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Eça de Queirós

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

“Falemos só de flores” escreveu Carlos Loureiro Relvas: para resgatar 99 anos de incompreensão.



Faltam poucos minutos para a meia-noite e assim se esfuma mais um aniversário de Carlos Loureiro Relvas. Faria 99 anos à data de hoje e escrevo este texto carregado de fantasmas.
Fantasma povoadores do imaginário, talvez bem-educados como no sufragado poema de Natália Correia, talvez assustadores como os irmãos de Carlos, Luísa e João Pedro tão perto e tão longe. Há 120 anos a riqueza não os protegeu do tifo. Hoje uma vacina pode salvar as vidas semelhantes se houver mãos e meios que se ponham a esse fim.
Todos os fantasmas estão ali no meio do mare nosturum, os fantasmas estão na Arabia Felix, os fantasmas estão ali no quadros de Malhoa clamando a inocência de todos mortos em flor. A promessa do que nunca podem ser subjaz no que foram. Quase mártires para a eternidade fitado no progresso e na promessa de não deixar morrer quem não se pode defender. No contraponto do quadro do salão do burguês, a fotografia da criança esquálida convoca o texto quase sacral do impoluto pai de Carlos, filho de Carlos, José: “resolver a questão social é o maior desidaratum da política moderna”, escrevia já vai para 110 anos, o lavrador português, com os clássicos todos às costas. Passado tanto tempo, estaremos na mesmas a discutir a questão social? A escondê-la com meias lã? A competir por abundantes recursos, para pequenas e médias companhias do jogo da bola possam ter dinheiro para ir à lua e nunca chegar ao seu semelhante: Saramago dix it.
São estes os teus fantasmas? Serão os fantasmas que te atormentam e assim atormentado viveste os teus 35 anos. Seguro e amargurado lhes pusestes um fim para martírio teu e dos outros. Carlos Loureiro Relvas morreu a 14 de dezembro de 1919, num quarto fechado de uma casa aberta. Morto por criada, morto por homem amante, morto por ciúme, morto por tiro na paixão de não poder ser, morto pelo mais elevado amor que punha a sua vida adiante, morto vingança, morto por crueldade apenas de todos homens e mulheres insanos. Não o sabemos dificilmente o saberemos ao certo, sem inventar outra máquinas do tempo para além volúvel escrita, ou cedermos sem reservas ao espiritismo (como tantos o fizeram ao tempo de Carlos). Assaltam-me o fantasma pela inverdade que plasmei em letra de forma, em livro fotobiografado, retratando o pai José, recontei a história ouvida a leal funcionária da casa que foi dedicada ao filho. As sortes aziagas, tal como a Édipo impeliam a Carlos a morte do pai e perante tal sorte preferira morrer ele. Quem mais teria coragem para um amor tamanho? Mas quantos pais e de bom grado (o seu por certo) deram e dariam a vida para ver os filhos viverem mais tempo. Ao pai, não foi dada escolha na matéria. Abreviar a vida, que até pode ser de Deus, é coragem por certo, mas tem o seu laivo de egoísmo, por todos ficam cá a sofrer, a rememorar, a indagar de outros de planos de existência onde para reencontros plausíveis e não haja só fantasmas em madrugadas funestas. Deixaste a todos tão sós: Eugénia a mãe; José o pai extremoso; a noiva cujo nome se me perde da memoria e ano depois de teres morrido “entregou a alma ao criador”; Francisco o amigo que amava, pudesse contra deuses, contra a tradição.
No fim de contas, se cronista serve só para agoirar e convocar fantasmas, não deveria ter dito, ou melhor escrito o que não sabia e sei agora? Agora, munido de estudos e de provas, grito: nunca te passaria pela cabeça matar o pai. Dou a mão a palmatória e não tivesse impressa aquela página a rasgaria, serve este texto para a corrigir. Muito provavelmente como te confessas amavas mesmo essa noiva, mas não pretendias o amor por obrigação. A paixão viva e ia e vinha no correr das músicas, na alma grande, na sede enorme de beleza, no clamor de justiça. Talvez amasses o amigo homem que te amou, sem sombra de pecado ou de impudor, como nas velhas lendas do Sófocles e tantos outros lidas ao luar, como nos velhos aforismos de Horácio, em o corpo não se dá e a sós se sente, como se fosse mais amor do que vida, mais que angústia a dor irmão e irmã ausente.
Faz 99 anos hoje já. O debate não feneceu, é dos homens a própria vida? Suicida confesso, fosses ou não fosses, sem escamotear, sem esconder tiveste todas a honras de ritos fúnebres na tua católica grei, a mesma grei te forçava ao matrimónio, a mesma grei que te impelia a amar de mais todo próximo. “Aí daquele que ama de mais” avisou-nos a Agustina Bessa-Luís, ainda que não tendo posto em romance tua vida, bem o podia ter feito, num ou noutro parágrafo onde pôs teu austero pai a perseguir os homicidas do crime da Poça das Feticieiras, seis anos depois de teres morrido.
Navegar é preciso? Viver não é preciso? Década inteira consagradas aos teus, gerindo o melhor que soubeste a casa de família, e mesmo assim procuravas aos próximos aumentar salários, melhorar condições laborais. A vida passou por ti continuou e teu pai perante a tragédia não claudicou, manteve férreos princípios e ideias dando teu nome ao legado erigido na tua Alpiarça natal, porque se aí não nasceste foi por mero acaso, pois aí sempre haverias de voltar. Vives como mártir de um fé tão nossa, tão portuguesa, católica e livre no seu todo. Não podias consentir no forçado matrimónio, nem suportar a vergonha de uma rutura. A vida? A vida é vã, sujeita a caprichos e a erros: a memória é eterna. 99 anos incompreensão? Talvez não, porque os teus 35 anos foram bem vividos: rumaste à Alemanha apreender comércio e música; tornaste-te um campeão do bilhar; bateste ao murro pela honra de teu pai (contra Rocha Martins); quase foste preso por defender a justiça da Alemanha ao declarar guerra a um Portugal dúbio, sem honra nem brio nesse tempo. Enfim, soubeste enfrentar a morte cara a cara, olho a olho. Sobeja-nos tanto de memória, soterrado em calúnias e rumores, saibamos a resgatar, para além do quadro garboso, a tocar para sempre a melodia imaginária num piano.
Sempre é difícil admitir que não temos razão e nosso texto no livro em causa, à luz do que sabemos hoje não faz sentido. Contudo, não fomos nós a inventar esse rumor de incompreensão, possa este texto, carregado de fantasmas, servir para quebrar muros, rasgar mitos e, tarefa mais árduas que dividir o átomo, derrubar preconceitos. Hoje é tempo de fantasmas, deixemos falar Carlos Loureiro Relvas em carta inédita a Anselmo Braamcamp Freire:

[p.1] “Excelentíssimo Senhor e muito prezado amigo,
Agradeço muito a Vossa Excelência o bilhete que me escreveu e em que me dá a boa esperança de poder obter com facilidade alguns de esses lindos exemplares de chrysanthemos.
Desculpe-me Vossa Excelência novamente o incomodo que lhe causei, obrigando-o, no meio dos seus affazeres tão graves, a pensar n’esta futilidade. Mas pensei por vezes que ella trouxesse ao seu espírito atribulado por tanto espetáculo triste a alegria de o descançar, por um momento [p. 2] pensamos apenas em flores, esse mimo é mimo da vida.
Pois não [–] é  é na Biblia que se affima – que a bem aventurança da á alma dos santos o perfume das rosas? Agradeço muito a Vossa Excelência as affetuosas expressões a respeito de meus paes que lhe transmiti para Madrid e que elles sem demora muito agradeceram. Confessando-me muito grato por todas as seus gentileza e pedindo-lhe o favor de apresentar a sua Excelentíssima Esposa e minha Senhora os meus respeitosos cumprimentos[,]  peço a Vossa Excelência me creia com a maior consideração e amizade.
            Muito Affetuoso Venerado e Amigo muito
                        Grato / Carlos Relvas

Carta de Carlos Loureiro Relvas a Anselmo Braamcamp Freire, Alpiarça, 30/01/1912 (Arquivo Histórico da Biblioteca Municipal de Santarém, PTAHCMSSTR/BF-C1/539, seguem-se fotos da mesma carta)




Texto e transcrição de José Raimundo Noras

(Santarém, 13-14/Dezembro/2018)