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Eça de Queirós

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

«Podia ser Natal?»


Roubei o título desta reflexão a uma música, cuja autoria não me lembro, incluída, há uma dúzia de anos, na antologia Espanta Espíritos. Enquanto roubo títulos de músicas, outros bem mais desesperados são forçados a roubar para comer, sem sequer o alarde de fazerem disso acção desobediência civil, em jeito de protesto, como a já famosa campanha de Nelson Arraiolos. Resta-nos, agora, saber se essa cadeia de supermercados dará um cabaz natalício a todos os “desempregados de longa duração”, como se reclama em múltiplos apelos por essas redes sociais a fora.
Segundo “os poderes reais”, o natal é mais simpático na Irlanda que se vai livrando destes desmandos ultraliberais, visto que a “tróica emigrou”. No seu discurso, não ouvi ninguém salientar isso, o primeiro-ministro irlandês, mal ou bem, apontou o dedo à ferida: “nunca mais voltaremos aos tempos da especulação e da ganância”. No fundo todos estes males, não são de agora e aliás, esta “crise sempiterna” em que vivemos é e foi, em primeiro lugar, ética ou não fosse a economia, na sua origem remota, uma “ciência da moral”. No fundo, os conglomerados financeiros, verdadeiros responsáveis do actual estado de coisas, paulatinamente, atiraram a culpa para cima dos “governos gastadores” ou dos “cidadãos endividados” que vão comendo gato por lebre neste e em tantos outros natais.                
Como sempre, entre o maior ou o menor mediatismo, as “campanhas de solidariedade” multiplicam-se, agudizam-se, até, nesta quadra festiva e úbere de compaixão. Porém, a grande parte destes apelos são feitos através do consumo de bens quase sempre supérfluos, os quais para além das suas intenções caritivas geram dividendos e, lá está, isenções fiscais a quem os comercializa, no fundo, com base nos donativos de outrem.
De facto, Žižek chamou ao actual modelo social “capitalismo cultural”. Com efeito, ao adquirir um bem, o “cidadão-consumidor” compra também a “desculpabilização das consequências nefastas”, sociais ou ambientais, do seu acto. Esse filósofo, num famoso vídeo animado sobre os tempos que correm, cita profusamente um ensaio esquecido, do qual nunca houve tradução portuguesa, de Oscar Wilde: The soul of Man under socialism (A alma do Homem sob o socialismo). Na nossa livre interpretação, Wilde entende esta “caridade sazonal” como parte do “problema da pobreza”. Segundo ele, combater tal “doença social com altruísmo” é impedir a verdadeira solução: “reconstruir a sociedade de maneira a que a pobreza seja impossível”.
Ainda que, no século em que vivemos, pela primeira vez na história humana, haja recursos suficientes para não haver fome, estaremos cada vez mais longe dessa visão de “mundo novo” do poeta vitoriano? Wilde já postulava sistemas públicos de saúde, de educação ou de habitação, quando o estado liberal singrava. O certo é que, enquanto a “nossa tróica” impera, não só aumentam os pobres, como singram os muito, muito ricos. Como dizia a música para espantar os espíritos: “podia ser natal e não ser farsa”.
Estes males não são de agora e a crise apenas transformou em calamidade situações já prementes de emergência social. No fundo, ao invés da “gramática das austeridades”, deveríamos todos pensar noutro mundo possível, em que, efectivamente a “ganância e a especulação” jamais fossem caminhos a seguir e a pobreza se tornasse impossível. Assim, como já no outro século, nos incitava Sidónio Muralha neste poema “Natal”:  

Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres,
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dos bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal!
Mas quando será para todos?
por Sidónio Muralha ©


© José Raimundo Noras

Imagem:
Pieter Bruegel (o velho), Le Recensement à Bethléem, 1566