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Eça de Queirós

domingo, 10 de março de 2019

Carta de agressor semi-pública ao senhor doutor juiz



Boa noite. Escrevo-lhe a si senhor doutor juiz. Não sei o seu nome, nem me interesse, porque já vesti esses sapatos, também já considerei que machista é a sociedade e eu estou incólume de mácula. Já que estamos quase no tribunal, confesso que agredi e fui e agredido no namoro. Confesso também que não me revejo na sociedade actual onde qualquer ligeira acusação de assédio destrói toda a carreira de uma homem ou de uma mulher no frenesim de um auto de fé mediático. Mas é precisamente de fé que se trata. Sei que não tenho os seus valores, mas ao descobrir os meus, à medida que cresço sei perfeitamente, que vêem muito mais de um tal profeta de Nazaré do que de ideólogos ou mártires contemporâneos. Mas os livros santos que leu não falam só na condenação das mulheres. O próprio sagrado Alcorão, ou talvez a tradição, diz que cinco testemunhas com olhos de ver tem de ter visto a consumação da cópula do pecado mortal para que de outro modo se proceda à lapidação. Mas gastar mais o meu fraco latim com latim para quê? Com valores ou sem valores e porque somos todos judaico-cristãos e ainda um tanto ao quanto islamizados, perdoe a pergunta. Não leu aquela parte do texto sagrado em que o profeta Issa, para uns o tal Messias, para outros homem sem mácula perdoa à mulher adúltera? Ainda não que não o fizesse, diz o senhor doutor juiz que um pau com pregos nas mãos de dois homens são atenuados pela falta prévia da mulher. Talvez possa ser bastante judaico, mas não me parece nada cristão tal raciocínio, visto que o velho homem da Nazaré apela a que se dê a outra face e não é a face com pregos. É certo que o limite do perdão são 70 x 7, mas para quem agride cobardemente, numa cilada, outrem o perdão deve sempre ser divino e não humano. "Daí a César o que é de César (...). Bem considerará Vossa Excelência que o profeta também disse ou deixou escrito "não julgues e Deus não vos julgará", mas ora quem não julga não é humano, porque todos pecamos e todos julgamos. E quem diz que não julga é mentiroso. Mas não vamos por aí. Auto-de-fé por auto-de-fé faria sentença se em causa estivesse a infidelidade da mulher. Tenha em atenção que focou a da mulher. Porque tanto quando fui lendo de jurisprudência judaica e cristã e não só a infidelidade do homem, também é pecado mortal, e, pelo que ouvi dizer, só foi tida por atenuante no nosso sistema judicial perante crime de sangue em 2001, num caso macabro no Cartaxo.  Somos todos machistas num mundo de homens feito para homens, onde as mulheres também são machistas. Não vale a pena por uma trave à frente dos olhos e apontar o cisco dos outros. Faço por fim o meu ato de contrição senhor doutor juíz. Só li um acórdão da sua autoria, o de todos mais famoso. Tenho de trabalhar e não tenho tempo para mais literatura misógina. Fiquei sem interesse nos restante por isso, pela injustiça das minha palavras peço perdão, "na paz de Cristo". Ainda assim, lhe recomendo leitura de um livro, de antitético título, "A Mulher Submissa" de Sidónio Muralha, resposta que foi ao livro "O Homem Subjugado" de autora cujo nome esqueci. Bem haja, na paz do senhor. Ridendo castigat mores.

José Raimundo Noras

Imagem: Dorindo de Carvalho, capa do livro de Sidónio Murlha, A Mulher Submissa, Lisboa: Cacto Editora, 1975.
Foto de Cátia (bibliofeira.com: http://www.bibliofeira.com/livro/108721938/a-mulher-submissa/)

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