A intolerância irracional de muitos escusa ou justifica a hipocrisia ou [defende] dissimulação de alguns.
Mariano José Pereira da Fonseca
(Marquês de Maricá)
As raízes da intolerância, na verdade, radicam nos nossos preconceitos ancestrais, contudo muitas vezes se manifestam nos juízos de valor precipitados do quotidiano. A direita radical trouxe, novamente, ao debate político a hipótese de punição das mulheres pela livre interrupção da gravidez (dentro de determinados limites fisiológicos). Esse pensamento só pode resultar do mais retrógrado conservadorismo, o qual, no fundo, rejeita a liberdade individual como principio. Sejamos honestos: qual é a mensagem social, ou moral, daqueles que pretendem prender mulheres por abortarem? Tenhamos em conta a dificuldade nautral de tal decisão, a qual, aliás, muitas vezes, esconde difíceis situações sociais. O discurso dos conservadores torna-se assim, para além de intolerante, profundamente cruel.
Ser ou não ser mãe é um direito inalienável de todas as mulheres, nem o Estado, nem qualquer outra suposta entidade suprema, podem, ou devem sequer, interferir nessa decisão. Não vou represtinar todos argumentos já esgrimidos, nos debates recentes da nossa sociedade, sobre a questão. Interessa-me, sobretudo afirmar a defesa do que se trata de um direito que assiste a todas mulheres e, neste caso, a todas mulheres portuguesas, agora posto em causa pela intolerância de uns quantos.
Por fim, devemos compreender que esta “dissimulação de alguns” quando abordam direitos liberdades e garantias esconde velhas demagogias. De facto, se o liberalismo radical, nas suas diversas formas, pretende um “Estado mínimo” fora da economia, deixando a sua regulação ao “mercado livre”. No contexto social, os mesmos arautos do pensamento conservador defendem um “Estado interventivo”, um Estado cerceador das liberdades individuais e dos direitos adquiridos. Estes discursos radicais vivem de uma intolerância profunda e, ao mesmo tempo, espelham as contradições daqueles se vão defendendo ou justificando com a mais pura de todas hipocrisias: aquela que nasce da intolerância.