Roubei o título desta reflexão a
uma música, cuja autoria não me lembro, incluída, há uma dúzia de anos, na
antologia Espanta Espíritos. Enquanto
roubo títulos de músicas, outros bem mais desesperados são forçados a roubar
para comer, sem sequer o alarde de fazerem disso acção desobediência civil, em
jeito de protesto, como a já famosa campanha de Nelson Arraiolos. Resta-nos,
agora, saber se essa cadeia de supermercados dará um cabaz natalício a todos os
“desempregados de longa duração”, como se reclama em múltiplos apelos por essas
redes sociais a fora.
Segundo “os poderes reais”, o
natal é mais simpático na Irlanda que se vai livrando destes desmandos
ultraliberais, visto que a “tróica emigrou”. No seu discurso, não ouvi ninguém
salientar isso, o primeiro-ministro irlandês, mal ou bem, apontou o dedo à
ferida: “nunca mais voltaremos aos tempos da especulação e da ganância”. No
fundo todos estes males, não são de agora e aliás, esta “crise sempiterna” em que
vivemos é e foi, em primeiro lugar, ética ou não fosse a economia, na sua origem
remota, uma “ciência da moral”. No fundo, os conglomerados financeiros, verdadeiros
responsáveis do actual estado de coisas, paulatinamente, atiraram a culpa para
cima dos “governos gastadores” ou dos “cidadãos endividados” que vão comendo
gato por lebre neste e em tantos outros natais.
Como sempre, entre o maior ou o
menor mediatismo, as “campanhas de solidariedade” multiplicam-se, agudizam-se,
até, nesta quadra festiva e úbere de compaixão. Porém, a grande parte destes
apelos são feitos através do consumo de bens quase sempre supérfluos, os quais
para além das suas intenções caritivas geram dividendos e, lá está, isenções
fiscais a quem os comercializa, no fundo, com base nos donativos de outrem.
De facto, Žižek chamou ao actual modelo social “capitalismo cultural”. Com
efeito, ao adquirir um bem, o “cidadão-consumidor” compra também a “desculpabilização
das consequências nefastas”, sociais ou ambientais, do seu acto. Esse filósofo,
num famoso vídeo animado sobre os tempos que correm, cita profusamente um
ensaio esquecido, do qual nunca houve tradução portuguesa, de Oscar Wilde: The soul of Man under socialism (A alma do
Homem sob o socialismo). Na nossa livre interpretação, Wilde entende esta
“caridade sazonal” como parte do “problema da pobreza”. Segundo ele, combater
tal “doença social com altruísmo” é impedir a verdadeira solução: “reconstruir
a sociedade de maneira a que a pobreza seja impossível”.
Ainda que, no século em que
vivemos, pela primeira vez na história humana, haja recursos suficientes para
não haver fome, estaremos cada vez mais longe dessa visão de “mundo novo” do
poeta vitoriano? Wilde já postulava sistemas públicos de saúde, de educação ou
de habitação, quando o estado liberal singrava. O certo é que, enquanto a
“nossa tróica” impera, não só aumentam os pobres, como singram os muito, muito
ricos. Como dizia a música para espantar os espíritos: “podia ser natal e não
ser farsa”.
Estes males não são de agora e a
crise apenas transformou em calamidade situações já prementes de emergência
social. No fundo, ao invés da “gramática das austeridades”, deveríamos todos
pensar noutro mundo possível, em que, efectivamente a “ganância e a
especulação” jamais fossem caminhos a seguir e a pobreza se tornasse
impossível. Assim, como já no outro século, nos incitava Sidónio Muralha neste
poema “Natal”:
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres,
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dos bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
O jornal fala dos pobres,
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dos bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal!
Mas quando será para todos?
por Sidónio Muralha ©
© José
Raimundo Noras
Imagem:
Pieter Bruegel (o velho), Le Recensement à Bethléem, 1566



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