vamos viver pior que a geração anterior e mais uma
vez acenámos que sim. Acenámos que está tudo bem, “tudo numa boa”, desde que
não nos obriguem a desligar qualquer paródia estúpida na TV. Esquecem-se sempre
de referir os outros, aqueles que se abotoam com a riqueza produzida, aqueles
que, cada vez mais, lucram, acumulam e reproduzem capital com “a crise” e graças
à crise. Na verdade, “a crise” é já quase uma entidade sacral, desprovida de
consciência que se vai alimentando desta indiferença, que sobrevive da tua indiferença
e da nossa preguiça coletiva de pensar e de agir sobre o que é mais nosso: o
futuro.
Contra
a indiferença já foi proposta a indignação. Agora, os mesmos propõem o empenho
na construção de outra sociedade. Considero que, para além de indignação e de
empenho, teremos de ter respostas mais radicais. Devemos questionar o sistema
pela base. Devemos propor novos modelos, pensar em novas soluções. Temos de voltar
a repensar, voltar a construir programas de gestão participada nas empresas e
no Estado. É forçoso voltar a pugnar por mais intervenção e por mais
responsabilidade dos cidadãos na coisa pública, por um incremento de mecanismos
de participação direta dos eleitores, pela possibilidade adoção de medidas
financeiras inovadoras (com orçamentos de base zero, com a taxação de lucros e de
dividendos, com a extinção global de paraísos fiscais). Cabe nos defender e implementar,
caso a caso, problema a problema, estímulos a projetos de intervenção social,
entre outras pequenas coisas que podem fazer toda diferença no mundo real. Serão
tantos os caminhos possíveis, tantas as soluções, que precisamos da juventude,
que precisamos de todos neste debate, neste processo de reconstrução social.
Contra
a indiferença, mais do que a revolução com base na razão e na ciência, como
defendeu a “geração de 70” há pouco mais de um século, é preciso acordar. “Acordar
os nossos heróis que dormem nos covais”, como cantou Lopes Graça, será sempre
despertar a juventude e com a força dessa idade sacudir o entorpecimento de
toda sociedade. Acordar a juventude é acordar a nós próprios.
Queremos um mundo novo. Queremos uma sociedade
que não se sustente sempre há custa da escravidão de uma imensa maioria. Para
revolucionar, para renovar, para construir o futuro, para fazer essa “terra sem
amos” erguida por nossas mãos, temos de contar com todos. Hoje, cada vez mais,
vais continuar a deixar que a política tome conta de ti? Ou será que,
finalmente, vais tomar conta da política? Para fazer hoje o amanhã, contamos
contigo?
© José Raimundo Noras
Santarém, EPVT,19/10/2011
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