Maio é o mês
da mãe. Mês de morte e de renascimento
onde começa a vida, nas palavras do poeta. Maio, desde aurora da humanidade, têm estado associado ao culto a
divindades maternais, que incorporam em si mesmas o espírito renovador da natureza
das coisas, tantas vezes personificado como “Natureza Mãe”. Este grave mês, associado pela tragédia de
Chicago à luta secular das classes laboriosas, também é sinónimo da festa para
os estudantes — marcando para uns o começo e para outros o fim de uma etapa
percorrida. Possam, neste “Maio quente” em que vivemos, estes palavras
singelas, alinhavadas em jeito de crónica, inspirar vontades na concretização
de uma ideia, a qual, sentado nos ombros
de gigantes, já há algum tempo venho defendendo: a fundação da Universidade
do Ribatejo.
Neste texto
não pretendo justificar a defesa da minha dama. Creio que a necessidade de uma
Universidade no Ribatejo é premente, não apenas pelas várias razões inumeradas
nos dois textos anteriores, mas, também e, fundamentalmente, pela necessidade
de desenvolvimento económico, social e cultural das populações da nossa região.
Aqui proponho o elencar de três caminhos, necessariamente, três alternativas
para a concretização deste desígnio multissecular.
Numa primeira
análise, nos dias que correm, o caminho mais evidente para a criação de nova
Universidade será o da iniciativa privada. Não discuto aqui a legitimidade deste
caminho, nem a sua viabilidade económica. Mas temo que se for por este caminho
qualquer Universidade do Ribatejo, terá desde logo duas dificuldades de maior:
a necessidade de afirmação regional e a concorrência com instituições
preexistentes. Estes escolhos poderão, até, ser “cabos Não” ultrapassáveis, mas
não creio que a simples solução da criação de uma nova instituição de ensino
superior na região, possa ser o caminho mais avisado.
Em boa
verdade, neste particular, devemos aqui render homenagem ao Doutor António
Madeira, professor e dirigente do ISLA de Santarém, fundador do grupo UNISLA,
que muito labutou para a fixação e desenvolvimento de uma instituição de ensino
superior de referência no distrito de Santarém. De facto, o ensino superior universitário
já vai estando presente na região graças a esse esforço e aos dividendos que
dele se colheram.
O outro
caminho, também evidente, será o da constituição pública (entenda-se governamental)
de nova Universidade no distrito. Não, será, certamente, possível, este cenário
a breve trecho. Os gestores do Estado numa ânsia colectiva de diminuição de
custos, buscam em primeiro lugar encerrar e despedir e só a posterior ponderar decisões. Nesta avalanche de extinções e de
fusões, já muitos alvitram a fusão dos dois Institutos Politécnicos da região
em Universidade ou noutra coisa qualquer. De novo, não discuto a viabilidade
económica dessa ideia, mas tenho reservas quanto à legitimidade da mesma.
Quando, na história recente do nosso ensino superior (em Trás-os-Montes ou na
Beira Interior), algum Instituto Politécnico se transformou em Universidade
fê-lo por vontade emanada das próprias vivências e dos desígnios evolutivos da
comunidade onde se insere. Por ora, não sou arauto deste caminho, creio
existirem rotas mais interessantes a desbravar para um Universidade no
Ribatejo.
Proponho um
“caminho do meio”. Em minha modesta opinião, sustento que a fundação da
Universidade no Ribatejo deve nascer da comunidade e para a comunidade,
integrando todos os parceiros possíveis (públicos, privados, cooperativos,
associativos ou individuais) numa lógica agregadora. A ideia de Universidade
derivará, nessa comunhão social de vontades, num projecto regional de Escola,
educando, reflectindo e, até, apontando soluções nos caminhos de futuro.
Entendo, que, utilizando a figura jurídica da Fundação, poderá a futura
Universidade do Ribatejo nascer do comum acordo e do interesse mútuo de todas
as instituições de ensino que já actuam na região. Esta lógica de agregação das
sinergias das gentes do Ribatejo na construção de um novo projecto
universitário na região constituirá, sem dúvida, uma mais-valia não apenas para
a região, mas ainda para todos os intervenientes.
Enquanto o actual
sistema organização económica sobreviver os tempos de crise são, como nos
ensina a boa economia, cíclicos. Nem estes sobressaltos económicos, nem agonia
social em vivemos poderão ser ultrapassados com soluções arcaicas. Nos momentos
sombrios em que nos assalta o gérmen da insegurança do (e no) futuro, devemos
antes encarar esse tempo do porvir, apenas se fosse outro dia desponta. Nesse
futuro incerto e ensombrado, vislumbra-se um novo mês de Maio de renovação
social, saibamos ter as mãos abertas e prontas para o construir, todos juntos.
©
José Raimundo Noras
Maio
2012