“Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo”
José Afonso, letra da música Vampiros
Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
(…) Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
[Todos sabem que os dados estão viciados,
Todos jogam com os dedos cruzados (...),
Todos sabem que o combate foi arranjado,
Os pobres ficam pobres e os ricos mais ricos]
Leonard Coehn, letra da música Everybody knows
Enquanto aprendiz de historiador, atento ao que se passa no presente à minha volta, conto escrever uma crónica da minha época, se os entretempos da vida o permitirem — seguindo, aliás, os exemplos de alguns mestres da arte de historiar. No entanto, se Eric Hobsbawm chamou à sua autobiografia Tempos interessantes, creio ter para a minha história do século XXI um título bem mais polémico e assustador.
Lembrando o velho monge cronista, descrevendo o que via, enquanto os bárbaros destruíam o Império, poderei até começar assim o meu relato:
« Eu vi o fim da democracia. Vi a indiferença a tomar conta das gentes. Vi os governos, um após o outro, a obedecer, sem pestanejar, aos ditames internacionais cegos de economistas incoerentes ou de tecnocratas sem moral. Vi os costumes dissolverem-se, vi a ética tornar-se palavra morta. Vi os poderes reais destruírem o estado e vi os novos barões criarem a anarquia económica para proveito de alguns. Eu vi os jornalistas deixarem sossegada a busca da verdade ou ignorarem o dever da denúncia e, sem pudor ou qualquer tipo de escrúpulo moral, associarem-se ao poder e à perversão do poder económico.
Há poucas semanas, um governo democrático cedeu a pressões inaceitáveis e não convocou nenhum referendo. Dias depois, sem eleição alguma, foi substituído por um “grupo de técnicos” e o povo aplaudiu. Tal qual nos tempos de outrora eles vieram com o discurso de sempre: “são precisos sacrifícios”! É preciso sacrificar o salário do pobre, é preciso cortar na educação do inculto, é preciso tirar ao acesso à saúde ao doente e será quase obrigatório acabar com o voto do povo. No primeiro dia, quando chegaram suspenderam logo a soberania, nós aplaudimos. No segundo dia, instalaram-se e tiram-nos o direito à educação, nós dissemos que “sim senhor”. Abanámos a cabeça para baixo, "assim é que estava tudo bem". No terceiro dia, confiscaram os hospitais e nós até achámos a ideia interessante, a qual deu azo a muito comentário político desinteressado. No quarto dia, tomaram posse das ruas, compraram barato a polícia e grande parte do exército e todos nós obedecemos. Tal qual antigamente: "obedecemos porque devíamos obedecer". No quinto dia, promulgaram o fim de trabalho com direitos, disseram-nos que as 18 horas de trabalho diárias a sete dias por semana eram para nosso bem e nós assobiámos para o lado. No sexto dia, usurparam de vez o poder. Logo pela aurora, livraram-se dos políticos (eram um custo intermédio) e à tarde fecharam os tribunais. Nós nem sequer suspirámos, tudo era fundamental para pagar a dívida. No sétimo dia, antes de almoço vieram buscar as nossas casas, bens que agora enquanto propriedade dos mercados, seriam cotados na bolsa, para poderem valer 70 vezes o seu preço real. Ainda nessa noite, como não nos restava mais nenhum direito, vieram pela calada, para privatizarem toda e qualquer réstia de liberdade. Eu vi o mercado tornar-se o único o poder, legitimado pela “dívida eterna” e pelo “silêncio das nações”. Vi a corrupção sobrepor-se à verdade, vi os clamores do fim da sociedade livre. Eu vi o fim da democracia.»
Há poucas semanas, um governo democrático cedeu a pressões inaceitáveis e não convocou nenhum referendo. Dias depois, sem eleição alguma, foi substituído por um “grupo de técnicos” e o povo aplaudiu. Tal qual nos tempos de outrora eles vieram com o discurso de sempre: “são precisos sacrifícios”! É preciso sacrificar o salário do pobre, é preciso cortar na educação do inculto, é preciso tirar ao acesso à saúde ao doente e será quase obrigatório acabar com o voto do povo. No primeiro dia, quando chegaram suspenderam logo a soberania, nós aplaudimos. No segundo dia, instalaram-se e tiram-nos o direito à educação, nós dissemos que “sim senhor”. Abanámos a cabeça para baixo, "assim é que estava tudo bem". No terceiro dia, confiscaram os hospitais e nós até achámos a ideia interessante, a qual deu azo a muito comentário político desinteressado. No quarto dia, tomaram posse das ruas, compraram barato a polícia e grande parte do exército e todos nós obedecemos. Tal qual antigamente: "obedecemos porque devíamos obedecer". No quinto dia, promulgaram o fim de trabalho com direitos, disseram-nos que as 18 horas de trabalho diárias a sete dias por semana eram para nosso bem e nós assobiámos para o lado. No sexto dia, usurparam de vez o poder. Logo pela aurora, livraram-se dos políticos (eram um custo intermédio) e à tarde fecharam os tribunais. Nós nem sequer suspirámos, tudo era fundamental para pagar a dívida. No sétimo dia, antes de almoço vieram buscar as nossas casas, bens que agora enquanto propriedade dos mercados, seriam cotados na bolsa, para poderem valer 70 vezes o seu preço real. Ainda nessa noite, como não nos restava mais nenhum direito, vieram pela calada, para privatizarem toda e qualquer réstia de liberdade. Eu vi o mercado tornar-se o único o poder, legitimado pela “dívida eterna” e pelo “silêncio das nações”. Vi a corrupção sobrepor-se à verdade, vi os clamores do fim da sociedade livre. Eu vi o fim da democracia.»
Se tudo correr como o previsto e a finança continuar a governar sobre a vontade de quem trabalha para a sustentar, se os “políticos profissionais” continuarem a apaziguar o mercado na esperança de serem devorados em último, muito provavelmente já tenho um bom início para a minha crónica dos tempos que aí vêm. Continuai assim, não ligais a estes avisos, bebidos em pobres paráfrases de Martin Niemoller e de Eduardo Alves da Costa. Se tudo correr como o previsto, nós, aqueles que vivemos os tempos da “grande crise” no “século da indiferença”, poderemos contar aos nossos netos: “Eu vivi o fim da democracia e não fiz nada”.
© José Raimundo Noras