Faltam
poucos minutos para a meia-noite e assim se esfuma mais um aniversário de
Carlos Loureiro Relvas. Faria 99 anos à data de hoje e escrevo este texto
carregado de fantasmas.
Fantasma
povoadores do imaginário, talvez bem-educados como no sufragado poema de
Natália Correia, talvez assustadores como os irmãos de Carlos, Luísa e João
Pedro tão perto e tão longe. Há 120 anos a riqueza não os protegeu do tifo. Hoje
uma vacina pode salvar as vidas semelhantes se houver mãos e meios que se
ponham a esse fim.
Todos
os fantasmas estão ali no meio do mare
nosturum, os fantasmas estão na Arabia
Felix, os fantasmas estão ali no quadros de Malhoa clamando a inocência de
todos mortos em flor. A promessa do que nunca podem ser subjaz no que foram.
Quase mártires para a eternidade fitado no progresso e na promessa de não
deixar morrer quem não se pode defender. No contraponto do quadro do salão do burguês,
a fotografia da criança esquálida convoca o texto quase sacral do impoluto pai
de Carlos, filho de Carlos, José: “resolver a questão social é o maior
desidaratum da política moderna”, escrevia já vai para 110 anos, o lavrador
português, com os clássicos todos às costas. Passado tanto tempo, estaremos na
mesmas a discutir a questão social? A escondê-la com meias lã? A competir por
abundantes recursos, para pequenas e médias companhias do jogo da bola possam
ter dinheiro para ir à lua e nunca chegar ao seu semelhante: Saramago dix it.
São
estes os teus fantasmas? Serão os fantasmas que te atormentam e assim
atormentado viveste os teus 35 anos. Seguro e amargurado lhes pusestes um fim
para martírio teu e dos outros. Carlos Loureiro Relvas morreu a 14 de dezembro
de 1919, num quarto fechado de uma casa aberta. Morto por criada, morto por
homem amante, morto por ciúme, morto por tiro na paixão de não poder ser, morto
pelo mais elevado amor que punha a sua vida adiante, morto vingança, morto por
crueldade apenas de todos homens e mulheres insanos. Não o sabemos dificilmente
o saberemos ao certo, sem inventar outra máquinas do tempo para além volúvel
escrita, ou cedermos sem reservas ao espiritismo (como tantos o fizeram ao
tempo de Carlos). Assaltam-me o fantasma pela inverdade que plasmei em letra de
forma, em livro fotobiografado, retratando o pai José, recontei a história
ouvida a leal funcionária da casa que foi dedicada ao filho. As sortes aziagas,
tal como a Édipo impeliam a Carlos a morte do pai e perante tal sorte preferira
morrer ele. Quem mais teria coragem para um amor tamanho? Mas quantos pais e de
bom grado (o seu por certo) deram e dariam a vida para ver os filhos viverem
mais tempo. Ao pai, não foi dada escolha na matéria. Abreviar a vida, que até
pode ser de Deus, é coragem por certo, mas tem o seu laivo de egoísmo, por
todos ficam cá a sofrer, a rememorar, a indagar de outros de planos de existência
onde para reencontros plausíveis e não haja só fantasmas em madrugadas
funestas. Deixaste a todos tão sós: Eugénia a mãe; José o pai extremoso; a
noiva cujo nome se me perde da memoria e ano depois de teres morrido “entregou
a alma ao criador”; Francisco o amigo que amava, pudesse contra deuses, contra
a tradição.
No
fim de contas, se cronista serve só para agoirar e convocar fantasmas, não
deveria ter dito, ou melhor escrito o que não sabia e sei agora? Agora, munido
de estudos e de provas, grito: nunca te passaria pela cabeça matar o pai. Dou a
mão a palmatória e não tivesse impressa aquela página a rasgaria, serve este
texto para a corrigir. Muito provavelmente como te confessas amavas mesmo essa
noiva, mas não pretendias o amor por obrigação. A paixão viva e ia e vinha no
correr das músicas, na alma grande, na sede enorme de beleza, no clamor de
justiça. Talvez amasses o amigo homem que te amou, sem sombra de pecado ou de
impudor, como nas velhas lendas do Sófocles e tantos outros lidas ao luar, como
nos velhos aforismos de Horácio, em o corpo não se dá e a sós se sente, como se
fosse mais amor do que vida, mais que angústia a dor irmão e irmã ausente.
Faz
99 anos hoje já. O debate não feneceu, é dos homens a própria vida? Suicida
confesso, fosses ou não fosses, sem escamotear, sem esconder tiveste todas a
honras de ritos fúnebres na tua católica grei, a mesma grei te forçava ao
matrimónio, a mesma grei que te impelia a amar de mais todo próximo. “Aí
daquele que ama de mais” avisou-nos a Agustina Bessa-Luís, ainda que não tendo
posto em romance tua vida, bem o podia ter feito, num ou noutro parágrafo onde
pôs teu austero pai a perseguir os homicidas do crime da Poça das Feticieiras,
seis anos depois de teres morrido.
Navegar
é preciso? Viver não é preciso? Década inteira consagradas aos teus, gerindo o
melhor que soubeste a casa de família, e mesmo assim procuravas aos próximos
aumentar salários, melhorar condições laborais. A vida passou por ti continuou
e teu pai perante a tragédia não claudicou, manteve férreos princípios e ideias
dando teu nome ao legado erigido na tua Alpiarça natal, porque se aí não
nasceste foi por mero acaso, pois aí sempre haverias de voltar. Vives como
mártir de um fé tão nossa, tão portuguesa, católica e livre no seu todo. Não
podias consentir no forçado matrimónio, nem suportar a vergonha de uma rutura.
A vida? A vida é vã, sujeita a caprichos e a erros: a memória é eterna. 99 anos
incompreensão? Talvez não, porque os teus 35 anos foram bem vividos: rumaste à
Alemanha apreender comércio e música; tornaste-te um campeão do bilhar; bateste
ao murro pela honra de teu pai (contra Rocha Martins); quase foste preso por
defender a justiça da Alemanha ao declarar guerra a um Portugal dúbio, sem
honra nem brio nesse tempo. Enfim, soubeste enfrentar a morte cara a cara, olho
a olho. Sobeja-nos tanto de memória, soterrado em calúnias e rumores, saibamos
a resgatar, para além do quadro garboso, a tocar para sempre a melodia
imaginária num piano.
Sempre
é difícil admitir que não temos razão e nosso texto no livro em causa, à luz do
que sabemos hoje não faz sentido. Contudo, não fomos nós a inventar esse rumor
de incompreensão, possa este texto, carregado de fantasmas, servir para quebrar
muros, rasgar mitos e, tarefa mais árduas que dividir o átomo, derrubar
preconceitos. Hoje é tempo de fantasmas, deixemos falar Carlos Loureiro Relvas
em carta inédita a Anselmo Braamcamp Freire:
[p.1]
“Excelentíssimo Senhor e muito prezado amigo,
Agradeço muito a
Vossa Excelência o bilhete que me escreveu e em que me dá a boa esperança de
poder obter com facilidade alguns de esses lindos exemplares de chrysanthemos.
Desculpe-me Vossa
Excelência novamente o incomodo que lhe causei, obrigando-o, no meio dos seus
affazeres tão graves, a pensar n’esta futilidade. Mas pensei por vezes que ella
trouxesse ao seu espírito atribulado por tanto espetáculo triste a alegria de o
descançar, por um momento [p. 2] pensamos apenas em flores, esse mimo é mimo da
vida.
Pois não [–]
é é na Biblia que se affima – que a bem
aventurança da á alma dos santos o perfume das rosas? Agradeço muito a Vossa
Excelência as affetuosas expressões a respeito de meus paes que lhe transmiti
para Madrid e que elles sem demora muito agradeceram. Confessando-me muito
grato por todas as seus gentileza e pedindo-lhe o favor de apresentar a sua
Excelentíssima Esposa e minha Senhora os meus respeitosos cumprimentos[,] peço a Vossa Excelência me creia com a maior
consideração e amizade.
Muito Affetuoso Venerado e Amigo
muito
Grato / Carlos Relvas
Carta de Carlos Loureiro Relvas a
Anselmo Braamcamp Freire, Alpiarça, 30/01/1912 (Arquivo Histórico da Biblioteca
Municipal de Santarém, PTAHCMSSTR/BF-C1/539, seguem-se fotos da mesma carta)
Texto e transcrição de José Raimundo Noras
(Santarém, 13-14/Dezembro/2018)


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