“[property] (…) its duties make
unbearable.
In the interest of the rich we should get
rid of it. (…)”
{[A propriedade] (…) os seus deveres
tornam-na insuportável.
No interesse dos ricos devemos livrar-nos
dela}
Oscar
Wilde, The Soul of Man Under Socialism
(A
alma do homem sob o socialismo), Penguim Classics, p. 130
“Quebra
o “muro de Berlim” que está na tua cabeça!”
Máxima
estudantil de Coimbra, anos 10, século XXI
A reflexão desta breve crónica,
antecipando ensaio de maior fôlego, regressa à raiz da questão
económica. “Profissões de fé” à partida, esclarecemos que a
nossa visão, necessariamente utópica, do “melhor dos mundos
possíveis” esteve sempre mais próxima do cristianismo, de
Saint-Simon ou de Proudhon, que de Marx ou de Engels,
fundamentalmente pelo construção conceptual e interpretação
sociológica, tanto da história, como da religião que estes últimos
fizeram. Tento escrever sem jargões técnicos, muitos vezes usados
para baralhar as gentes e semear a hipocrisia.
Sabemos que no início,
com Adam Smith a economia era a “filosofia da moral”. Foi da
análise da escolhas humanas perante “necessidades ilimitadas e
recursos limitados” que nasceu a moderna ciência económica, pela
mão de famoso tratado, do professor escocês, sobre a “riqueza da
nações”. Nos dias de hoje, entre nós, já Vítor Bento colocou a
tónica na raiz moral da "grande crise de 2008", problema que aflorei
no debate com Guilherme de Oliveira Martins, promovido pelo Centro
Cultural Regional de Santarém (CCRS). Para além da extrema
especulação imobiliária, descortinada primeiro nos EUA (ainda
motor do mundo), da alavancagem irrealista no crédito (com base em
5% do total de ativos os “grandes bancos” podiam emprestar até
100%, imaginem isto à escala dos milhares de milhão) ou de todos os
problemas do obtuso "negócio de futuros”; de garantias sobre
crédito mal-parado (CDS, SWAPS e outros), para não falar de outras formas de
especulação, a “bolha” rebentou com uma fraude. Nasceu como
fraude e originou uma grande falência: Lehman Brothers. O pânico
global em “ondas de choque” fez estados nacionalizarem “bancos
perdidos” e aos seus problemas conjunturais acrescentarem mais dívida e
uma crise sem precedentes. O verdadeiro liberalismo, à maneira de
Bush, seria deixar falir o que tem de falir, fossem “estados” ou
“bancos”, na segura certeza que a “mão invisível do
mercado" nos orientaria para um mundo melhor. Cada caso é um caso,
mas humanamente não me parece uma boa solução. Contudo, os que
agora se escudam nas “razões do mercado” e dos credores, não
deviam “enganar o próximo” com promessas falsas sobre o dia de
amanhã e assumir o porquê do seu “dirigismo económico”.
Podia até ser verdade o "jargão dos poderes reais" sobre os cidadãos: “viveram acima das
possibilidades”, “compraram do que não precisavam”. Gritam:
“lobo!" Tal como o Pedro da fábula, sem perceber que se isso
fizer sentido no todo, e não apenas casuisticamente, foi a
“sociedade de consumo” por inteiro posta em causa e não tão-só o
seu elemento especulativo. Por certo, o “Zé Ninguém” de Whilem
Reich já percebeu, que, com o seu ordenando médio, e um “crédizito
mal-parado” não originou os sucessivos buracos de milhares de
milhão, seja na banca, seja no estado, seja em Portugal, seja no
Luxemburgo (onde a dívida pública chegou a 400% do PIB), seja
nos EUA, detentores do título de estado mais endividado no planeta.
(Claro os americanos não são “tolinhos”, pedem emprestado aos
chineses, jamais a instituições internacionais de moral duvidosa).
Passaram-se quase três
séculos sobre Adam Smith, sobre David Ricardo, sobre Stuart Mill.
Ocorreram duas guerras mundiais brutais. Continuamos a pensar o hoje, com esquemas do passado (mesmo que recente Keynes ou Friedman), bem denunciados por Mark Blyth (ou noutras perspectiva por Varoufakis). O período de crescimento
dos “anos dourados” ou o “capitalismo popular” da senhora
Thatcher pareceu indiciar a continuidade, no ocidente, sem
adversidades, do ideia de progresso. Entretanto o muro desabou na Alemanha, o
modelo soviético desapareceu e a China Popular, com “um país dois
sistemas”, converteu-se à "sociedade de consumo". Deng Xiaoping
nunca considerou o “socialismo leninista” (considero num análise rudimentar Xiaoping, mais próximo de Marx e de Lenine do que do próprio Mao Tse Tung, "mutatis mutandis") incompatível com a
“economia de mercado” - já noutra perspectiva o historiador
Fernand Braudel considerou a “acumulação capitalista” como
antítese da “economia de mercado”. “Enriquecer é glorioso”
considerou o líder comunista chinês. Todavia o “estado
autocrático”, que ainda nos faz espécie, mau-grado os seus sucessos e
económicos, apesar dos direitos sociais reduzidos, vai, aos poucos, "mandado no mundo". O muro caiu em Berlim, mas
não nas nossas cabeças. Cada vez menos as noções de “esquerda”
e de “direita” fazem sentido para os cidadãos em geral. A todos parece interessar menos a história política da sociedade ocidental. Todas e todos procuramos soluções reais para problemas concretos.
Com o colapso das
grandes ideologias progressistas e a secularização das sociedades
ocidentais, o triunfo do “demo-liberalismo” trouxe um mandamento
novo: “invejais-vos uns aos outros”. Na nova "religião económica" o único baluarte moral da
sociedade de consumo é a capacidade para consumir. Os valores
morais no nosso tempo, como são transmitimos pelo poder desenfreado
dos midia, baseam-se numa “moral fascista no império da
liberdade”. Tendemos a impor aos outros opiniões diversas sobre
estilos de vida, como se de verdades absolutas se tratassem, mas o
único valor moral realmente respeitado é o poder: o “poder do
dinheiro”, ou melhor da "poder da capacidade para consumir". “Detestai-vos uns outros” é consequência lógica
desta sistema moral invertido (por comparação a anteriores), e, da avidez nasceu a crise. No
fundo a "fonte do capital", sobre as suas múltiplas naturezas, sempre
foram as escolhas humanas. As raízes da indiferença germinam no
relativismo axiológico. De facto, no dizer do filósofo poderíamos
até estar “para além do bem e o do mal”, porém, tanto na
economia, na finança, como na vida, convém sempre distinguir o
certo do errado.
Imagem:
Giotto di Bondone,
A expulsão dos vendilhões (ou dos cambistas)
c. 1304-1306, Capela Scrovegni, Pádua
©
José Raimundo Noras
Santarém,
17, Julho, 2015