Nós queremos a revolução feita serenamente no domínio das ideias e da ciência, primeiro - depois pela influência duma opinião esclarecida e inteligente.
Eça de Queirós

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sobre uma brigada

Cá estou eu de novo a falar sobre Coimbra. Não, não é para criticar a sua universidade.Paz à sua alma que jaz perdida por entre as vielas e medinas próximas do rio Mondego. Este post é dedicado ao que de melhor se faz nesta cidade em termos musicais. Não, não vou falar sobre o fado de Coimbra, que, actualmente, é o mesmo desde que existiu, tirando as inovações introduzidas por Menano, Betencout, José Afonso e Luis Goes. Os actuais cantores e compositores não conseguem sair do quadrado musical formado por estes e repetem até à exaustão fórmulas já antes vistas e cantadas, sem um cheiro de inovação ou de arrojo interpretativo. Muitos dizem que é impossível romper com as matrizes fixadas na pedra da canção de Coimbra. Muitos disseram o mesmo em relação ao fado de Lisboa e vê-se como nos últimos temos este evoluiu consideravelmente, com novos intérpretes e novas melodias bem afadistadas.
Venho aqui falar de um grupo nascido em Coimbra que tudo fez para preservar a essência da música tradicional portuguesa - a Brigada Victor Jara. Nascidos com o intuito de louvar o tão conhecido cantor chileno assassinado pelas falanges de Pinochet, depressa tomaram conta do panorama musical português ao incutir simplicidade e veracidade à música popular portuguesa. Esta sim a verdadeira música nacional que se canta um pouco por todo o território continental e ilhas e não o fado (seja ele de que lugar for) que durante anos tentaram colar tal rótulo, esquecendo as chulas, os charambas e canas verdes, os corridinhos e o tão genuíno canto chão.
Não sei o que se passou na década de 80 do século passado, pois nessa época toda a música tradicional era mal vista, deixada de lado e envergonhava o país e a quem a ouvia.
Meus senhores, uma coisa é certa. Retirem da vossa órbita os rachos folclóricos feitos a régua e esquadro por pseudo-ideólogos do Estado Novo, e vejam como flui a verdadeira música tradicional, muita dela recolhida por Lopes Graça e Michel Giacometti nos anos de 50 e 60. Oiçam a Brigada Victor Jara, que recriam o melhor da nossa música que se encontra nos poros de qualquer português, parte integrante do nosso sentido de pertença.


Marião, Brigada Victor Jara


Durma, Brigada Victor Jara


Charamba, Brigada Victor Jara

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Burocracias

(To JS/07 M 378 This Marble Monument Is Erected by the State)

He was found by the Bureau of Statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint,
For in everything he did he served the Greater Community.

Except for the War till the day he retiredHe worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors Inc.
Yet he wasn't a scab or odd in his views,
For his Union reports that he paid his dues,
(Our report on his Union shows it was sound)
And our Social Psychology workers found
That he was popular with his mates and liked a drink.

The Press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his Health-card shows he was once in hospital but left it cured.
Both Producers Research and High-Grade Living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment Plan
And had everything necessary to the Modern Man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public Opinion are content
That he held the proper opinions for the time of year;
When there was peace, he was for peace: when there was war, he went.

He was married and added five children to the population,
Which our Eugenist says was the right number for a parent of his generation.
And our teachers report that he never interfered with their education.Was he free? Was he happy?

The question is absurd:Had anything been wrong, we should certainly have heard.

Auden The Unknown Citizen

sábado, 2 de janeiro de 2010

Uma Carta em defesa da civilização: "Carta de José Saramago a Aminetu Haidar"


Carta de José Saramago a Aminetu Haidar


Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo. Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário.

Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua aterra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possa alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.

Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá.

Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem gloria, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,

Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.

Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.

Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo... terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar.

© José Saramago