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Eça de Queirós

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A Fonte do Capital (ou da raiz da indiferença)


“[property] (…) its duties make unbearable.
In the interest of the rich we should get rid of it. (…)”
{[A propriedade] (…) os seus deveres tornam-na insuportável.
No interesse dos ricos devemos livrar-nos dela}
Oscar Wilde, The Soul of Man Under Socialism
(A alma do homem sob o socialismo), Penguim Classics, p. 130


Quebra o “muro de Berlim” que está na tua cabeça!”
Máxima estudantil de Coimbra, anos 10, século XXI



    A reflexão desta breve crónica, antecipando ensaio de maior fôlego, regressa à raiz da questão económica. “Profissões de fé” à partida, esclarecemos que a nossa visão, necessariamente utópica, do “melhor dos mundos possíveis” esteve sempre mais próxima do cristianismo, de Saint-Simon ou de Proudhon, que de Marx ou de Engels, fundamentalmente pelo construção conceptual e interpretação sociológica, tanto da história, como da religião que estes últimos fizeram. Tento escrever sem jargões técnicos, muitos vezes usados para baralhar as gentes e semear a hipocrisia.
    Sabemos que no início, com Adam Smith a economia era a “filosofia da moral”. Foi da análise da escolhas humanas perante “necessidades ilimitadas e recursos limitados” que nasceu a moderna ciência económica, pela mão de famoso tratado, do professor escocês, sobre a “riqueza da nações”. Nos dias de hoje, entre nós, já Vítor Bento colocou a tónica na raiz moral da "grande crise de 2008", problema que aflorei no debate com Guilherme de Oliveira Martins, promovido pelo Centro Cultural Regional de Santarém (CCRS). Para além da extrema especulação imobiliária, descortinada primeiro nos EUA (ainda motor do mundo), da alavancagem irrealista no crédito (com base em 5% do total de ativos os “grandes bancos” podiam emprestar até 100%, imaginem isto à escala dos milhares de milhão) ou de todos os problemas do obtuso "negócio de futuros”; de garantias sobre crédito mal-parado (CDS, SWAPS e outros), para não falar de outras formas de especulação, a “bolha” rebentou com uma fraude. Nasceu como fraude e originou uma grande falência: Lehman Brothers. O pânico global em “ondas de choque” fez estados nacionalizarem “bancos perdidos” e aos seus problemas conjunturais acrescentarem mais dívida e uma crise sem precedentes. O verdadeiro liberalismo, à maneira de Bush, seria deixar falir o que tem de falir, fossem “estados” ou “bancos”, na segura certeza que a “mão invisível do mercado" nos orientaria para um mundo melhor. Cada caso é um caso, mas humanamente não me parece uma boa solução. Contudo, os que agora se escudam nas “razões do mercado” e dos credores, não deviam “enganar o próximo” com promessas falsas sobre o dia de amanhã e assumir o porquê do seu “dirigismo económico”.
  Podia até ser verdade o "jargão dos poderes reais" sobre os cidadãos: “viveram acima das possibilidades”, “compraram do que não precisavam”. Gritam: “lobo!" Tal como o Pedro da fábula, sem perceber que se isso fizer sentido no todo, e não apenas casuisticamente, foi a “sociedade de consumo” por inteiro posta em causa e não tão-só o seu elemento especulativo. Por certo, o “Zé Ninguém” de Whilem Reich já percebeu, que, com o seu ordenando médio, e um “crédizito mal-parado” não originou os sucessivos buracos de milhares de milhão, seja na banca, seja no estado, seja em Portugal, seja no Luxemburgo (onde a dívida pública chegou a 400% do PIB), seja nos EUA, detentores do título de estado mais endividado no planeta. (Claro os americanos não são “tolinhos”, pedem emprestado aos chineses, jamais a instituições internacionais de moral duvidosa).
   Passaram-se quase três séculos sobre Adam Smith, sobre David Ricardo, sobre Stuart Mill. Ocorreram duas guerras mundiais brutais. Continuamos a pensar o hoje, com esquemas do passado (mesmo que recente Keynes ou Friedman), bem denunciados por Mark Blyth (ou noutras perspectiva por Varoufakis). O período de crescimento dos “anos dourados” ou o “capitalismo popular” da senhora Thatcher pareceu indiciar a continuidade, no ocidente, sem adversidades, do ideia de progresso. Entretanto o muro desabou na Alemanha, o modelo soviético desapareceu e a China Popular, com “um país dois sistemas”, converteu-se à "sociedade de consumo". Deng Xiaoping nunca considerou o “socialismo leninista” (considero num análise rudimentar Xiaoping, mais próximo de Marx e de Lenine do que do próprio Mao Tse Tung, "mutatis mutandis") incompatível com a “economia de mercado” - já noutra perspectiva o historiador Fernand Braudel considerou a “acumulação capitalista” como antítese da “economia de mercado”. “Enriquecer é glorioso” considerou o líder comunista chinês. Todavia o “estado autocrático”, que ainda nos faz espécie, mau-grado os seus sucessos e económicos, apesar dos direitos sociais reduzidos, vai, aos poucos, "mandado no mundo". O muro caiu em Berlim, mas não nas nossas cabeças. Cada vez menos as noções de “esquerda” e de “direita” fazem sentido para os cidadãos em geral. A todos parece interessar menos a história política da sociedade ocidental. Todas e todos procuramos soluções reais para problemas concretos.
    Com o colapso das grandes ideologias progressistas e a secularização das sociedades ocidentais, o triunfo do “demo-liberalismo” trouxe um mandamento novo: “invejais-vos uns aos outros”. Na nova "religião económica" o único baluarte moral da sociedade de consumo é a capacidade para consumir. Os valores morais no nosso tempo, como são transmitimos pelo poder desenfreado dos midia, baseam-se numa “moral fascista no império da liberdade”. Tendemos a impor aos outros opiniões diversas sobre estilos de vida, como se de verdades absolutas se tratassem, mas o único valor moral realmente respeitado é o poder: o “poder do dinheiro”, ou melhor da "poder da capacidade para consumir". “Detestai-vos uns outros” é consequência lógica desta sistema moral invertido (por comparação a anteriores), e, da avidez nasceu a crise. No fundo a "fonte do capital", sobre as suas múltiplas naturezas, sempre foram as escolhas humanas. As raízes da indiferença germinam no relativismo axiológico. De facto, no dizer do filósofo poderíamos até estar “para além do bem e o do mal”, porém, tanto na economia, na finança, como na vida, convém sempre distinguir o certo do errado.

Imagem:
Giotto di Bondone
A expulsão dos vendilhões (ou dos cambistas)
c. 1304-1306, Capela Scrovegni, Pádua 


© José Raimundo Noras

Santarém, 17, Julho, 2015

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