“Então
quando teremos Rosa Damasceno?” — perguntam-me à boca pequena na venda de postais
antigos junto à repartição de finanças. Mais ao fim da tarde, na ourivesaria,
relato dilemas de um movimento em construção. “Parece que em Santarém nunca nos
unimos, mas andamos sempre à procura de quem foi o culpado” — diz-me a
simpática lojista.
Assim seja,
faço eu um mea culpa. Por certo, nas
minhas deambulações investigativas não soube incluir todos e todas por igual
que tempo e trabalho dedicaram a esta causa. Sem recuarmos no tempo, aos
arautos promotores do teatro, falemos de Martinho da Silva e da sua posição de
honra no Club de Santarém. Falemos do próprio que Club, o qual durante alguns
anos, foi mantendo um cinema agonizante. Falemos das campanhas promovidas por
Margarida Gabriel e pelos “Amigos do Teatro Rosa Damasceno”. Falemos das
batalhas sociais, políticas e jurídicas da Associação de Estudo e Defesa do
Património (AEDPHCCS), lembrando todos, nas pessoas, dos dirigentes Maria Emília
Pacheco, Vasco Serrano, Gonçalo Mendonça entre tantos que a memória já me trai.
Falemos da Ação Popular, de um grupo de cidadãos atentos, tendo como primeiro
subscritor o Coronel Garcia Correia e juridicamente conduzida pelos ilustres
advogados João Correia e Ana Correia. Falemos da petição pública dinamizada por
Pedro Oliveira e Lúcia Sigalho. Recordemos as palestras do Centro Cultural
promovidas por Graça Morgadinho e a equipa dessa coletividade. Falemos de José
Fernando Gomes provando que o cinematógrafo fez por ali uma estreia inusitado.
Falemos de Tiago Soares Lopes, Diana Silva na produção do Mapa de Arquitetura
de Amílcar Pinto e no estudo do Teatro na economia local. Falemos de José
Manuel Fernandes sempre disposto a dar a cara pela causa. Recordemos o recente
prémio no concurso de Lego do jovem Afonso Gomes, provando que os mais novos
vão sendo despertos para a questão. Falemos de todos, sem os nomear, que ainda
há meses abdicaram do seu tempo para a construção de um movimento social sobre
assunto. Nunca esqueçamos a mensagem de Pedro Barreiro, porque um teatro não é apenas
um edifício. Falemos da imprensa periódica local com O Correio do Ribatejo à cabeça,
O Ribatejo, O Mirante e a Agência
Lusa sempre dispostos a colocar o assunto na agenda mediática e, naturalmente,
o espaço Eu gosto de Santarém.
No elencar
deste rol de vontades por certo esquecemos muitos nomes dignos de registo, ligados
à defesa do velho e do novo Teatro Rosa Damasceno. Provavelmente, todos os que
me leiam sentem-se irados a defesa de um cineteatro — palavra que mudou de nome,
isto é de grafia — só pode ser feita pela cidade como um todo, como conjunto da
vontade. Deixemos o elencar de memórias. Assumo as desculpas a quem não nomeei.
Porém de fora não podem ficar os Grupos de Teatro, o Centro Cultural e o
Círculo Cultural, os mesmos que nos idos anos 70 reclamavam pela gestão
partilhada do espaço: por “mais teatro” que alternasse com “bom cinema”, para
além dos blockbusters. Faço o mea culpa de não ter ido ao seu
encontro.
Não esqueçamos a entidade proprietária. A defesa deste espaço não pode ser contra alguém ou
alguma coisa. Não aceito os métodos, nem o estilo, não posso aceitar a
destruição sem pejo de ruínas ancestrais e de uma casa centenária sem
pestanejar, mas não nos move nenhum azedume. Entenda a empresa detentora do
imóvel este texto como, se ainda fosse fumador, um “cachimbo da paz”. Carlos
Rodrigues e, tantos outros, expressaram a vontade de antes de morrer querer
voltar ao teatro. O meu filho Bernardo acabado de nascer gostava de ir lá ao
cinema. Um Teatro Rosa Damasceno a funcionar é do interesse de todos nós, e dos
donos em primeiro lugar.
Por fim
desenganem-se os néscios. Podemos arranjar vontades, reunir apoios, conseguir
os dinheiros necessários. Será sempre preciso “sair da zona de conforto”, para depois
de tudo isso manter uma sala de espetáculos viva. Um pouco por todo o país os
cineteatros definharam, porque o cinema consome-se, grosso modo, em casa e nas grandes superfícies comerciais (mau
grado, o esforço hercúleo dos cineclubes). Aqui chegados, deixo a minha possível
solução para que fiquem claras as “profissões de fé à partida”. Outras soluções
haverá e urge debatê-las.
Sempre entendi
que o Teatro Rosa Damasceno deve ser preservado como sala de espetáculos,
consentânea com outras valências culturais. Não me repugna a sua utilização
comercial de nessa lógica, imaginemos uma “Fnac” ou algo semelhante em
Santarém. Não existe uma boa loja de discos, na cidade, nem loja de cinema. Não
tenho posições dogmáticas sobre o que preservar nem como preservar. Recordemos
que o Teatro já foi diferente.
Todos somos chamados para partilhar vontades.
Soube nas páginas de O Mirante da
intenção da edilidade, expressa pelo Presidente Ricardo Gonçalves, em
Assembleia Municipal, de intentar negociação do espaço por troca de outros imóveis.
A intenção é de saudar, considerando que reflete um olhar diferente sobre o
problema (por exemplo, em relação à polémica não-gestão do assunto pelo
anterior executivo).
A crónica vai longa e deveres familiares me
chamam se hoje ficámos pelas memórias, em breve prometemos reflexão sobre
possíveis soluções.


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