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Eça de Queirós

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O património de cada tempo nos dai hoje...


         Somos tentados a dizer que em Santarém “o Património contra-ataca”. Apesar da destruição bárbara de jardins ou de avenidas das últimas décadas, apesar do crapuloso abandono do património antigo e moderno “da cidade” e da falta de valorização deste, nos últimos dias, a discussão pública em torno de “questões patrimoniais” voltou à boca das gentes na urbe escalabitana.  
           A nova rosácea do Convento de São Francisco tem estado no âmago de apaixonadas discussões. Aliás, tantas são tantas questões que me colocam sobre o assunto, que ainda hoje, um pouco enfadado da “coisa”, com boa dose de sarcasmo à mistura, alvitrava a hipótese de “a rosácea nunca ter existido”. Já o mestre Saramago via os cruzados a “desajudar” a conquista de Lisboa e eu imaginava franciscanos a construir uma fachada cega (alvitrando um mundo moderno de costas voltadas para o espírito). Não quero entrar na discussão estanque, fora de meios académicos, “do que é ali estava” ou “do que é ficava ali bem”. É evidente que seria uma rosácea. Uma rosácea bem diferente de tudo aquilo o que possamos fazer no século XXI. Até porque o desejável, no meu modesto entender, será que a intervenção estética de qualquer restauro ou reabilitação se assuma como moderna. Tal como moderno é o famoso astronauta na Catedral de Salamanca. Nesse sentido, essa é a crítica despretensiosa que deixo àquela “nova rosácea”, a qual, ainda que singela e “franciscana”, está bem “distante do espírito do nosso tempo”.
         Todos discutem o que já é uma realidade. Como se discutiu o “Jardim da Liberdade” depois de já se ter destruído à Av. Sá da Bandeira e a sala de Leitura Bernardo Santareno, na ausência de lógica alguma sobre o pensar a cidade com os cidadãos. Creio que, neste momento, todos juntos, deveríamos antes questionar: porque é que não se cumpre a vontade de um rei? Porque é que ainda negamos a vontade a um rei defunto de secularmente permanecer em Santarém? Honrar o passado nas nossas vidas pessoais sempre passou por honrar a vontade dos mortos. O regresso do túmulo do Rei D. Fernando a esta cidade é uma causa justa, a qual não devemos esquecer. De todos os modos, bem-haja a um Convento de São Francisco em comunhão com Santarém. 
         Entretanto, no “Jardim da Liberdade” ainda não figura Bernardo Sá Nogueira, homem que se conta como um dos principais responsáveis pelas supressões quer da pena de morte, quer da escravatura, em terras de Portugal. Já lá estão Braamcamp Freire e D. António, Prior do Crato, aguarda vez São Paulo, de sua graça original Paulo Tarso. (Atenção, não nos referimos a “Paulo de Tarso” pseudónimo do panfletário nacionalista, antissemita  e antimaçon dos anos 30, António da Silva Peralta, português de origem e natural de Lagos. Trata-se mesmo do apóstolo original cuja relação com Santarém é bem discutível.) Estou certo que entre Santarém e a Cilícia vai distância da Fé dos Homens e não duvido da conversão de qualquer fariseu nas estradas de Damasco desta vida. Todavia, puxando a brasa ao meu bairrismo, como São Tomé duvido que mundo a fora, outras cidades haja que honrem os santos escalabitanos, se a sua mátria não o faz.


Postal Ilustrado. Edições Loty. Colecção "Passaporte", c. 1940

        Não tem nome de santa, tem nome de Rosa, nome de atriz. A 19 de Junho, sem pompa e sem conversa de café, vão passar 73 anos sobre a reinauguração do Teatro Rosa Damasceno. Quando eu por lá passo também todos me dizem “que vergonha esta ruína”! Mas a vontade de recriar, a vontade de agir sobre o que é de todos nós, salvaguardando tanto o passado como o futuro  - para além de honrosas exceções da "boa gente" que aqui vive - essa vontade maior perece no conformismo de uma cidade apática, num país amorfo. Não há por aqui nem associações culturais de “ocupas”, nem movimentos “Sousa Bastos Vivo” (lembrando o caso semelhante de teatro abandonado, em Coimbra). E quem fala do Rosa Damasceno, bem podia falar da Fonte das Figueiras, com a particularidade de que esta ainda não ardeu. Desenganem os que julgam a vergonha ficar só como os governantes, a vergonha fica com a cidade que não defende o que é seu. E cidade somos todos. 
         Se não defendermos a memória do que fomos, verdadeiramente, não teremos futuro e estaremos condenados ao “presente eterno” da anomia social. O património legado pelo nosso século XX não é uma memória como outra qualquer, está muito mais próximo de nós e da argamassa da nossa identidade. Refazendo a frase de Goethe, não saber dar conta dos últimos dois séculos de história é desonrar nossos pais, as nossas mães,  os nossos antepassados, vivendo o dia que passa numa condenação ao absurdo. Evidentemente, que não estou possuído de qualquer fanatismo. Porque na defesa do património também existem fariseus, alguns com a casa em ruínas, mas sempre ansiosos de tudo preservar. O grande desafio das sociedades humanas, nesta era da informação, estará no equilíbrio entre o “direito da memória” e o “dever do esquecimento”. Honrar o passado não deve ser entrave à construção do futuro, mas antes a alavanca do nosso desenvolvimento enquanto humanidade.
          Para além destas considerações filosóficas, se assim as quiserem, bem sabemos que o nosso património é muito mais “história” do que é “pedra”. É bem maior o nosso legado espiritual do que o legado material que o evoca. Por isso e porque ainda vivamos no “reino do Ter”, termino esta singela crónica, orando, numa súplica a São Frei Gil, “o património de cada tempo nos dai hoje”.  


©José Raimundo Noras
Santarém, 12/Junho/2012


"A Esmola de São Frei Gil" (ou "The Alms of Saint Giles), anónimo, escola flamenga, 
c. 1480, Museu de Arte de São Paulo, São Paulo