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Eça de Queirós

sexta-feira, 17 de abril de 2009

17 de Abril e agora?

Fez hoje 40 anos que os estudantes portugueses enfrentaram a ditadura. Pedindo a palavra numa cerimónia pública, Alberto Martins (então presidente da AAC), e através deste a Academia, questionavam o modelo de universidade do Estado Novo, bem como o próprio regime. A quebra de protocolo, que a 17 de Abril de 1969 precipitou o desencadear da maior crise académica das últimas décadas, foi sintomática do poder que os estudantes possuem no sentido da mudança social.
Após quatro décadas, não nos parece que, tanto a Academia, como a própria Universidade mantenham a capacidade de intervenção social de outrora. Na realidade, se assistimos recentemente à perda de autonomia da parte das Instituições de Ensino Superior, ao mesmo tempo aposta política no desenvolvimento de uma rede nacional de Universidades e Politécnicos não tem sido equilibrada. Para além da inexistência qualquer planeamento geográfico de médio ou longo prazo — aquando do surto de abertura de novas Universidades no após 25 de Abril — as necessidades de financiamento do sistema continuam assentes em falsos pressupostos. De facto, o financiamento da educação continua, numa lógica contrária aos princípios do nosso Estado Social, a onerar as famílias, no contexto da formação académica dos indivíduos, atrasando a emancipação completa dos jovens, quase sempre para depois dos 30 anos de idade. Hoje, em Portugal, o desafio da Universidade passa pela clara acepção que nosso modelo de financiamento e de gestão das instituições deve mudar. O futuro passa por um financiamento directo aos estudantes, correlacionado com o seu sucesso escolar — à semelhança dos modelos do norte da Europa. Por outro lado, perante um sem número de ameaças externas, a Universidade deverá sempre protestar sua autonomia institucional e política, sob pena de se transformar noutra coisa qualquer que já não Universidade. Aliás como sustentava Joaquim de Carvalho: Converter as Universidade em organismos políticos, no correntio e jornalístico sentido da palavra, sôbre ser uma monstruosidade pedagógica, é um crime nacional e um atentado à razão. Sob essa aparência de convergência de opiniões esconder-se-há o cancro que corroerá a cultura (…).
Por fim, lembrar esse outro 17 de Abril será sempre também um repto a nós próprios, como estudantes e como cidadãos. Os algozes deste tempo não tem o rosto da ditadura, escondem-se sob lógicas economicistas do passado, que impem a construção de uma sociedade mais justa e solidária, mais livre. Sendo que o nosso principal adversário, será sem dúvida a indiferença e comodismo de toda uma geração, a qual ainda não tomou consciência de que o futuro lhe pertence, afastando-se da intervenção pública e da acção política. A nossa palavra, como no passado, pode fazer a diferença, a nossa acção sem dúvida será essencial nos desafios que enfrentamos, como sociedade. Aos meus colegas de geração, por assim dizer, fica o aviso, que há dias ouvi de um amigo ou a gente toma conta da política, ou mais cedo ou mais tarde a política toma conta de nós.
© José Raimundo Noras

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