«A nossa teoria é esta: quando um indivíduo se encontra em sérias dificuldades, e não pode honrar os seus compromissos na data do vencimento, é então que ele mais precisa do auxílio do seu banqueiro.»
Campbell, então Presidente do National Bank do Arkansas
citado por João de Sousa da Câmara,
em A missão pedagógica da banca,(1967), p. 158
Muito se tem escrito e vociferado sobre as polémicas declarações de um reputado banqueiro da nossa praça, quando no fundo o que parece faltar a toda "a classe" que vai liderando a nossa banca é um pouco do bom-senso do antigo presidente do banco do Arkansas. O livrinho de onde retiro a epígrafe, que reúne textos de João Sousa da Câmara, escritos grosso modo no final dos anos sessenta, bem podia servir de manual de boas maneiras a muitos banqueiros que para além não conhecerem o significado de deontologia, nunca suspeitaram que a banca tivesse uma missão pedagógica.
Campbell viveu, é certo, noutro clima económico, mas recordemos que na época em que escreve, esta frase resgatada por João da Câmara, os bancos de investimentos e de créditos estavam, nos EUA, estritamente separados dos bancos comerciais ou de depósitos, em resultado de leis aprovadas "na ressaca" da grande depressão. Estes mecanismos de regulação (abolidos na era Reagen), que se saiba nunca chegaram à Europa, a qual aliás à excepção da Alemanha e do que é hoje a Áustria, não foi assim tanto afectada pelos "depressivos anos 30", como alguns historiadores fazem crer. "Casa arrombada, trancas à porta", já se ouve o BCE a falar em novos "mecanismos de regulação da banca".
Por outro lado, foi precisamente na década de 30 que o escritor e agente comercial Fernando Pessoa deu à estampa, em revista literária, o seu famoso opúsculo: "O Banqueiro Anarquista". Certamente, Pessoa estaria longe de imaginar que volvidos menos de 100 anos, não só Portugal como o mundo dito ocidental estariam à mercê dos "achaques" de um grande banco (aqui refiro-me ao "infame" Goldman Sachs) e dos ditames de banqueiros mais ou menos anarquistas, tal a facilidade que fintam leis e regulamentos nos seus açambarcamentos quotidianos. É claro que neste caso, estamos a falar de banqueiros que afundam bancos inteiros, como o defunto BPN, sem que pouco ou nada lhes aconteça para além dos milhões acumulados e da possibilidade de carreira política. A nossa mensagem de ética e de bom senso não vai para esses, mas para os outros, ainda estamos seguros que existem "donos de banco" bem intencionados, por aí.
Considerar "a priori" que a banca tem uma missão pedagógica, será, ainda seguindo o texto de João da Câmara, defender simplesmente que a banca não deve "consagrar falsos valores". Talvez este preceito simples, aliado ao bom senso de Campbell, tivesse podido evitar a "grande crise" que vivemos mas, no fundo, já devíamos imaginar que a ganância humana parece desprovida de limites. Em boa verdade, já o tenho dito a crise que vivemos é moral, para além de económica e não faria mal nenhum a todo aprendiz de banqueiro reler os ensaios de João da Câmara e compreender que sem clientes e sem uma gestão honesta, o banco não sobrevive, ou melhor não devia sobreviver. Mas lá está, os Estados têm interferido no mercado de forma leviana, sem saberem bem o que fazer, perante uma crise financeira sem precedentes, a qual começou precisamente com a falência de um grande banco.
Verdadeiramente, já dizia Navarro Rubio "os banqueiros têm especial dever de serem exemplares. A sociedade pede e deve exigir-lhes uma conduta que corresponda à alta missão que lhes confia". Em suma, o espírito do banqueiro responsável será o mesmo que resulta da tal missão pedagógica da banca. Se a ética do banqueiro deveria ser irrepreensível, as regras jurídicas dos mercados financeiros deveriam ser bem claras e simples e não uma manta de retalhos que vai permitindo a "roleta-russa" com a economia de todos nós.