Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

“Os Espiões e a Segurança”: resposta a aberta ao Sr. Jorge Santos


          Caríssimo Sr. Jorge Santos, os termos de comparação que utiliza não são intelectualmente honestos. Em primeiro lugar, já existiam serviços de espionagem nas democracias e isso não impediu os atentados que refere. Ofender a minha memória histórica ou a minha simpatia pelas vítimas desses acontecimentos não é correto da sua parte. Devemos combater a violência com não-violência, como nos ensinaram os “mestres” Gandhi e Martin Luther King. A democracia vive da tolerância e da transparência e a existência de um serviço de informações como o que temos atualmente — friso que me refiro à “polícia política e económica” que ouve conversas de jornalistas sem qualquer decisão judicial e com agendas próprias — é moralmente reprovável. Para além disso, bem sabemos da infame “guerra suja” contra a ETA, no país vizinho, a organização basca apenas derrotada com a força do povo e a vontade coletiva vontade de paz, evidentemente para lá do empenho das forças de segurança. Também é público que Osama Bin Landen foi uma “criação” militar e intelectual da CIA, bem armado e ideologicamente preparado para combater os “russos vermelhos” no Afeganistão. Sabemos, muito pouco das atuais guerras internas do FSB (ex KGB), mas vimos morrer envenenado um cidadão russo em Londres, certamente com interesses nessa secreta.
            Nos dias de hoje, neste século XXI da informação liberta, querer cercear o conhecimento é censura (muitas vezes com interesses pouco claros, veja-se a campanha difamatória contra o fundador da Wikileaks). É óbvio que os Estados, os governantes têm de estar bem informados, mas para isso não devem poder contar um sistema moralmente caduco de “secretas”, cujos operacionais (com muitas honrosas exceções assim espero) se servem dos seus poderes e do seu estatuto para enganar o cidadão e servir as tais agendas pessoais. 
          Lembra-se do início da guerra civil na Guiné-Bissau? O Estado Português nada sabia do que se passava, ao que parece mal informado. Na imprensa escreveu-se que o responsável dos serviços de informação, na praia de Portimão, tinha escrito um relatório sobre a calma e o tranquilo ambiente político desse país nas vésperas do golpe de estado. Talvez até assim não fosse, visto que “por acaso” uma fragata nacional fazia exercícios militares nessa época bem perto das águas da Guiné-Bissau e o apoio material da RTP aos revoltosos até gerou incidentes diplomáticos.
           Posto isto, um serviço de “inteligência” ou de “informações” deve ser um centro de investigação política e diplomática, o qual até pode fazer sentido no estado de direito (como chegou a ser a CIA no tempo de Jimmy Carter). Um oligopólio dentro do estado, com ordem para espiar, cujos “operacionais” são recrutados “de forma secreta” e cujos dirigentes depois do “serviço público” prestado vão “vender” segredos pelo preço mais alto, na mais vil traição à pátria: não serve a nada, nem serviria à ditadura quanto mais à democracia. Um serviço destes não pode, honestamente, ser comparado a qualquer polícia ou força de segurança, repleta de profissionais honestos. Aliás, se eu fosse polícia ou magistrado estaria sempre de “olho aberto e de pé ligeiro” contra qualquer espião mal-intencionado.
(Esclarecimento final a Interpol não é uma “polícia secreta” é uma força de segurança internacional que atua com autorização dos países que subscrevem as convenções e tratados para esse efeito.)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Republicana resposta à ignorância real: em defesa do 5 de Outubro

     Veio o putativo herdeiro da casa real portuguesa a Santarém congratular-se com o fim do 5 de Outubro, enquanto feriado nacional. Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer o senhor Duarte — aliás, já diz o povo “existem outras Marias na terra” — que, entre as muitas efemérides celebradas a 5 de Outubro, se recorda a do ano de 1143, quando foi firmado em Zamora um célebre tratado que veio trazer “a paz a estes reinos”, assim como a liberdade e a independência a quem lutava por tais ideais.
     Relativamente à “democrática monarquia” a sua decadência económica era tão grande, ao ponto de, em 1891, o estado português ter falir, em virtude da falência dos seus fiadores, no contexto de outra devastadora crise internacional. Na verdade, “quem não sabe é como quem não vê” e, todos nós, somos homens dotados de razão e de limitado conhecimento histórico. Não compreendo bem como alguém se arroga de putativo herdeiro de uma casa real defunta, quando de facto é descendente do "absoluto rei" D. Miguel, linha dinástica para a eternidade afastada de qualquer sucessão.
     A V. Ex.ª fica-lhe mal defender a “democracia dos últimos anos da monarquia”, quando nesse periódo esta se materializou em "suave ditadura", instaurando a censura, para além das prisões políticas constantes. Não vou continuar a perorar neste terreno pantanoso da sua demagogia, comparando épocas históricas distintas com o anacronismo dos hipócritas. Para além de republicano sou um homem livre, assim como um humilde aprendiz da arte de historiar e da probidade desse ofício. E por isso, sei bem não reconher a I República um corolário de virtudes.  Essa I República, essa malograda I República, vítima do conservadorismo atávico dos seus opositores e do oportunismo de alguns dos seus intervenientes deu razão a Fernando Pessoa, observador quase imparcial: (…) o país podia estar preparado para a anarquia; para esta República é que não estava. (em Da República, Ática, 1978).
     Não sou monárquico, como é do conhecimento público, ainda que até aos meus dezoito anos nutrisse alguma simpatia por tais doutrinas. A bem da verdade, informo que cheguei a participar, inclusive, em jantar de conjurados e que vou mantendo velhas amizades com monárquicos de carácter. Porém, hoje em dia, firmada a minha consciência política: o meu republicanismo é inabalável. Trata-se de republicanismo assente numa ética cristã e numa visão universalista do carácter, o qual não se diverte tripudiando, com demagogia fácil, os ideais dos outros, nem nunca pretendeu desvirtuar da memória de um povo. No respeito uns pelos outros, na proteção das minorias está a verdadeira democracia.
     Senhor Duarte, não concordo consigo. No tolero a sua boçalidade disfarçada de sapiência. No entanto, sou um primeiro a defender um referendo sobre a forma da organização política do Estado. Num regime democrático devemos escolher que país queremos e como o queremos governado. Aliás, na República Federativa do Brasil já o fizeram, e o povo escolheu a República. Temos muito a apreender com uma democracia irmã, com os mesmo problemas que a nossa, mas que vai trilhando outras soluções. No Brasil já referendaram a República como forma de organização do estado e já demitiram um presidente incompetente porque mentiu ao povo. Em vez de discussões estéreis e de “revanches históricas aparvalhadas" deveríamos discutir o futuro da nação. 
     Aos monárquicos com coragem deixo um desafio: promovam um referendo sob a de organização do Estado. Ainda que contrária a atual constituição, esta parece uma ideia justa. Contudo, se continuam a pretender “brincar à casa real” bem protegidos pelo protocolo do “pseudo-estado republicano” e pelo deleite nacional no “folclore cor-de-rosa”, abstenham-se de insultar a memória do povo. Abstenham-se de insultar a memória deste honrado povo português que a largas expensas de sangue, de suor e de lágrimas foi protegendo os vossos antepassados e a sacral ideia de liberdade.      

07/02/2012, Santarém
© José Raimundo Noras