Na realidade, recentemente, muito se tem opinado sobre o Teatro Rosa-Damasceno e qual o seu futuro. No meu entender e perante a actual situação, defender este conjunto edificado da fúria do camartelo é tão urgente como defender a civilização contra a barbárie.
Salvemos o Rosa! Santarém não o pode deixar cair.
Aqui fica na íntegra um texto da minha autoria, publicado parcialmente pelo jornal "O Ribatejo", a 4 de Agosto de 2006.
Salvemos o Rosa! Santarém não o pode deixar cair.
Aqui fica na íntegra um texto da minha autoria, publicado parcialmente pelo jornal "O Ribatejo", a 4 de Agosto de 2006.
Rosas de Santarém
“Stat rosa pristina nomine”
Bernardo de Morlay,
(monge calabrês do séc. XII)
Bernardo de Morlay,
(monge calabrês do séc. XII)
A tradição folclórica associa Santarém a uma cidade malmequeres – malmequeres que, como a própria cançoneta afirma, muito se enganam e muito variam. Ora, se ao projectar o futuro das relações humanas um simples malmequer, nem sempre acerta, o que dizer do complexo homo sapiens sapiens, ao projectar o futuro das cidades? Os seres humanos são das mais imbricadas formas de vida existentes na Terra. O seu cérebro trabalha com milhares de milhões de neurónios, que por sua vez, se ligam em biliões de sinapses, as quais nem sempre lhes facilitam o raciocínio lógico e, não raras vezes, prejudicam-no. Desta forma, o berço da inteligência é, por vezes, o berço da estupidez.
Por outro lado, enquanto que o berço das rosas costuma ser o roseiral ou a terra adubada do jardim, no caso da mais imponente “rosa” de Santarém foi gosto estético e o amor à arte que a plantaram e fizeram desflorar. Refiro-me, obviamente, ao Teatro Rosa Damasceno.
A “nossa rosa” da arquitectura nacional já é centenária enquanto espaço teatral. A primeira pedra da antiga sala de espectáculos foi colocada em 1877. Tratava-se de um projecto da traça de José Luís Monteiro, muito semelhante às linhas e formas do teatro do Ginásio Clube de Lisboa, uma obra do mesmo arquitecto. Como nos esclarece Virgílio Arruda, só em 1894, o chamado “teatro de Santarém”, recebeu o “nome de baptismo” que hoje conhece. Rosa Damasceno, Augusto Rosa e o santareno Eduardo Brazão, grandes nomes do teatro nacional que, nessa época, levaram à cena a peça o Amigo Fritz, de Exckman Chatrian. “Nessa memorável noite d’Arte”, o público em ovação decidia dar nome da “rosa” actriz ao teatro da sua terra.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e, mutantis mutandis, altera-se a nossa própria definição de Arte. As necessidades técnicas de uma sala maior, adaptada às novas realidades do cinema, levaram a direcção do Clube de Santarém a optar, em 1937, pela transformação o Teatro Rosa Damasceno. Esta medida, visava, para além dos objectivos atrás enunciados, adequar o cine-teatro à “estética do nosso tempo”. O novo projecto saiu do traço firme de Amílcar Pinto, arquitecto amigo de Santarém que, se hoje é um ilustre desconhecido, muito o será por culpa da nossa memória. Construído em tempo útil, sem grandes inconvenientes para o público, surgirá, em 1939, nas páginas da revista Arquitectura Portuguesa como “um trabalho classificável de perfeito, quer sob o ponto de vista estético, quer sob o ponto de vista ótico-acústico”. Muito mais tarde, na década de 80, o nosso “teatro rosa” mereceu atenção do arquitecto e historiador José Manuel Fernandes classificando-o, estilisticamente, como exemplo de um modernismo radical com “forte marcação das artes decorativas”.
Quanto a nós, à maneira de Marc Bloch, aprendizes dos ofícios da história e da arte, gostamos de considerar o teatro Rosa Damasceno como um espaço sacral da nossa memória urbana. Os “cine-teatros” dos inícios do século XX são locais genesíacos desta nossa civilização da imagem. O nosso “teatro rosa” foi durante largas décadas um ponto de encontro, onde confluíam as gerações escalabitanas. Constituindo para alguns de nós, um local guardado, quase em segredo, nas lembranças. Recordemo-nos da primeira ida ao cinema, do primeiro namoro no escuro da sala ou da matinée, em família, ao sábado, (ou ao domingo)!
Os cinemas, como espaços arquitectónicos e urbanos, não são só um conjunto edificado, afirmam-se na sua monumentalidade afectiva, como pedras, linhas e formas que falam com a nossa imaginação.
Contudo, nem só de rosas se fez a primavera e há longo tempo os espinhos levam a melhor sobre o nosso teatro. Vejam bem que eu próprio, estudioso da matéria, não tive permissão para visitar o local, tal é o estado de degradação do edifício que lá dentro já crescem malmequeres. Ora, não deixar um aluno de mestrado em história da arte visitar um tal “pardieiro”, mesmo que por sua conta e risco, é um serviço cívico…, Eu poderia sempre escorregar não num malmequer, mas noutra qualquer erva daninha! Ridendo castigat mores!
Coimbra, 17 de Junho de 2006
José Raimundo Noras
José Raimundo Noras
Veja-se também no blogue "Simplesmente eu":
http://jorgeduroes.blogspot.com/2007/09/petio.html
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