Na região central da Califórnia, onde predominam subúrbios derivados de cidades outrora agrícolas, as sonoridades do fado lisboeta têm sido recriadas numa experiência particular.
Nesse Central Valley californiano, as comunidades emigrantes portuguesas e hispânicas prosperaram ligadas ao sector primário. As cidades desta região foram-se transformando em zonas semi-suburbanas da chamada Bay Area de São Francisco, nas décadas de 80 e 90 do século passado. A cultura musical e a socialização dos adolescentes, “emigrantes” de segunda ou terceira geração, progressivamente, reflectiram a nostalgia, nuns casos inerente a um sentimento de portugalidade, noutros casos associada à depressão própria da vida suburbana.
Uma vaga de suicídios entre jovens adultos grassou no Central Valley no final dos anos 90, marcando génese de “Judith and Holofernes”. O suicido de vários jovens músicos leva os sobreviventes a criar um grupo musical que celebra a própria culpa da existência, tão associada ao Fado, e tenta superar o absurdo dos dias “abraçando a tristeza”. Portugal permanecia como a raiz no imaginário colectivo desse grupo. Uma viagem em peregrinação a Lisboa antecedeu a criação da banda, na sequência de outras experiências musicais.
Os primeiros álbuns EP “Dairy Men & Festa Queens” e “Matança” já procuravam um encontro com Fado, sobretudo com uma imagem mistificada do fado lisboeta, através da exploração máxima das tragédias humanas. Os conteúdos narrativos das letras vão-se aproximando, por vezes, das tradicionais histórias do “nosso fado”, e, sobretudo, equacionam as mensagens do suicídio, assim como as responsabilidades do que sobrevivem. Originalmente, o grupo foi constituído por Chris “Dos” DaRosa, na guitarra portuguesa e na voz; Tracy Hobbs, na voz feminina; Mark Hobbs, no baixo e na voz; e Mitch Hobbs, na guitarra. Mais recentemente, juntou-se-lhes Anthony Zottarelli.
“Abraça a Tristeza”, terceiro álbum (primeiro disco de longa duração) de originais do grupo, aprofunda essa relação com a toda imagem quase subversiva do fado lisboeta. Maybe liquor, maybe blood”, explora os clássicos temas de amor, de ciúme ou de vingança, evocando facilmente os rufias da ribeira, as cantadeiras de Alfama. Nesse tema, também a música se aproxima melhor dos ritmos próprios do fado lisboeta. No entanto, a letras deste álbum vão para além desta proximidade narrativa. A originalidade deste “fado core” será, sobretudo, o equacionar do sentido de aqui estarmos, num problematizar melancólico da nossa razão de ser. Em suma, a existência será o fado, destino necessariamente trágico, mas há que abraçá-lo sem reservas.
Em termos musicais a guitarra portuguesa de “Dos” DaRosa não terá, por ora, a mestria dos clássicos mas, de qualquer modo, nota-se uma evolução clara dos primeiros trabalho para este último álbum. A conjugação de sonoridades típicas do rock (demonstrando alguma proximidade às baladas ou até ao punk rock) com os acordes da guitarra portuguesa redundam neste auto-proclamado “fado core” que, certamente, chocará os puristas. Contudo, temos para nós que “tudo isto é fado”. Não o será numa concepção estritamente musical e ortodoxa, nem o será se não compreendermos todo o contexto que rodeia os “Judith and Holofernes”. Na verdade, o próprio nome da banda, bebido na mítica tragédia bíblica de amor, vinho e traição vivida entre Judite e o rei Holofernes, revela o conhecimento de causa da génese ancestral do fado destes artistas americanos.
“Abraça a tristeza”, editado em 2006, é uma expressão viva de um arte aberta, “pós new age”, resultante uma confabulação de influências estéticas que atravessa séculos, culturas e gerações (para além evidentemente de limites geográficos. Certamente, Judith and the Holofernes não tem ainda todo o fulgor da genialidade. Existe, no entanto um largo espaço para uma evolução artística e conceptual deste “fado-core”. A sua caracterização, como rock puro simples, será evidentemente redutora, tal como possivelmente exagerada, de um ponto de vista musical, será a assumpção imediata da criação de uma nova corrente do fado. De qualquer modo, para aí caminhamos e seria interessante que esta miscelânea de sons e de nostalgia se cruzasse com outras “estranhas formas de vida” do fado, que não tão só a sua versão lisboeta.
Por enquanto, este fado quase violento, tatuado nos nós dos dedos ainda, nos convida a “Abraçar a tristeza”, disco que vale a pena, por nos abençoar com a imaginação.
© Judith and Holofernes
Informações sobre a banda recolhidas em:
Vanguard Squad - Editora
http://www.vanguardsquad.com/comrades/judith.php
Judith and Holofernes facebook fan page
http://www.facebook.com/pages/Judith-and-Holofernes/128292655130?v=info
Discos disponíveis no site da editora Vanguard Squad

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