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Eça de Queirós

terça-feira, 12 de junho de 2012

Universidade e Ribatejo (III)


Maio é o mês da mãe. Mês de morte e de renascimento onde começa a vida, nas palavras do poeta. Maio, desde aurora da humanidade, têm estado associado ao culto a divindades maternais, que incorporam em si mesmas o espírito renovador da natureza das coisas, tantas vezes personificado como “Natureza Mãe”. Este grave mês, associado pela tragédia de Chicago à luta secular das classes laboriosas, também é sinónimo da festa para os estudantes — marcando para uns o começo e para outros o fim de uma etapa percorrida. Possam, neste “Maio quente” em que vivemos, estes palavras singelas, alinhavadas em jeito de crónica, inspirar vontades na concretização de uma ideia, a qual, sentado nos ombros de gigantes, já há algum tempo venho defendendo: a fundação da Universidade do Ribatejo.
Neste texto não pretendo justificar a defesa da minha dama. Creio que a necessidade de uma Universidade no Ribatejo é premente, não apenas pelas várias razões inumeradas nos dois textos anteriores, mas, também e, fundamentalmente, pela necessidade de desenvolvimento económico, social e cultural das populações da nossa região. Aqui proponho o elencar de três caminhos, necessariamente, três alternativas para a concretização deste desígnio multissecular.
Numa primeira análise, nos dias que correm, o caminho mais evidente para a criação de nova Universidade será o da iniciativa privada. Não discuto aqui a legitimidade deste caminho, nem a sua viabilidade económica. Mas temo que se for por este caminho qualquer Universidade do Ribatejo, terá desde logo duas dificuldades de maior: a necessidade de afirmação regional e a concorrência com instituições preexistentes. Estes escolhos poderão, até, ser “cabos Não” ultrapassáveis, mas não creio que a simples solução da criação de uma nova instituição de ensino superior na região, possa ser o caminho mais avisado.    
Em boa verdade, neste particular, devemos aqui render homenagem ao Doutor António Madeira, professor e dirigente do ISLA de Santarém, fundador do grupo UNISLA, que muito labutou para a fixação e desenvolvimento de uma instituição de ensino superior de referência no distrito de Santarém. De facto, o ensino superior universitário já vai estando presente na região graças a esse esforço e aos dividendos que dele se colheram.
O outro caminho, também evidente, será o da constituição pública (entenda-se governamental) de nova Universidade no distrito. Não, será, certamente, possível, este cenário a breve trecho. Os gestores do Estado numa ânsia colectiva de diminuição de custos, buscam em primeiro lugar encerrar e despedir e só a posterior ponderar decisões. Nesta avalanche de extinções e de fusões, já muitos alvitram a fusão dos dois Institutos Politécnicos da região em Universidade ou noutra coisa qualquer. De novo, não discuto a viabilidade económica dessa ideia, mas tenho reservas quanto à legitimidade da mesma. Quando, na história recente do nosso ensino superior (em Trás-os-Montes ou na Beira Interior), algum Instituto Politécnico se transformou em Universidade fê-lo por vontade emanada das próprias vivências e dos desígnios evolutivos da comunidade onde se insere. Por ora, não sou arauto deste caminho, creio existirem rotas mais interessantes a desbravar para um Universidade no Ribatejo.  
Proponho um “caminho do meio”. Em minha modesta opinião, sustento que a fundação da Universidade no Ribatejo deve nascer da comunidade e para a comunidade, integrando todos os parceiros possíveis (públicos, privados, cooperativos, associativos ou individuais) numa lógica agregadora. A ideia de Universidade derivará, nessa comunhão social de vontades, num projecto regional de Escola, educando, reflectindo e, até, apontando soluções nos caminhos de futuro. Entendo, que, utilizando a figura jurídica da Fundação, poderá a futura Universidade do Ribatejo nascer do comum acordo e do interesse mútuo de todas as instituições de ensino que já actuam na região. Esta lógica de agregação das sinergias das gentes do Ribatejo na construção de um novo projecto universitário na região constituirá, sem dúvida, uma mais-valia não apenas para a região, mas ainda para todos os intervenientes.   
Enquanto o actual sistema organização económica sobreviver os tempos de crise são, como nos ensina a boa economia, cíclicos. Nem estes sobressaltos económicos, nem agonia social em vivemos poderão ser ultrapassados com soluções arcaicas. Nos momentos sombrios em que nos assalta o gérmen da insegurança do (e no) futuro, devemos antes encarar esse tempo do porvir, apenas se fosse outro dia desponta. Nesse futuro incerto e ensombrado, vislumbra-se um novo mês de Maio de renovação social, saibamos ter as mãos abertas e prontas para o construir, todos juntos.

© José Raimundo Noras
Maio 2012