Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

domingo, 10 de março de 2019

Carta de agressor semi-pública ao senhor doutor juiz



Boa noite. Escrevo-lhe a si senhor doutor juiz. Não sei o seu nome, nem me interesse, porque já vesti esses sapatos, também já considerei que machista é a sociedade e eu estou incólume de mácula. Já que estamos quase no tribunal, confesso que agredi e fui e agredido no namoro. Confesso também que não me revejo na sociedade actual onde qualquer ligeira acusação de assédio destrói toda a carreira de uma homem ou de uma mulher no frenesim de um auto de fé mediático. Mas é precisamente de fé que se trata. Sei que não tenho os seus valores, mas ao descobrir os meus, à medida que cresço sei perfeitamente, que vêem muito mais de um tal profeta de Nazaré do que de ideólogos ou mártires contemporâneos. Mas os livros santos que leu não falam só na condenação das mulheres. O próprio sagrado Alcorão, ou talvez a tradição, diz que cinco testemunhas com olhos de ver tem de ter visto a consumação da cópula do pecado mortal para que de outro modo se proceda à lapidação. Mas gastar mais o meu fraco latim com latim para quê? Com valores ou sem valores e porque somos todos judaico-cristãos e ainda um tanto ao quanto islamizados, perdoe a pergunta. Não leu aquela parte do texto sagrado em que o profeta Issa, para uns o tal Messias, para outros homem sem mácula perdoa à mulher adúltera? Ainda não que não o fizesse, diz o senhor doutor juiz que um pau com pregos nas mãos de dois homens são atenuados pela falta prévia da mulher. Talvez possa ser bastante judaico, mas não me parece nada cristão tal raciocínio, visto que o velho homem da Nazaré apela a que se dê a outra face e não é a face com pregos. É certo que o limite do perdão são 70 x 7, mas para quem agride cobardemente, numa cilada, outrem o perdão deve sempre ser divino e não humano. "Daí a César o que é de César (...). Bem considerará Vossa Excelência que o profeta também disse ou deixou escrito "não julgues e Deus não vos julgará", mas ora quem não julga não é humano, porque todos pecamos e todos julgamos. E quem diz que não julga é mentiroso. Mas não vamos por aí. Auto-de-fé por auto-de-fé faria sentença se em causa estivesse a infidelidade da mulher. Tenha em atenção que focou a da mulher. Porque tanto quando fui lendo de jurisprudência judaica e cristã e não só a infidelidade do homem, também é pecado mortal, e, pelo que ouvi dizer, só foi tida por atenuante no nosso sistema judicial perante crime de sangue em 2001, num caso macabro no Cartaxo.  Somos todos machistas num mundo de homens feito para homens, onde as mulheres também são machistas. Não vale a pena por uma trave à frente dos olhos e apontar o cisco dos outros. Faço por fim o meu ato de contrição senhor doutor juíz. Só li um acórdão da sua autoria, o de todos mais famoso. Tenho de trabalhar e não tenho tempo para mais literatura misógina. Fiquei sem interesse nos restante por isso, pela injustiça das minha palavras peço perdão, "na paz de Cristo". Ainda assim, lhe recomendo leitura de um livro, de antitético título, "A Mulher Submissa" de Sidónio Muralha, resposta que foi ao livro "O Homem Subjugado" de autora cujo nome esqueci. Bem haja, na paz do senhor. Ridendo castigat mores.

José Raimundo Noras

Imagem: Dorindo de Carvalho, capa do livro de Sidónio Murlha, A Mulher Submissa, Lisboa: Cacto Editora, 1975.
Foto de Cátia (bibliofeira.com: http://www.bibliofeira.com/livro/108721938/a-mulher-submissa/)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

“Falemos só de flores” escreveu Carlos Loureiro Relvas: para resgatar 99 anos de incompreensão.



Faltam poucos minutos para a meia-noite e assim se esfuma mais um aniversário de Carlos Loureiro Relvas. Faria 99 anos à data de hoje e escrevo este texto carregado de fantasmas.
Fantasma povoadores do imaginário, talvez bem-educados como no sufragado poema de Natália Correia, talvez assustadores como os irmãos de Carlos, Luísa e João Pedro tão perto e tão longe. Há 120 anos a riqueza não os protegeu do tifo. Hoje uma vacina pode salvar as vidas semelhantes se houver mãos e meios que se ponham a esse fim.
Todos os fantasmas estão ali no meio do mare nosturum, os fantasmas estão na Arabia Felix, os fantasmas estão ali no quadros de Malhoa clamando a inocência de todos mortos em flor. A promessa do que nunca podem ser subjaz no que foram. Quase mártires para a eternidade fitado no progresso e na promessa de não deixar morrer quem não se pode defender. No contraponto do quadro do salão do burguês, a fotografia da criança esquálida convoca o texto quase sacral do impoluto pai de Carlos, filho de Carlos, José: “resolver a questão social é o maior desidaratum da política moderna”, escrevia já vai para 110 anos, o lavrador português, com os clássicos todos às costas. Passado tanto tempo, estaremos na mesmas a discutir a questão social? A escondê-la com meias lã? A competir por abundantes recursos, para pequenas e médias companhias do jogo da bola possam ter dinheiro para ir à lua e nunca chegar ao seu semelhante: Saramago dix it.
São estes os teus fantasmas? Serão os fantasmas que te atormentam e assim atormentado viveste os teus 35 anos. Seguro e amargurado lhes pusestes um fim para martírio teu e dos outros. Carlos Loureiro Relvas morreu a 14 de dezembro de 1919, num quarto fechado de uma casa aberta. Morto por criada, morto por homem amante, morto por ciúme, morto por tiro na paixão de não poder ser, morto pelo mais elevado amor que punha a sua vida adiante, morto vingança, morto por crueldade apenas de todos homens e mulheres insanos. Não o sabemos dificilmente o saberemos ao certo, sem inventar outra máquinas do tempo para além volúvel escrita, ou cedermos sem reservas ao espiritismo (como tantos o fizeram ao tempo de Carlos). Assaltam-me o fantasma pela inverdade que plasmei em letra de forma, em livro fotobiografado, retratando o pai José, recontei a história ouvida a leal funcionária da casa que foi dedicada ao filho. As sortes aziagas, tal como a Édipo impeliam a Carlos a morte do pai e perante tal sorte preferira morrer ele. Quem mais teria coragem para um amor tamanho? Mas quantos pais e de bom grado (o seu por certo) deram e dariam a vida para ver os filhos viverem mais tempo. Ao pai, não foi dada escolha na matéria. Abreviar a vida, que até pode ser de Deus, é coragem por certo, mas tem o seu laivo de egoísmo, por todos ficam cá a sofrer, a rememorar, a indagar de outros de planos de existência onde para reencontros plausíveis e não haja só fantasmas em madrugadas funestas. Deixaste a todos tão sós: Eugénia a mãe; José o pai extremoso; a noiva cujo nome se me perde da memoria e ano depois de teres morrido “entregou a alma ao criador”; Francisco o amigo que amava, pudesse contra deuses, contra a tradição.
No fim de contas, se cronista serve só para agoirar e convocar fantasmas, não deveria ter dito, ou melhor escrito o que não sabia e sei agora? Agora, munido de estudos e de provas, grito: nunca te passaria pela cabeça matar o pai. Dou a mão a palmatória e não tivesse impressa aquela página a rasgaria, serve este texto para a corrigir. Muito provavelmente como te confessas amavas mesmo essa noiva, mas não pretendias o amor por obrigação. A paixão viva e ia e vinha no correr das músicas, na alma grande, na sede enorme de beleza, no clamor de justiça. Talvez amasses o amigo homem que te amou, sem sombra de pecado ou de impudor, como nas velhas lendas do Sófocles e tantos outros lidas ao luar, como nos velhos aforismos de Horácio, em o corpo não se dá e a sós se sente, como se fosse mais amor do que vida, mais que angústia a dor irmão e irmã ausente.
Faz 99 anos hoje já. O debate não feneceu, é dos homens a própria vida? Suicida confesso, fosses ou não fosses, sem escamotear, sem esconder tiveste todas a honras de ritos fúnebres na tua católica grei, a mesma grei te forçava ao matrimónio, a mesma grei que te impelia a amar de mais todo próximo. “Aí daquele que ama de mais” avisou-nos a Agustina Bessa-Luís, ainda que não tendo posto em romance tua vida, bem o podia ter feito, num ou noutro parágrafo onde pôs teu austero pai a perseguir os homicidas do crime da Poça das Feticieiras, seis anos depois de teres morrido.
Navegar é preciso? Viver não é preciso? Década inteira consagradas aos teus, gerindo o melhor que soubeste a casa de família, e mesmo assim procuravas aos próximos aumentar salários, melhorar condições laborais. A vida passou por ti continuou e teu pai perante a tragédia não claudicou, manteve férreos princípios e ideias dando teu nome ao legado erigido na tua Alpiarça natal, porque se aí não nasceste foi por mero acaso, pois aí sempre haverias de voltar. Vives como mártir de um fé tão nossa, tão portuguesa, católica e livre no seu todo. Não podias consentir no forçado matrimónio, nem suportar a vergonha de uma rutura. A vida? A vida é vã, sujeita a caprichos e a erros: a memória é eterna. 99 anos incompreensão? Talvez não, porque os teus 35 anos foram bem vividos: rumaste à Alemanha apreender comércio e música; tornaste-te um campeão do bilhar; bateste ao murro pela honra de teu pai (contra Rocha Martins); quase foste preso por defender a justiça da Alemanha ao declarar guerra a um Portugal dúbio, sem honra nem brio nesse tempo. Enfim, soubeste enfrentar a morte cara a cara, olho a olho. Sobeja-nos tanto de memória, soterrado em calúnias e rumores, saibamos a resgatar, para além do quadro garboso, a tocar para sempre a melodia imaginária num piano.
Sempre é difícil admitir que não temos razão e nosso texto no livro em causa, à luz do que sabemos hoje não faz sentido. Contudo, não fomos nós a inventar esse rumor de incompreensão, possa este texto, carregado de fantasmas, servir para quebrar muros, rasgar mitos e, tarefa mais árduas que dividir o átomo, derrubar preconceitos. Hoje é tempo de fantasmas, deixemos falar Carlos Loureiro Relvas em carta inédita a Anselmo Braamcamp Freire:

[p.1] “Excelentíssimo Senhor e muito prezado amigo,
Agradeço muito a Vossa Excelência o bilhete que me escreveu e em que me dá a boa esperança de poder obter com facilidade alguns de esses lindos exemplares de chrysanthemos.
Desculpe-me Vossa Excelência novamente o incomodo que lhe causei, obrigando-o, no meio dos seus affazeres tão graves, a pensar n’esta futilidade. Mas pensei por vezes que ella trouxesse ao seu espírito atribulado por tanto espetáculo triste a alegria de o descançar, por um momento [p. 2] pensamos apenas em flores, esse mimo é mimo da vida.
Pois não [–] é  é na Biblia que se affima – que a bem aventurança da á alma dos santos o perfume das rosas? Agradeço muito a Vossa Excelência as affetuosas expressões a respeito de meus paes que lhe transmiti para Madrid e que elles sem demora muito agradeceram. Confessando-me muito grato por todas as seus gentileza e pedindo-lhe o favor de apresentar a sua Excelentíssima Esposa e minha Senhora os meus respeitosos cumprimentos[,]  peço a Vossa Excelência me creia com a maior consideração e amizade.
            Muito Affetuoso Venerado e Amigo muito
                        Grato / Carlos Relvas

Carta de Carlos Loureiro Relvas a Anselmo Braamcamp Freire, Alpiarça, 30/01/1912 (Arquivo Histórico da Biblioteca Municipal de Santarém, PTAHCMSSTR/BF-C1/539, seguem-se fotos da mesma carta)




Texto e transcrição de José Raimundo Noras

(Santarém, 13-14/Dezembro/2018)

sábado, 20 de outubro de 2018

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Em defesa de um cineteatro: memórias com soluções para o Teatro Rosa Damasceno (I)


“Então quando teremos Rosa Damasceno?” — perguntam-me à boca pequena na venda de postais antigos junto à repartição de finanças. Mais ao fim da tarde, na ourivesaria, relato dilemas de um movimento em construção. “Parece que em Santarém nunca nos unimos, mas andamos sempre à procura de quem foi o culpado” — diz-me a simpática lojista.




Assim seja, faço eu um mea culpa. Por certo, nas minhas deambulações investigativas não soube incluir todos e todas por igual que tempo e trabalho dedicaram a esta causa. Sem recuarmos no tempo, aos arautos promotores do teatro, falemos de Martinho da Silva e da sua posição de honra no Club de Santarém. Falemos do próprio que Club, o qual durante alguns anos, foi mantendo um cinema agonizante. Falemos das campanhas promovidas por Margarida Gabriel e pelos “Amigos do Teatro Rosa Damasceno”. Falemos das batalhas sociais, políticas e jurídicas da Associação de Estudo e Defesa do Património (AEDPHCCS), lembrando todos, nas pessoas, dos dirigentes Maria Emília Pacheco, Vasco Serrano, Gonçalo Mendonça entre tantos que a memória já me trai. Falemos da Ação Popular, de um grupo de cidadãos atentos, tendo como primeiro subscritor o Coronel Garcia Correia e juridicamente conduzida pelos ilustres advogados João Correia e Ana Correia. Falemos da petição pública dinamizada por Pedro Oliveira e Lúcia Sigalho. Recordemos as palestras do Centro Cultural promovidas por Graça Morgadinho e a equipa dessa coletividade. Falemos de José Fernando Gomes provando que o cinematógrafo fez por ali uma estreia inusitado. Falemos de Tiago Soares Lopes, Diana Silva na produção do Mapa de Arquitetura de Amílcar Pinto e no estudo do Teatro na economia local. Falemos de José Manuel Fernandes sempre disposto a dar a cara pela causa. Recordemos o recente prémio no concurso de Lego do jovem Afonso Gomes, provando que os mais novos vão sendo despertos para a questão. Falemos de todos, sem os nomear, que ainda há meses abdicaram do seu tempo para a construção de um movimento social sobre assunto. Nunca esqueçamos a mensagem de Pedro Barreiro, porque um teatro não é apenas um edifício. Falemos da imprensa periódica local com O Correio do Ribatejo à cabeça, O Ribatejo, O Mirante e a Agência Lusa sempre dispostos a colocar o assunto na agenda mediática e, naturalmente, o espaço Eu gosto de Santarém.

No elencar deste rol de vontades por certo esquecemos muitos nomes dignos de registo, ligados à defesa do velho e do novo Teatro Rosa Damasceno. Provavelmente, todos os que me leiam sentem-se irados a defesa de um cineteatro — palavra que mudou de nome, isto é de grafia — só pode ser feita pela cidade como um todo, como conjunto da vontade. Deixemos o elencar de memórias. Assumo as desculpas a quem não nomeei. Porém de fora não podem ficar os Grupos de Teatro, o Centro Cultural e o Círculo Cultural, os mesmos que nos idos anos 70 reclamavam pela gestão partilhada do espaço: por “mais teatro” que alternasse com “bom cinema”, para além dos blockbusters. Faço o mea culpa de não ter ido ao seu encontro.

Não esqueçamos a entidade proprietária. A defesa deste espaço não pode ser contra alguém ou alguma coisa. Não aceito os métodos, nem o estilo, não posso aceitar a destruição sem pejo de ruínas ancestrais e de uma casa centenária sem pestanejar, mas não nos move nenhum azedume. Entenda a empresa detentora do imóvel este texto como, se ainda fosse fumador, um “cachimbo da paz”. Carlos Rodrigues e, tantos outros, expressaram a vontade de antes de morrer querer voltar ao teatro. O meu filho Bernardo acabado de nascer gostava de ir lá ao cinema. Um Teatro Rosa Damasceno a funcionar é do interesse de todos nós, e dos donos em primeiro lugar.

Por fim desenganem-se os néscios. Podemos arranjar vontades, reunir apoios, conseguir os dinheiros necessários. Será sempre preciso “sair da zona de conforto”, para depois de tudo isso manter uma sala de espetáculos viva. Um pouco por todo o país os cineteatros definharam, porque o cinema consome-se, grosso modo, em casa e nas grandes superfícies comerciais (mau grado, o esforço hercúleo dos cineclubes). Aqui chegados, deixo a minha possível solução para que fiquem claras as “profissões de fé à partida”. Outras soluções haverá e urge debatê-las. 

Sempre entendi que o Teatro Rosa Damasceno deve ser preservado como sala de espetáculos, consentânea com outras valências culturais. Não me repugna a sua utilização comercial de nessa lógica, imaginemos uma “Fnac” ou algo semelhante em Santarém. Não existe uma boa loja de discos, na cidade, nem loja de cinema. Não tenho posições dogmáticas sobre o que preservar nem como preservar. Recordemos que o Teatro já foi diferente.

Todos somos chamados para partilhar vontades. Soube nas páginas de O Mirante da intenção da edilidade, expressa pelo Presidente Ricardo Gonçalves, em Assembleia Municipal, de intentar negociação do espaço por troca de outros imóveis. A intenção é de saudar, considerando que reflete um olhar diferente sobre o problema (por exemplo, em relação à polémica não-gestão do assunto pelo anterior executivo).   

A crónica vai longa e deveres familiares me chamam se hoje ficámos pelas memórias, em breve prometemos reflexão sobre possíveis soluções. 


sábado, 30 de janeiro de 2016

Dia de Reflexão

A facilidade com que as pessoas desprovidas de bom senso opinam sobre a história ou sobre ciência em geral, sem conhecimentos básicos ou sentido crítico, faz-me que pensar na parábola do petiz que julgava nascerem as alfaces no supermercado ou que a carne era originária do esferovite de plástico que a envolvia. A ciência, a cultura, o conhecimento exigem curiosidade, mente aberta, espírito crítico, cepticismo, trabalho, mas também algum grau de coerência. Para quando poderemos comunicar sem preconceitos nem dogmatismos primários? Para quando falarmos uns com os outros sem olhos no sexo, nos credos, na cor, na idade, na profissão, na conta bancária, na formação académica (suposta ou labutada com suor), na ideologia, nos ancestrais, na forma vestir? Para quando sermos humanos sem deixarmos de ser animais no bom sentido dos instintos de protecção e até de defesa interespécie? O planeta durará muito mais do que nós. A vida continuará depois de nós. Proteger o planeta é uma falácia nos termos. Temos de nos salvar a nós e à dimensão humana da existência, que ainda merece a pena.... Merecerá? Se não o fizermos já, agora, neste século XXI, como Sidónio Muralha escreveu "a vida adoptará outro invólucro". Somos, já o anunciaram poetas "um bicho de terra tão pequeno"! Com noção sincera da nossa pequenez, podemos sonhar e construir por nossas mãos o que sabemos ser correcto: seja "a terra sem amos", seja "o sonho americano", seja o compromisso entre visões diferentes de progresso. Temos apenas e só de parar. Parar com olhos de ver e mãos de sentir. O petróleo vai terminar ou nós antes dele. Parar e pensar. Pensar e reflectir nas verdades simples: sem árvores não existimos. Pode parecer idiota, porém, infelizmente, as árvores que duram há séculos e têm memória (muito provavelmente não de um ponto de vista fisiológico, mas certamente filosófico) não votam, votemos nós também por elas e por todos os outros que de nós dependem. Boas reflexões. Sem ideologia, laico e agnóstico aceitem este repto de: até de manhã camaradas (valete frates)!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"O Vício dos Homens" apresentado em Lisboa, 16/Janeiro, 15h00, Atmosfera M



A editora Livros de Ontem tem o prazer de o/a convidar para a apresentação do livro "O vício dos homens" de José Raimundo Noras, que terá lugar na Atmosfera M, em Lisboa, pelas 15h00 do dia 16 de Janeiro.

O vício dos homens é um livro de crónicas que, grosso modo, foram publicadas na primeira década do século XXI em diversos periódicos, entre eles a RELER - Revista dos Estudantes da Faculdade de Letras e o jornal O Ribatejo. Um dos textos foi ainda objecto do 5º prémio do concurso Montepio Desafia 2010, da Associação Mutualista - Montepio Geral

A apresentação estará a cargo do autor, do arquitecto Tiago Soares Lopes e da escritora Manuela Nogueira.

Contamos com a sua presença! Confirme no facebook em: 
https://www.facebook.com/events/1543195592669918/

Livro e ebook já disponíveis na editora em: 




sábado, 31 de outubro de 2015

Dos partidos e da Democracia (I)

"Todo o partido existe para servir o povo e não a si mesmo".
Konrad Adenauer

"Não te satisfaças com o um programa de um partido político:
inventa melhor"
Agostinho da Silva


Bem sabemos, e tenho dito, que a crise que vivemos é moral, nos seus fundamentos. Aliás, da nossa imoralidade quotidiana redunda a falácia da representação parlamentar e, nos dias de hoje, a quase total falência da democracia. 
Se procuro falar de problemas reais e concretos, os meus concidadãos respondem-me, interagem comigo, ou, por vezes, até se mobilizam para encontrar soluções. Quanto, contudo, a solução passa para pelo "agir no partido"(seja ele qual for), "organizar uma lista" ou "concorrer à junta", toma conta das mentes e dos corações um desdém insano pela acção política, como se esta fosse a raíz de todos os males. 
Não, não considero que "tenhamos os políticos que merecemos", frase vazia de significado intelectual. Aliás, muito pragmaticamente, tal como Aristóteles, tenho uma perspectiva holística da política e até considero que quem não a tem, no fundo, apenas quer reservar para si o que considera ser "conhecimento político", para melhor agir na "sombra dos poderes". Por isso, nem a "política" nem os "partidos", bem entendidos os termos, são "antros de gandulagem", como todos os dias nos querem fazer crer, nem os cidadãos são "virgens, puras e castas" imaculadas numa inocência ancestral que nos exonera de responsabilidades sobre a "situação actual". Todos somos humanos (e lá diria o filósofo todos somos políticos), todos temos falhas e todos cometemos erros, todos temos de conviver e de sobreviver com as nossas escolhas.
Eu creio que nossa crise  é moral e resulta fundamentalmente da incompreensão do que é deve ser na verdade a democracia. A democracia não é a "ditadura da maioria". A democracia não é "a necessidade de estabilidade". A democracia não é a "maioria absoluta". A democracia não é "partidocracia", nem depende da existência de partidos políticos. A democracia é o confronto de ideias e comunhão de interesses. A democracia tem de ser o constante colocar em causa das razões do poder. A democracia é a decisão baseada no diálogo e na aproximação de posições e não na derrota de uma em prol da vitória de outra. Aliás, não podemos encontrar na história humana - à excepção de curtos períodos de revoltas populares na Idade Média, de formas desconexas de poder no após Revolução Francesa, ou da célebre "República Guarani" de inspiração jesuíta - verdadeiras democracias. Todos os regimes que se arrogam ou arrogaram de democráticos instituíram sempre entraves ao exercício do poder por parte dos cidadãos.
Nesse sentido, a ideia original de partido - nascida "à esquerda" nas revoluções dos séculos XVIII XIX, sendo que à "direita" talvez tenha tido origem primordial com os "federalistas norte-americanos" - radicalmente, pretendia "aproximar o poder do cidadão", colmatando, de certo modo, esses entraves ou limitações do "estado democrático". Todavia, mesmo deste ponto de vista, o partido seria sempre um "instrumento de domínio do Estado sobre o cidadão" (já o avisava Bakunine) e mesmo que o partido (como na teoria marxista clássica) "almejasse a revolução", ou a "reforma da sociedade", a veiculação desses ideais acabou por ter, quase sempre,  formulações paternalistas sobre os indivíduos e sobre o seu papel autónomo na mudança social. 
Para serve um partido? Deveria servir, por exemplo, para em conjunto debater o futuro, os ditos problemas reais, as possíveis soluções, para chegar (ou não) a conclusões, para escrever tratados, para construir princípios, para definir regras de actuação. Um partido não serve para governar, nem deve governar por si mesmo. Quem deve governar são as pessoas escolhidas pelas pessoas. Um partido não deve ter "obediência partidária", isso é um "contra-senso" com a própria ideia de democracia. A pura e simples expressão "disciplina de voto" faria muito mais sentido em qualquer manual de autocracia dos anos 30 ou 40 do século XX, do que nas nossas sociedades ditas livres e "todas essas coisas mais". (Atenção, isto não tem nada a ver com a defesa boçal da "tecnocracia" tão em voga nos "meios iletrados" do comentário político, trata-se apenas da constatação de um facto, há "boca pequena" bem conhecido do povo de que: "as pessoas votam em pessoas e não em partidos", mesmo que assim não devesse ser.)
Um partido deve servir o povo, sem trair o ideal que defende. O partido, qualquer partido, deve ser o "fórum de discussão", a "Àgora da liberdade". Contudo, é certo, é bem visível que não assim têm sido, na nossa democracia parlamentar e muito pouca participativa. Porquê?

Em primeiro lugar fazem falta braços nesta seara e escasseiam vozes neste comício. Para qualquer cidadão é sempre mais conveniente ser "velho do Restelo" e criticar na praia, do que ajudar a construir a caravela, que é como quem gizar soluções concretas e práticas para problemas reais.   Em segundo lugar (e qualquer discurso em contrário é mistificação), tal como os Estados, os partidos também põem entraves à adesão de cidadãos livres no seu seio. Para além das já faladas questões de "disciplina", de "obediência", existem em todos os partidos regras burocráticas obsoletas e normas não escritas de subserviências aos "poderes reais": os "senhores da sombra", "os barões", os famigerados "caciques". Não interpretem mal, considero que caciquismo têm sido inerente à democracia, porque todos os indivíduos são diferentes e uns são mais influenciáveis que outros, não é um mal em si mesmo. Nem é aí que está o problema. O problema está no supor da ignorância da população, na forma paternalista com que os partidos tratam o povo e na displicência com os "líderes" tratam "os militantes" cada vez mais apodados de "bases" para que não possam ter consciência do seu papel transformador. O problema está no celebrar da "trafulhice" e da "mediocridade" que realpolitik vai exaltando por interesses espúrios ou por medo do "pisar dos calos" de quem já se instalou.

No fundo um partido deve ser como uma enxada, deve estar ao serviço do povo para lavrar a terra e para que da terra possamos fazer brotar um mundo novo. Se o partido não nos serve para essa renovação do social, se está estagnado, não tem utilidade alguma. Neste caso, só temos duas hipóteses: ou consertámos a enxada ou construímos uma enxada nova. Nestas coisas da acção política não podemos é ficar sem ferramenta para agir sobre a sociedade. Porque como todos sabemos e só não queremos admitir em voz alta: ou tomamos conta da politica ou a política toma conta de nós.