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Eça de Queirós

sábado, 3 de setembro de 2011

“José & Pilar” da utopia e do realismo na era da técnica


  
Eu tenho ideias para romances, ela tem ideias para a vida e não sei o que é mais importante….

José Saramago


- Pilar!... Encontramo-nos noutro sítio. O desejo do escritor inicia e termina o filme. Essa frase, proferida com uma tranquilidade perturbadora, é metáfora da condição humana e de todos os nossos esforços para a ultrapassar que, necessariamente, redundam no amor.
No documentário José & Pilar, Miguel Gonçalves Mendes regressa a uma temática literária, depois da premiada película Autografia (2004) onde registou o quotidiano dos últimos anos do escritor Mário de Cesariny. O documentário parece o género de eleição de Miguel Mendes, o qual se estreou na sétima arte com a curta-metragem D. Nieves (2002), uma visão documental sobre a Galiza.
O cineasta afirma, no entanto, que depois aventura com Saramago e com Pilar não voltará ao documentário. Primeiramente, porque a produção do filme (que conta com a participação de Fernando Mereilles) o forçou a rever a hipoteca da casa, originando uma monumental dívida. Em segundo lugar, porque juntamente com a dívida se acumularam 240 horas de filme cuja montagem é sempre um processo doloroso segundo o autor. Esperamos que o documentarista não desapareça na obra de Miguel Gonçalves Mendes, até porque, como provou em Floripes (2007), muitas vezes o documentário se cruza com a ficção.
No caso de José & Pilar, o realismo foi a pedra de toque da condução narrativa. A literatura está presente, mas assume um papel de cenário à acção principal: o amor e a vida de um casal, neste caso de Pilar del Río e José Saramago. O escritor e a jornalista sua companheira viajam pelo mundo, abraçam-se, beijam-se, bebem, festejam, fazem o luto de parentes, tal como o mais comum dos mortais. A intenção do autor foi procurar toda essa intimidade no quotidiano do casal. No amor de Pilar e de José cabemos todos, a frase dita no casamento de ambos, parece ser a mensagem constante da obra, a qual no seu realismo, belo mas por vezes cruel, ainda deixa espaço para a utopia.
Pilar de Rio afirmou: não é um filme político. A política está no filme, porque a política está na vida. A técnica fílmica de Miguel Gonçalves Mendes procurou sobretudo registar com fidelidade essa vida de um casal que corre mundo, entre “a corte e a aldeia” mas que, ao mesmo tempo questiona, sem nunca claudicar, a razão de ser desse mundo tão injusto. A política, tal como a morte ou tal como Deus, está no filme para além da realidade, só que bem presa a essa realidade, porque sem ela não existiria. Aliás, Deus só precisa dos Homens para uma coisa: existir, como afirma Saramago no filme.
O escritor sobe à montanha por impulso, pensando que se morresse ali tudo acabava, não escreveria mais livros. De facto, um livro foi a outra “estória” deste filme. O documentário apresenta uma dupla narrativa (como nas antigas epopeias). No plano principal, fica história de José e de Pilar nas suas angústias e vivências diárias. Do cenário da literatura, emerge a ideia de um romance cuja génese e cujo processo criativo o realizador vai acompanhando aos poucos. As duas linhas narrativas cruzam-se no episódio da doença de Saramago (talvez porque nem o amor, nem o livro resistiriam à morte do autor, ou talvez não). Pilar não deixa José morrer e o elefante chega ao fim da sua a viagem.
Para além de quaisquer mensagens metafísicas, ou melhor, filosóficas, para além do idealismo comprometido com a causa de mudar o mundo, o filme traz-nos a dura realidade. A realidade da vida que teima em resistir a morte, porque “a morte é não estar cá”. Ao mesmo tempo que nos faz pensar, o documentário faz-nos rir. Lembrando Aberto Caeiro, “conta histórias só dos homens e tudo é incrível”. Sem entrar em grandes detalhes, a sequência inicial de Saramago a jogar paciências no computador, enquanto o espectador pensará que escreve, é um dos múltiplos momentos de fino humor na longa-metragem, até porque o humor também é vida.
Em suma, estamos perante uma obra grande da cinematografia portuguesa. Vale a pena ver e saborear este José & Pilar. Não me delonguei em aspectos técnicos, apesar da realização de Miguel Gonçalves Mendes ser irrepreensível. A solução utilização para marcar a passagem do tempo, com José (ou com José e Pilar) a fazer rodar um pequeno objecto com velas — o qual mais tarde vimos a saber simbolizar a Viagem do Elefante — é genial na sua simplicidade.
Na apresentação do filme em Santarém, promovida pelo Cineclube local, Pilar del Río confidenciou à plateia que um pintor seu amigo, depois de ver o documentário, lhe escreveu: é um quadro de Velásquez! Será um quadro de Velásquez, não só pela beleza, que também lá encontramos, mas acima de tudo pela realidade nua que transporta e nos transporta, nesta era da técnica.

Santarém, 26 de Novembro de 2010  

Publicado originalmente em Espalha Factos http://www.espalha-factos.com/2010/11/%E2%80%9Cjose-pilar%E2%80%9D-da-utopia-e-do-realismo-na-era-da-tecnica



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