Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Judith and Holofernes, tudo isto é Fado?


Na região central da Califórnia, onde predominam subúrbios derivados de cidades outrora agrícolas, as sonoridades do fado lisboeta têm sido recriadas numa experiência particular.

Nesse Central Valley californiano, as comunidades emigrantes portuguesas e hispânicas prosperaram ligadas ao sector primário. As cidades desta região foram-se transformando em zonas semi-suburbanas da chamada Bay Area de São Francisco, nas décadas de 80 e 90 do século passado. A cultura musical e a socialização dos adolescentes, “emigrantes” de segunda ou terceira geração, progressivamente, reflectiram a nostalgia, nuns casos inerente a um sentimento de portugalidade, noutros casos associada à depressão própria da vida suburbana.

Uma vaga de suicídios entre jovens adultos grassou no Central Valley no final dos anos 90, marcando génese de “Judith and Holofernes”. O suicido de vários jovens músicos leva os sobreviventes a criar um grupo musical que celebra a própria culpa da existência, tão associada ao Fado, e tenta superar o absurdo dos dias “abraçando a tristeza”. Portugal permanecia como a raiz no imaginário colectivo desse grupo. Uma viagem em peregrinação a Lisboa antecedeu a criação da banda, na sequência de outras experiências musicais.

Os primeiros álbuns EP “Dairy Men & Festa Queens” eMatança” já procuravam um encontro com Fado, sobretudo com uma imagem mistificada do fado lisboeta, através da exploração máxima das tragédias humanas. Os conteúdos narrativos das letras vão-se aproximando, por vezes, das tradicionais histórias do “nosso fado”, e, sobretudo, equacionam as mensagens do suicídio, assim como as responsabilidades do que sobrevivem. Originalmente, o grupo foi constituído por  Chris “Dos” DaRosa, na guitarra portuguesa e na voz; Tracy Hobbs, na voz feminina; Mark Hobbs, no baixo e na voz; e Mitch Hobbs, na guitarra. Mais recentemente, juntou-se-lhes Anthony Zottarelli.

“Abraça a Tristeza”, terceiro álbum (primeiro disco de longa duração) de originais do grupo, aprofunda essa relação com a toda imagem quase subversiva do fado lisboeta. Maybe liquor, maybe blood”, explora os clássicos temas de amor, de ciúme ou de vingança, evocando facilmente os rufias da ribeira, as cantadeiras de Alfama. Nesse tema, também a música se aproxima melhor dos ritmos próprios do fado lisboeta. No entanto, a letras deste álbum vão para além desta proximidade narrativa. A originalidade deste “fado core” será, sobretudo, o equacionar do sentido de aqui estarmos, num problematizar melancólico da nossa razão de ser. Em suma, a existência será o fado, destino necessariamente trágico, mas há que abraçá-lo sem reservas.

 Em termos musicais a guitarra portuguesa de “Dos” DaRosa não terá, por ora, a mestria dos clássicos mas, de qualquer modo, nota-se uma evolução clara dos primeiros trabalho para este último álbum. A conjugação de sonoridades típicas do rock (demonstrando alguma proximidade às baladas ou até ao punk rock) com os acordes da guitarra portuguesa redundam neste auto-proclamado “fado core” que, certamente, chocará os puristas. Contudo, temos para nós que “tudo isto é fado”. Não o será numa concepção estritamente musical e ortodoxa, nem o será se não compreendermos todo o contexto que rodeia os “Judith and Holofernes”. Na verdade, o próprio nome da banda, bebido na mítica tragédia bíblica de amor, vinho e traição vivida entre Judite e o rei Holofernes, revela o conhecimento de causa da génese ancestral do fado destes artistas americanos.

“Abraça a tristeza”, editado em 2006, é uma expressão viva de um arte aberta, “pós new age”, resultante uma confabulação de influências estéticas que atravessa séculos, culturas e gerações (para além evidentemente de limites geográficos. Certamente, Judith and the Holofernes não tem ainda todo o fulgor da genialidade. Existe, no entanto  um largo espaço para uma evolução artística e conceptual deste “fado-core”. A sua caracterização, como rock puro simples, será evidentemente redutora, tal como possivelmente exagerada, de um ponto de vista musical, será a assumpção imediata da criação de uma nova corrente do fado. De qualquer modo, para aí caminhamos e seria interessante que esta miscelânea de sons e de nostalgia se cruzasse com outras “estranhas formas de vida” do fado, que não tão só a sua versão lisboeta.

Por enquanto, este fado quase violento, tatuado nos nós dos dedos ainda, nos convida a “Abraçar a tristeza”, disco que vale a pena, por nos abençoar com a imaginação.  
               
 

© Judith and Holofernes

Informações sobre a banda recolhidas em:

Vanguard Squad - Editora 
http://www.vanguardsquad.com/comrades/judith.php

Judith and Holofernes facebook fan page
http://www.facebook.com/pages/Judith-and-Holofernes/128292655130?v=info

Discos disponíveis no site da editora Vanguard Squad


 

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

the age demanded

The Age Demanded
by Ernest M. Hemingway


The age demanded that we sing
And cut away our tongue.

The age demanded that we flow
And hammered in the bung.

The age demanded that we dance
And jammed us into iron pants.

And in the end the age was handed
The sort of shit that it demanded.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Do nojo ao vómito... uma rua para o Marchal António Spínola


António de Spínola

Uma rua para um marechal amigo e apoiante e braço político de bombistas (lembram-se do MDLP/ELP?.
Uma rua para um marechal admirador confesso do exército nazi (até o visitou às portas de Estalinegrado).
Uma rua para um marechal do 28 de Setembro e do 25 de Março.
Uma rua para um marechal que nunca compreendeu o nacionalismo africano.
Uma rua para um marechal que durante anos foi apoiante e sustentáculo militar do Estado Novo.

A classe política portuguesa gosta muito de arrotar homenagens e, com o seu dedo sujo, influenciar uma futura escrita da História. Os historiadores probos não irão nas vossas cantigas.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Em memória do professor Luís

O Luís era uma daquelas pessoas já raras, porque digna, guiado por princípios e valores, exigente consigo próprio, tímido e muito metido com ele (era difícil arrancar-lhe um sorriso). Aos 51 anos, "solteirão", ainda contratado - o professorado é a única profissão em Portugal onde isto ainda acontece! - veio até nós, no decurso da luta pela Profissionalização, contexto onde convivi com ele directamente durante cerca de três anos. 


Portador de Habilitação Própria, foi eleito em Lisboa, em Plenário para a Comissão de Contratados, em 2004. Participou activamente em todos os protestos e acções reivindicativas da nossa Frente de Trabalho do SPGL, que levaram à conquista do Despacho nº 6365/2205 (profissionalização em serviço em ESE's e Faculdades). 

Era conhecido entre nós pelo "freelancer" (alusão à sua segunda ocupação de jornalista eventual). Dotado de forte sensibilidade em relação ao mundo da informação e da comunicação social, propôs e pedia frequentemente, nas nossas reuniões, que os sindicatos encarassem esta frente (relações públicas) com outros olhos, mais eficazmente. A partir de 2006, não se recandidatou mais à nossa comissão de contratados. 

Encontrei-o mais tarde nas mega-manifestações de professores: estava na Escola EB 2,3 Ruy Belo, e achei-o disposto a não entregar os Objectivos Individuais, um verdadeiro problema de consciência moral, para ele. 

Depois disso, mais uma ou duas vezes, espaçadamente. Soube que tinha sido colocado na EB2,3 de Fitares, mas pouco mais. 

No passado dia 11 de Fevereiro, revi-o pela última vez, em Oeiras, já deitado no caixão na capela mortuária. Conversei longamente com a mãe, a irmã, a empregada doméstica. Vêm-me à memória as palavras do pai, militar aposentado: "o Luís era bom moço, quis ser bom até ao fim, só que não aguentou o inferno das escolas de hoje... Vocês têm que fazer qualquer coisa!" 

O Luís nos, últimos tempos, já tinha tomado friamente a decisão, inabalável. Por isso, não creio que nesse período, tenha pedido ajuda a ninguém. Segundo me disseram familiares, no velório, pela consulta do histórico do seu PC, ele, um mês antes e se lançar da ponte, consultava sites sobre suicídio, na internet. Escolheu o dia da sua morte coincidindo com a data de aniversário do pai, com o qual, aliás, se dava bem. 

O ambiente no velório foi impressionante, pela dignidade, revolta interior e tristeza da cerimónia, com alguns professores presentes, num silêncio de cortar à faca, só rasgado por frases em surdina, de justo ódio, visando os políticos responsáveis pela situação a que nos últimos anos chegou o Ensino Público. Foi, sem dúvida, dos velórios mais tocantes em que estive até hoje, mesmo estando já habituado a duras perdas, e tendo estado na semana anterior, noutro, de um familiar directo. Quando escrevi no livro de condolências o que me ia no espírito, tive dificuldade em o fazer, a cortina de lágrimas teimava em desfocar-me as letras. 

Pessoalmente, decidi manter silêncio durante um mês, por respeito ao pesado luto da família, só o quebrando depois da irmã dele (nossa colega, também) o ter feito, decorridos cerca de trinta dias, com a divulgação da notícia à comunicação social, para assim tentar evitar que outros casos se repitam, colocar toda a verdadeira dimensão das depressões e suicídios profissionais à luz do dia, rasgar o manto hipócrita dos silêncios assassinos e abalar as consciências de toda a sociedade. 


Paulo Ambrósio - membro da Comissão de Professores Contratados e da Frente de Professores e Educadores Desempregados do SPGL desde 1999.
Fonte:Promova  

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"Soneto Imperfeito da Perfeita Caminhada" por Sidónio Muralha

Já não há mordaças,nem ameaças,nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos...Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças,nem ameaças,nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.


por Sidónio Muralha, 
em "Passagem de Nível", col. "Novo Cancioneiro", 1942

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Oda al Aire

Andando en un camino
encontre al aire,
lo salude y le dije
con respeto
"Me alegro
de que por una vez
dejes tu transparencia
asi hablaremos "
El incansable,
bailo, movio las hojas,
sacudio con su risa
el polvo de mis suelas,
y levanto toda
su azul arboladura,
su esqueleto de vidrio,
sus parpados de brisa
inmovil como un mastil
se mantuvo escuchandome
yo le bese su capa
de rey del cielo
me envolvi en su bandera
de seda celestial
y le dije:
monarca o camarada,
hilo, corola o ave,
no se quien eres, pero
una cosa te pido
no te vendas.
El agua se vendio
y de las cañerias
en el desierto
he visto terminarse
las gotas
y el mundo pobre, el pueblo
caminar con sed
tambaleando en la arena.
Vi la luz de la noche
racionada,
la gran luz en la casa
de los ricos.
Todo es aurora en los
nuevos jardines suspendidos
todo es escuridad
en la terrible
sombra del callejon.
De alli la noche,
madre madrastra,
sale
con un puñal en medio
de sus ojos de buho,
y un grito, un crimen,
se levanta y apagan
tragados por la sombra.

No, aire,
no te vendas,
que no te canalicen,
que no te entuben,
que no te encajen
ni te compriman
que no te hagan tabletas,
que no te metan en una botella,
cuidado!
llamame
cuando me necesites,
yo soy el poeta hijo
de pobres, padre, tio,
primo, hermano carnal
y concuñado
de los pobres, de todos,
de mi patria y las otras,
de los pobres que viven junto al rio,
de la vertical cordillera
pican piedra,
clavan tablas,
cosen ropa,
cortan leña,
muelen tierra,
y por eso
yo quiero que respiren,
tu eres lo unico que tienen
por eso eres
transparente,
para que vean
lo que vendra mañana,
por eso existes,
aire,
dejate respirar,
no te encadenes,
no te fies de nadie
que venga en automovil
a examinarte,
dejalos,
riete de ellos,
vuelales el sombrero,
no aceptes sus proposiciones,
vamos juntos
bailando por el mundo,
derribando las flores
del manzano,
entrando en las ventanas,
silbando juntos,
silbando,
melodias
de ayer y de mañana,
ya vendra un dia
en que libertaremos
la luz y el agua
la tierra, el hombre,
y todo para todos
sera, como tu eres.
Por eso, ahora,
cuidado!
y ven conmigo,
nos queda mucho
que bailar y cantar,
vamos
a lo largo del mar,
a lo alto de los montes,
vamos
donde este floreciendo
la nueva primavera
y en un golpe de viento
y canto
repartamos las flores,
el aroma, los frutos
el aire
de mañana.

Pablo Neruda, Odas Elementales

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sobre uma brigada

Cá estou eu de novo a falar sobre Coimbra. Não, não é para criticar a sua universidade.Paz à sua alma que jaz perdida por entre as vielas e medinas próximas do rio Mondego. Este post é dedicado ao que de melhor se faz nesta cidade em termos musicais. Não, não vou falar sobre o fado de Coimbra, que, actualmente, é o mesmo desde que existiu, tirando as inovações introduzidas por Menano, Betencout, José Afonso e Luis Goes. Os actuais cantores e compositores não conseguem sair do quadrado musical formado por estes e repetem até à exaustão fórmulas já antes vistas e cantadas, sem um cheiro de inovação ou de arrojo interpretativo. Muitos dizem que é impossível romper com as matrizes fixadas na pedra da canção de Coimbra. Muitos disseram o mesmo em relação ao fado de Lisboa e vê-se como nos últimos temos este evoluiu consideravelmente, com novos intérpretes e novas melodias bem afadistadas.
Venho aqui falar de um grupo nascido em Coimbra que tudo fez para preservar a essência da música tradicional portuguesa - a Brigada Victor Jara. Nascidos com o intuito de louvar o tão conhecido cantor chileno assassinado pelas falanges de Pinochet, depressa tomaram conta do panorama musical português ao incutir simplicidade e veracidade à música popular portuguesa. Esta sim a verdadeira música nacional que se canta um pouco por todo o território continental e ilhas e não o fado (seja ele de que lugar for) que durante anos tentaram colar tal rótulo, esquecendo as chulas, os charambas e canas verdes, os corridinhos e o tão genuíno canto chão.
Não sei o que se passou na década de 80 do século passado, pois nessa época toda a música tradicional era mal vista, deixada de lado e envergonhava o país e a quem a ouvia.
Meus senhores, uma coisa é certa. Retirem da vossa órbita os rachos folclóricos feitos a régua e esquadro por pseudo-ideólogos do Estado Novo, e vejam como flui a verdadeira música tradicional, muita dela recolhida por Lopes Graça e Michel Giacometti nos anos de 50 e 60. Oiçam a Brigada Victor Jara, que recriam o melhor da nossa música que se encontra nos poros de qualquer português, parte integrante do nosso sentido de pertença.


Marião, Brigada Victor Jara


Durma, Brigada Victor Jara


Charamba, Brigada Victor Jara

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Burocracias

(To JS/07 M 378 This Marble Monument Is Erected by the State)

He was found by the Bureau of Statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint,
For in everything he did he served the Greater Community.

Except for the War till the day he retiredHe worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors Inc.
Yet he wasn't a scab or odd in his views,
For his Union reports that he paid his dues,
(Our report on his Union shows it was sound)
And our Social Psychology workers found
That he was popular with his mates and liked a drink.

The Press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his Health-card shows he was once in hospital but left it cured.
Both Producers Research and High-Grade Living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment Plan
And had everything necessary to the Modern Man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public Opinion are content
That he held the proper opinions for the time of year;
When there was peace, he was for peace: when there was war, he went.

He was married and added five children to the population,
Which our Eugenist says was the right number for a parent of his generation.
And our teachers report that he never interfered with their education.Was he free? Was he happy?

The question is absurd:Had anything been wrong, we should certainly have heard.

Auden The Unknown Citizen

sábado, 2 de janeiro de 2010

Uma Carta em defesa da civilização: "Carta de José Saramago a Aminetu Haidar"


Carta de José Saramago a Aminetu Haidar


Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo. Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário.

Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua aterra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possa alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.

Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá.

Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem gloria, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,

Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.

Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.

Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo... terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar.

© José Saramago