Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

sábado, 13 de junho de 2015

Redescobrir “A Portuguesa” ou o Elogio do povo audaz


Hoje é dia de Portugal, sabe quantos cantos tem o Hino Nacional? 
Reservemos a resposta para o fim. Se o elogio é ao povo audaz, neste "Dia de Camões e de Portugal e das Comunidades", os “heróis valentes” bem podem esperar. Falemos de todo um povo que se “levantou do chão”, olhou em frente e pretendeu criar um destino novo. Sempre que assim o fez - de “coração lavado” como no poema de Torga -, as acções individuais e colectivas da nação tiveram consequências globais, mais ou menos imprevisíveis, mesmo que não houvesse consciência de tudo isso. A expansão ultramarina será o mais reconhecido desses momentos, porém também o foi no período das invasões napoleónicas ou, mais recentemente, na “revolução democrática”, considerada por Alvin Tofller o início da “terceira vaga” originando o fim da Guerra Fria, porque o totalitarismo não passou. 
Em boa verdade, num tremendo esforço de vidas humanas, de recursos materiais e financeiros uma “jovem nação”, com pouco mais de um 1 milhão de habitantes construiu “o primeiro império global”, com base na guerra e na subjugação do outro é certo, mas ainda, e sobretudo, pela “fidalgia própria desta raça” (paráfrase do brasileiro Demóstenes Cristiano) expressada na diplomacia e na miscigenação. “O Império dos Pardais”, como já lhe chamaram, desvaneceu-se como “dragão de fumo”. Confesso, todavia, que tive de ir a Macau para realmente compreender o “ser português”. Neste torrão natal me sentia apenas ribatejano. Aquele chão chinês também somos nós. Aqueles vidas cruzaram-se na “ideia de Portugal como destino”, mais ao jeito de Agostinho da Silva do que de Eduardo Lourenço, debate que, por ora, não cabe aqui.
Em Macau, uma jovem guatemalteca me dizia: - “Estamos muito agradecidos aos portugueses, emitiram mais cem mil passaportes…”-, referindo-se à época da transição. Falava espanhol e tentava apreender com perfeição um idioma que admirava tal como à vida. Num gesto de abnegação revelou-me ter intenção de promover edições de Padre António Vieira, de Camilo Pessanha ou de Pessoa no seu “outro país” americano, agora que também era portuguesa.
No romance “A queda de um anjo”, Camilo Castelo Branco coloca na boca de uma criado o seguinte espanto: - “Foram para a Europa? Onde é a Europa?”. Mais tarde, na Faculdade de Letras, em Coimbra, as simpáticas e incansáveis funcionárias do correio perguntaria-me-iam: “Desculpe a Tailândia já faz parte da União Europeia”, - como se fosse mesmo ali ao lado, num gesto de inocência e cupidez. Somos “os olhos com que a Europa fita” escreveu Pessoa, mas nunca fomos apenas e só “um pequeno país europeu”. Um terço da nossa população vive na diáspora. Fora do debate académico, chamemos-lhe o que se quiser: ultramarino; euroatlântico, altântico-índico; ou universal. Portugal não é só aqui. Fica tanto em Timor, como no Luxemburgo, encontra-se nos arredores de Paris, como nos portugueses no Qatar, para nem falar das mais remotas paragens desta Terra a fora. 
A “ideia de Portugal” foi construída ao longo de séculos e encerra essa dimensão cosmopolita demonstrada, entre múltiplos aspectos, na disponibilidade permanente para a emigração, tornando “o mundo uma casa nossa”. No fundo, por mais amargura que tenhamos do “torrão natal”, haverá sempre alguma esperança de regresso, mesmo que apenas sazonal. Assim, se descobre a sabedoria, sintetizada no saber popular dos “egrégios avós”: “o trabalho não vem ter connosco, temos de o procurar”.
“Quem porfia sempre alcança” e nas nossas mãos está toda  “História do Futuro”. A crise foi ontem. No capitalismo haverá sempre uma nova crise daqui a algum tempo. Poderão existir ciclos curtos e ciclos longos. A crise foi ontem. A fraude continua todos os dias. A crise nasceu de uma fraude. É um logro, na forma como foi comunicada, e nasce de preconceitos económicos que se manifestam, por exemplo, no ataque especulativo ao Montepio Geral que hoje estamos a viver.  Deixemos a reflexão sobre banca para outra oportunidade.
Em 1956, o Estado Novo, criou uma versão curta do hino nacional, mutilando-o em dois cantos. Muito provavelmente, o intuito foi esconder as implícitas referências maçónicas da letra. “Saudai o sol que desponta | sobre um ridente provir | seja o eco de uma afronta | o sinal do ressurgir” ­-, assim começa o canto III. Deixo o desafio de redescobrirem o hino nacional completo, patriotismo à parte, fica a beleza do poema de Henrique Lopes de Mendonça. É bem actual a mensagem para ousarmos inventar um outro mundo possível:
“Desfralda a invicta bandeira | à luz viva do teu céu| brade a Europa à terra inteira: Portugal não pereceu!”

Lamego, 10 de Junho de 2015

©José Raimundo Noras