"Todo o partido existe para servir o povo e não a si mesmo".
"Não te satisfaças com o um programa de um partido político:
inventa melhor"
Konrad Adenauer
"Não te satisfaças com o um programa de um partido político:
inventa melhor"
Agostinho da Silva
Bem sabemos, e tenho dito, que a crise que vivemos é moral, nos seus fundamentos. Aliás, da nossa imoralidade quotidiana redunda a falácia da representação parlamentar e, nos dias de hoje, a quase total falência da democracia.
Se procuro falar de problemas reais e concretos, os meus concidadãos respondem-me, interagem comigo, ou, por vezes, até se mobilizam para encontrar soluções. Quanto, contudo, a solução passa para pelo "agir no partido"(seja ele qual for), "organizar uma lista" ou "concorrer à junta", toma conta das mentes e dos corações um desdém insano pela acção política, como se esta fosse a raíz de todos os males.
Não, não considero que "tenhamos os políticos que merecemos", frase vazia de significado intelectual. Aliás, muito pragmaticamente, tal como Aristóteles, tenho uma perspectiva holística da política e até considero que quem não a tem, no fundo, apenas quer reservar para si o que considera ser "conhecimento político", para melhor agir na "sombra dos poderes". Por isso, nem a "política" nem os "partidos", bem entendidos os termos, são "antros de gandulagem", como todos os dias nos querem fazer crer, nem os cidadãos são "virgens, puras e castas" imaculadas numa inocência ancestral que nos exonera de responsabilidades sobre a "situação actual". Todos somos humanos (e lá diria o filósofo todos somos políticos), todos temos falhas e todos cometemos erros, todos temos de conviver e de sobreviver com as nossas escolhas.
Eu creio que nossa crise é moral e resulta fundamentalmente da incompreensão do que é deve ser na verdade a democracia. A democracia não é a "ditadura da maioria". A democracia não é "a necessidade de estabilidade". A democracia não é a "maioria absoluta". A democracia não é "partidocracia", nem depende da existência de partidos políticos. A democracia é o confronto de ideias e comunhão de interesses. A democracia tem de ser o constante colocar em causa das razões do poder. A democracia é a decisão baseada no diálogo e na aproximação de posições e não na derrota de uma em prol da vitória de outra. Aliás, não podemos encontrar na história humana - à excepção de curtos períodos de revoltas populares na Idade Média, de formas desconexas de poder no após Revolução Francesa, ou da célebre "República Guarani" de inspiração jesuíta - verdadeiras democracias. Todos os regimes que se arrogam ou arrogaram de democráticos instituíram sempre entraves ao exercício do poder por parte dos cidadãos.
Eu creio que nossa crise é moral e resulta fundamentalmente da incompreensão do que é deve ser na verdade a democracia. A democracia não é a "ditadura da maioria". A democracia não é "a necessidade de estabilidade". A democracia não é a "maioria absoluta". A democracia não é "partidocracia", nem depende da existência de partidos políticos. A democracia é o confronto de ideias e comunhão de interesses. A democracia tem de ser o constante colocar em causa das razões do poder. A democracia é a decisão baseada no diálogo e na aproximação de posições e não na derrota de uma em prol da vitória de outra. Aliás, não podemos encontrar na história humana - à excepção de curtos períodos de revoltas populares na Idade Média, de formas desconexas de poder no após Revolução Francesa, ou da célebre "República Guarani" de inspiração jesuíta - verdadeiras democracias. Todos os regimes que se arrogam ou arrogaram de democráticos instituíram sempre entraves ao exercício do poder por parte dos cidadãos.
Nesse sentido, a ideia original de partido - nascida "à esquerda" nas revoluções dos séculos XVIII XIX, sendo que à "direita" talvez tenha tido origem primordial com os "federalistas norte-americanos" - radicalmente, pretendia "aproximar o poder do cidadão", colmatando, de certo modo, esses entraves ou limitações do "estado democrático". Todavia, mesmo deste ponto de vista, o partido seria sempre um "instrumento de domínio do Estado sobre o cidadão" (já o avisava Bakunine) e mesmo que o partido (como na teoria marxista clássica) "almejasse a revolução", ou a "reforma da sociedade", a veiculação desses ideais acabou por ter, quase sempre, formulações paternalistas sobre os indivíduos e sobre o seu papel autónomo na mudança social.
Para serve um partido? Deveria servir, por exemplo, para em conjunto debater o futuro, os ditos problemas reais, as possíveis soluções, para chegar (ou não) a conclusões, para escrever tratados, para construir princípios, para definir regras de actuação. Um partido não serve para governar, nem deve governar por si mesmo. Quem deve governar são as pessoas escolhidas pelas pessoas. Um partido não deve ter "obediência partidária", isso é um "contra-senso" com a própria ideia de democracia. A pura e simples expressão "disciplina de voto" faria muito mais sentido em qualquer manual de autocracia dos anos 30 ou 40 do século XX, do que nas nossas sociedades ditas livres e "todas essas coisas mais". (Atenção, isto não tem nada a ver com a defesa boçal da "tecnocracia" tão em voga nos "meios iletrados" do comentário político, trata-se apenas da constatação de um facto, há "boca pequena" bem conhecido do povo de que: "as pessoas votam em pessoas e não em partidos", mesmo que assim não devesse ser.)
Um partido deve servir o povo, sem trair o ideal que defende. O partido, qualquer partido, deve ser o "fórum de discussão", a "Àgora da liberdade". Contudo, é certo, é bem visível que não assim têm sido, na nossa democracia parlamentar e muito pouca participativa. Porquê?
Um partido deve servir o povo, sem trair o ideal que defende. O partido, qualquer partido, deve ser o "fórum de discussão", a "Àgora da liberdade". Contudo, é certo, é bem visível que não assim têm sido, na nossa democracia parlamentar e muito pouca participativa. Porquê?
Em primeiro lugar fazem falta braços nesta seara e escasseiam vozes neste comício. Para qualquer cidadão é sempre mais conveniente ser "velho do Restelo" e criticar na praia, do que ajudar a construir a caravela, que é como quem gizar soluções concretas e práticas para problemas reais. Em segundo lugar (e qualquer discurso em contrário é mistificação), tal como os Estados, os partidos também põem entraves à adesão de cidadãos livres no seu seio. Para além das já faladas questões de "disciplina", de "obediência", existem em todos os partidos regras burocráticas obsoletas e normas não escritas de subserviências aos "poderes reais": os "senhores da sombra", "os barões", os famigerados "caciques". Não interpretem mal, considero que caciquismo têm sido inerente à democracia, porque todos os indivíduos são diferentes e uns são mais influenciáveis que outros, não é um mal em si mesmo. Nem é aí que está o problema. O problema está no supor da ignorância da população, na forma paternalista com que os partidos tratam o povo e na displicência com os "líderes" tratam "os militantes" cada vez mais apodados de "bases" para que não possam ter consciência do seu papel transformador. O problema está no celebrar da "trafulhice" e da "mediocridade" que realpolitik vai exaltando por interesses espúrios ou por medo do "pisar dos calos" de quem já se instalou.
No fundo um partido deve ser como uma enxada, deve estar ao serviço do povo para lavrar a terra e para que da terra possamos fazer brotar um mundo novo. Se o partido não nos serve para essa renovação do social, se está estagnado, não tem utilidade alguma. Neste caso, só temos duas hipóteses: ou consertámos a enxada ou construímos uma enxada nova. Nestas coisas da acção política não podemos é ficar sem ferramenta para agir sobre a sociedade. Porque como todos sabemos e só não queremos admitir em voz alta: ou tomamos conta da politica ou a política toma conta de nós.
